PORTO – TECITURA SOCIAL
Havia grande actividade na larga
rua, chamada dos ingleses (...) A vida comercial estava então no seu auge;
numerosos grupos ocupavam os passeios, o centro da rua e os portais das velhas
casas, que de um e outro lado a limitam.
Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em ocasiões assim.
Nas posturas,
nos ademares e em várias outras exterioridades dos diferentes indivíduos que
compõem estes grupos pode-se encontrar indícios da posição comercial que eles
ocupam.
Vêem-se homens
de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras medidas e espremidas,
escutados, aqui e além, por um auditório atento, mudo, boquiaberto, cujas
cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de porcelana, comentam com
movimentos de aprovação as palavras destes oráculos; são directores de bancos,
ou de companhias comerciais de outra qualquer natureza, bem ou mal reputados,
as primeiras capacidades da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo futuro
dos seus capitais, meditam cada palavra deles, como as de uma mensagem de
Napoleão III, na abertura do parlamento francês.
Mais longe,
passeiam com ar de quem confiado em si, outros que não escutam os primeiros,
mas que os saúdam com fraternal familiaridade. Não têm tão numeroso cortejo a
rodeá-los, porém, são igualmente cumprimentados por todas as cabeças da Praça,
chamam aos lábios das pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de afabilidade, e
obrigam-lhes o tronco à inclinação expressiva de acatamento, pouco diferente da
eloqüência persuasiva, a qual, segundo um escritor humorista, é representada
por o ângulo de 85º ½ - com o horizonte – São estes os negociantes que não
administram capitais alheios, mas que dispõem de grandes capitais próprios; de
que menos directamente depende portanto a numerosa turba dos pequenos
capitalistas, mas cujos destinos influem, mais ou menos , sobre os de toda a
Praça. Além disso, têm a faze-los valer o prestígio da riqueza, prestígio que
se impõe até aos que nada esperam dela.
Observa-se às
vezes um espectáculo, à primeira vista de difícil interpretação. Um homem
humildemente vestido, de aspecto triste, de cabeça baixa e barbas crescidas, é
escutado com ansiedade na roda dos mais esplêndidos membros do corpo comercial;
todos parecem esforçar-se por não perder a menor palavra das poucas e sumidas
que o tal homem pronuncia. De vez em quando, ele murmura não sei que frase e
limpa ou faz que limpa uma lágrima, e os outros levantam as mãos ao Céu, cruzam
os braços, encolhem os ombros, coçam a cabeça, dão volta, como a distrair
mágoas, e tornam a acercar-se dele, como se fosse o centro da atracção daqueles
elementos dispersos; e toda a cena se reproduz de novo. Que quer isto dizer? –
É um negociante falido de pouco e rodeado de credores, a quem, na sua
humilhação, domina e que, de quando em quando apavora, calculando com voz
dolente o diminuto dividendo que lhes concederá. (...)
O olhar
exercitado em estudar a fisiologia da Praça talvez possa distinguir do
negociante, cujos pagamentos Aida em época alguma foram suspensos, aqueles
cujas remotas fracturas têm sido
miraculosamente consolidadas pelos
dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de maneiras é tão igual nas duas
espécies, que à nossa análise não é possível a discriminação.
A contrastar com
todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa, agitar-se na Praça, sempre a
passo rápido, rapazes na maior parte com papéis, sacas ou amostras na mão; saem
de um portal para entrar em outro; descem a Calçada do Terreiro em direcção à
Alfândega, ao cais ou a bordo de algum navio mercante; consultam os indivíduos
dos grupos que já mencionamos, ou aguardam pacientes que eles os descubram ou
interroguem; dirigem-se.lhes, então, tirando o chapéu – atenção nem sempre
retribuída - ; são estes os segundos-caixeiros, os chamados de “fora”, os
praticantes de escritório, os cobradores, e ainda os despachantes; aqueles,
enfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga da vida do comércio e quem
menos proventos auferem dela. Distinguem-se pelo grau de velocidade dos passos;
a dos despachantes, chega a ser incómoda de ver-se.
É digna também
de nota a posição que tomam mais ordinariamente os dois interlocutores dos
curtos diálogos, que a cada momento se travam no meio da rua, entre os
representantes das diversas hierarquias sociais, que se dizem – caixeiro e
patrão. O caixeiro está perfilado, com a mão na ba do chapéu e os olhos fitos
nos lábios do negociante; este responde-lhe, olhando para o lado e, às vezes
sorrindo até para um colega, que de longe lhe fala por acenos – distracção
perigosa para a clareza da ordem dada, mas cujas conseqüências são atribuídas
depois a quem a recebeu: os patrões mais acessíveis levam a bondade a ponto de
puxarem por o botão do casaco, ou de desapertarem o do colete do subordinado,
enquanto lhes dão instruções.(...)
