Escolas que questionam o sistema e dão a cada aluno o seu
tempo
MARIA JOÃO LOPES 24/11/2014 - 07:31
Há escolas que não têm manuais, nem aulas expositivas. Em
algumas são os alunos que escolhem o que estudar e quando querem ser avaliados.
Noutras, as notas não contam mais do que aprender a conhecer-se e a ser feliz.
O dia começa com uma roda. De mãos dadas, cantam, saltam à
corda, dizem poemas. A professora toca flauta, fala do vento, eles rodopiam. Só
depois vão para a aula. A Casa da Floresta Verdes Anos, colégio em Lisboa onde
não há computadores nem quadros interactivos, não é a única a seguir uma via
menos convencional.
N’Os Aprendizes, em Cascais, além do edifício onde decorrem
as aulas, há uma casa, o Reino dos Sentidos, dedicada sobretudo à arte-terapia:
não é só para meninos com necessidades educativas especiais, qualquer criança
pode ir lá e tentar ultrapassar uma dificuldade através da pintura, música,
neuroterapia, entre outras hipóteses.
Estes colégios são privados, mas a Escola da Ponte, Santo
Tirso, do pré-escolar ao 3.º ciclo, é pública. Sem aulas expositivas, são os
alunos que escolhem as matérias e quando querem ser avaliados.
São três exemplos, entre outros que não encaixam no sistema
convencional. Não se vangloriam de serem os melhores nos rankings, mas garantem
que as crianças aprendem e trabalham a criatividade, o espírito crítico, a
cidadania, a liberdade, a responsabilidade.
“Não acreditamos na avaliação quantitativa, mas qualitativa.
O professor olha para cada criança e vê se brinca, se come, se resolve um
problema na sala, lá fora, se tem dificuldade a Português, a Matemática. Não há
um melhor do que outro”, diz Rita Dacosta, directora da Casa da Floresta,
colégio até ao 1.º ciclo que segue a pedagogia Waldorf.
Além desta pedagogia, Os Aprendizes cruza o método High
Scope e o Movimento Escola Moderna. À fusão chamaram “Pedagogia do Amor”: “Está
na moda falar em sucesso, não em amor. Mas preparar os miúdos para a vida não é
só prepará-los tecnicamente. Ser bem sucedido profissionalmente é ser feliz,
realizado, trabalhar em algo produtivo, é cada um alcançar o máximo do seu
potencial”, diz Sofia Borges, directora deste colégio até ao 2.º ciclo.
A gestora da Escola da Ponte, Eugénia Tavares, frisa que
naquele estabelecimento – que fundem várias correntes, mas tem forte influência a do Movimento Escola Moderna – “o aluno tem uma atitude mais activa na procura
do conhecimento”. A coordenadora de projecto, Ana Moreira, acrescenta: “Nas
aulas convencionais, um assunto é dado e quem apanhou apanhou.”
Sérgio Niza, um dos fundadores do Movimento Escola Moderna e
que já fez parte do Conselho Nacional de Educação (CNE), diz que o “método
simultâneo” da maioria das escolas “resume-se a ensinar a muitos como se fossem
um só”: “A monstruosidade disto é não haver respeito por cada um.”
Ludovina Silva é presidente da Associação de Pais da Escola
da Ponte, tem lá dois filhos: “Quando saem da Ponte, são mais interventivos,
questionam mais.” Nesta escola, há comissões de ajuda, uma assembleia: os
alunos identificam os problemas da escola, debruçam-se sobre as soluções.
Admite que se sentiu “insegura” quando, no fim do 1.º ano, a
filha não sabia ler: “Mas ela teve de lidar com a timidez e, na Ponte,
trabalharam isso. É uma escola que respeita o tempo de cada aluno. Hoje é
excelente aluna.”
Efeito “perverso”
Rita DaCosta assume que a Casa da Floresta é avessa à lógica
dos melhores e piores: “Quando uma criança tem um "não satisfaz",
acha que é ela que não satisfaz. A partir daqui, é muito difícil trabalhar a
criatividade e a auto-estima.”
Para o docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da
Educação da Universidade do Porto e do Centro de Investigação e Intervenção
Educativas, Rui Trindade, há um “efeito educativo perverso da valorização de um
tipo de competitividade que poderá ser adequada para o desporto de alta
competição”, mas, na escola, é “um obstáculo educativo” – é uma lógica em que o
sucesso não é em função das “aprendizagens”, mas das notas.
No ano passado, a Casa da Floresta não teve exames
nacionais. Mas, segundo o ranking do PÚBLICO, que inclui as notas dos alunos
internos na 1.ª fase dos exames, n’Os Aprendizes, a média do 4.º foi 2,75 e, na
Ponte, 3,67 – a média nacional foi 2,8. Ainda na Ponte, no 6.º foi 3, acima dos
2,71 nacionais e no 9.º foi 2,5, a mesma do país.
Rui Trindade ressalva que “bons resultados nos exames não
significam, obrigatoriamente”, alunos “mais inteligentes, cultos e atentos aos
outros e ao mundo”. E Sérgio Niza defende mesmo que há “um desvio de sentido”
do Governo que, “sob a capa de um suposto rigor, é de um populismo
desenfreado”: “Não compreende nada do que é essencial na escola, compreende
tudo no plano empresarial. Joga com os alunos como se fossem mercadorias. Os
exames sucessivos fazem fugir a escola da cultura e põem-na a repetir, a treinar,
como se fosse treino desportivo”, faz notar. E frisa que esse caminho forma
pessoas “acéfalas e repetitivas”, em vez de “criativas, críticas,
imaginativas”.
Plenamente de acordo com Rui Trindade quando defende o
“efeito educativo perverso da valorização de um tipo de competitividade que
poderá ser adequada para o desporto de alta competição”, mas, na escola, é “um
obstáculo educativo” – é uma lógica em que o sucesso não é em função das
“aprendizagens”, mas das notas. Contra a política do momento, vão lutando os
professores das escolas “normais” (porque obedecem à norma) com um ou outro
trabalho de índole mais questionadora, mas os próprios alunos sentem-se como
peixe fora da água, nessas tarefas, já que, o que lhes é pedido, superiormente,
é que marrem e respondam ao exame com a destreza adquirida com o “treino para o
penalty” que é apanágio do "bom” professor.