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Por que motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?”
Fica a reflectir acerca disto durante uns parágrafos e acaba por concluir
que só pode ser um problema de educação. Por exemplo os desenhos das crianças
em geral são magníficos, os dos adultos, excepto no caso de serem artistas de
talento, uma bodega. Claro que é um problema de educação: uma criança criativa
é herética e subversiva
(até rima, olha) e claro que isso assusta os professores que exigem dos
alunos uma normalização que conduz inevitavelmente à mediocridade que tanto
tranquiliza os pais. Queremos que os filhos tenham vidinhas, sejam tristemente
independentes, consigam um bom casamento, uma, tanto quanto possível, boa casa,
um ordenado simpático, filhos bem educados. Claro que admitimos Gauguin ou
Mozart desde que não façam parte da família. Em geral as famílias defendem-se
criando um maluquinho. Todas têm aquilo que consideram o maluco da família e,
quando o maluco, por qualquer motivo, deixa de o ser, apressam-se a arranjar
outro antes que a estrutura se desagregue. Não há nada que assuste mais as
pessoas do que a criatividade, nada que as apavore mais do que a diferença. A
sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios
fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os
ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único
líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares
comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os
nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe
alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos
acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque
tranquiliza. Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital
que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos
miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis.
Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo,
não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um
homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os
homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os
únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e
prescindimos deles. Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa.
Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as
neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra
adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente
perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar
disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o
sossego. A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos
meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles
malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso
espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que
chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu
português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque
nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava.
Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um
teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura
sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E,
lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei.
Voltando à pergunta de Dumas – Porque é que há tantas crianças inteligentes e
tantos adultos estúpidos?
não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque
os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e
educação. A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças
inteligentes e muitos adultos estúpidos porque matámos o máximo de crianças que
perdemos quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo,
por medo.
António Lobo Antunes