Há ainda outra
classe, também inquieta, apressada, incansável, porém muito longe das
disposições para a reverência desta última em que falamos. Há nas suas
cortesias rasgadas alguma coisa de artificial, que não ilude ninguém, e às
vezes a menos cerimoniática familiariaridade substitui até essas aparências de
respeito. São espantosos de tenacidade a perseguirem em certos casos o
comerciante, que em vão tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a
direita, da direita para a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com
ele nos portais, sobem com ele as escadas, invadem-lhe o átrio dos escritórios,
transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem cerimônia às
escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos ombros, colocam-lhe diante dos olhos
garrafas, vidros, maços de fazenda, tabelas de preços, amostras de todos os
gêneros comerciáveis, de que andam constantemente munidos, e a custo se
resolvem a soltar das mãos a vítima que chegaram a atacar. – São estes os
correctores e os agentes de casas estrangeiras.
A classe dos
primeiros guarda-livros é a porção
aristocrática desta burocracia ou escritoriocracia comercial. Mostra-se
principalmente à janela dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando,
descansar das fadigas de uma escrituração. De ordinário, conservam a pena entre
os dedos, como para significar que é momentânea a pausa – o que nem sempre
sucede. Mais necessários, e por isso mais apreciados e atendidos, gozam já de
certas franquias e privilégios entre os da sua classe. É-lhes concedido falarem
da janela para a rua com algum colega ou amigo que passa; a alguns até se
permite fumar na varanda um charuto ou ausentar-se algum tempo do escritório
sem prévia requisição; na rua saúdam mais desassombrados os patrões e são menos
distraidamente correspondidos por estes.
Acrescente-se
agora a progênie ociosa dos grandes capitalistas - comerciantes honorários, cuja vida
comercial se reduz, como a de Carlos, a passear na Praça, até às quatro horas
da tarde; o brasileiro retirado, distraindo-se a presenciar, como espectador, o
labutar do negócio, à maneira do marítimo velho que se senta à beira-mar a
olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o empregado
da alfândega fumando o cigarro, nas freqüentes entreabertas de descanso de suas
laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade, estacionados a cada
esquina; os moços de escritório encostados às ombreiras das portas; os meninos
dos directores de companhias, confiados à vigilância de algum empregado
subalterno; isto tudo composto de ingleses ruivos, de alemães louros, de
brasileiros escuros, de portugueses de todas as cores, e ter-se-á imaginado o
aspecto da Praça comercial do Porto.
Júlio Dinis,
Uma família Inglesa, Obras de Júlio
Dinis, vol I, Porto, Lello & Irmão, s/d. Pp. 621-622.
As janelas
abriram-se às manhãs coruscantes (...) De súbito, podia ouvir-se uma cantiga,
um repicar de trálá-lás, a melopéia plangente de um fragamento de auto ou de
comédia trazida dos longes da província, a cançoneta trauteada de um filme
português, de, de um quadro de revista, misturada aos rumores de pregas
alisadas, sacudir de panos, desfraldar de colchas, abanar de colchões, roupa a
lavar nas pias. Podia também, inopinadamente, escutar-se um borrigmo penetrado
de silvos , de alguma telefonia demorando a aquecer, a transmitir vozes e
ritmos sobrelevando, por instantes breves, os demais.
As ruas
começavam a mexer-se nos perfis indecisos das manhãs, fazendo explodir em
centelhas vibrantes os azulejos das fachadas, brilhar as suas tintas, incendiar
a sua cal, ou enredando num véu pardo, inconsútil, abafando vozes, gritos,
ruídos.
Às campainhas de
polidos suportes, às mãozinhas de ferro pendendo da aldrabas, aos manípulos
rudes ligados a longínquas sinetas nos portões, batia o pequeno comércio
ambulante: as peixeiras de xaile e lenço, embiocando crânios levemente
descobertos no acto de arrear as canastras tapadas com um oleado cor de areia
molhada, desvendando cabelos luzidios, que, distraída e sistematicamente,
varriam com os dentes das travessas, voltavam a ocultar, num gesto maquinal e
muito antigo; as hortaliceiras, bem dispostas, tagarelas, de aventais álacres
com bolsos-alçapões, luminosa pele, olhinhos buliçosos, cabazes policromos,
cesário-verdeanos; as vendedeiras de aves, lutuosas, com jaulas prenhes de asas
à cabeça, pios, grasnidos, grugulejos, cheiros mornos de caca galinácea, penas
a colarem-se às testas miudinhas, enfeixadas de rugas paralelas, a esvoaçarem
junto às orelhas curtas sustentando prodigiosas arrecadas; as doceiras de alvas
batas, transportando sobre rodilhas destrançadas, reentrançadas, voltadas a
destrançar, baús verdes de lata repletos de pastéis caseiros conspicuamente
acamados por espécies entre folhas de papel vegetal levemente maculado de
gordura; os carteiros fardados de cinzento, com volumosas sacas de cabedal
transborbando de cartas e de embrulhos; as padeiras, as leiteiras, os cegos de
bonés ensebados, rostos macilentos de um vazio melancólico, batendo nos
passeios, em golpes lentos de matraca, as pontas das bengalas zebradas de
branco e encarnado; os mendigos de acaso, lamurientos, ossudos, desdentados,
autobiografando-se em miséria; as encardidas ciganas, com o seu bando de
catraios lambendo o próprio monco grudado às saias a roçarem o solo, propondo
passado e presente e futuro a coroa cada mão, uma cruz, sibilando: “Em louvor
do Santíssimo Sacramento, todo lo mal par’fora, todo lo bem par’ dentro2.
Em dias certos,
vinha receber ordens e entregar encomendas, numa alcofa de palha, o carniceiro,
homem de enxutas carnes, olhar velhaco (se não velhaco, pelo menos enfadado,
pelo menos impaciente, continuamente maldisposto), bata branca sulcada por
respingos de sangue alastrando numa auréola rósea, desbotada.
Semanalmente,
triste e ossuda, ocupando as sonolentas tardes dominicais, de alguidar de barro
à cabeça, como constituindo parte integrante do seu corpo, conferindo-lhe a
bizarra forma de um daqueles “bichos firozes” mais tarde divulgados por Rosa
Ramalho, os sovacos da desgastada blusa manchados de suor, a vendedeira de
tremoços.
De longe a
longe, o chinês das miudezas, baixo, de
fato completo e chapéu de feltro castanho, nó de gravata em rigoroso triângulo
eqüilátero, a boca abrindo em plano de
teclas de ouro e sarro de tabaco, transportando sobre o peito, preso com
correia ao cachço de galinha cozida, um painel de veludilho escarlate em que
fixavam cintilantes fancarias. Era calmo, imperturbável, como um dia de inverno
sem chuva nem vento.
Outros comércios
prescindiam das portas. Anunciavam-se por instrumentos pobres. Flautas de
celulóide, cornetas de metal torcidas como chifres, uma gaitinha curta agitando
grãozinhos a chocar uns nos outros e contra as paredes circundantes. O amola
tesouras e navalhas empurrando o seu motociclo azul ferrete, em forma de touro
de treino, velhos guarda-chuvas pendendo dos varais, a rodazinha de esmeril
soltando chispas sob o aço embotado; as carroças com pequenos tonéis metálicos
de azeite, de vinagre, de petróleo, de álcool desnaturador e fardos vistosos de
chitas, algodões, flanelas, um burrinho ajaezado com manta multicor e
campainhas. Do primeiro dizia-se, dizia-se dos sons que propagava, que
anunciava o Inverno, a chuva, a mudança de tempo, talvez porque viesse
geralmente em dias cor de cartucho, de farda de polícia e de magala, ou, com
mais freqüência, pelo Outono.
As ruas eram
francas, podendo preencher-se de carroças puxadas por muares e eqüídeos,
algumas vezes até, mas isso era mais raro ou podia ocorrer muito mais cedo,
ainda madrugada, quando os ardinas enfiavam à força os jornais nas caixas do
correio, por bois cor de tijolo, arrastando rumorejantes carros de
entrechocantes tábuas, com palhas, toros, lavagens em bidões para os porcos.
Porque automóveis, naquelas redondezas, circulavam pouco. Pelas manhãs, os seus
donos iam buscá –los à garagem à garagem do Alceu, um niquito de homem com cara
de saguim, calvo e beato que havia de perder em poucos dias a mulher e a única
filha atacadas de tétano sem qualquer delas saber o mal da outra ou ter notícia
do seu falecimento, só regressando ao fim do dia, quando a treva, havia muito,
caíra de improviso ou a tarde, em labaredas, devagar se extinguia, ao barracão
junto do cemitério, arrumando em predeterminados espaços com cal assinalados no
cimento oleoso e sombrio, os seus carros.
As senhoras não
tinham necessidade de ir às compras. Quando muito, mandavam as criadas buscar
fitas de nastro, alfinetes, agulhas, novelos de lã ou de algodão perlé à loja da Aurelinas, duas irmãs
marrecas e grisalhas, em perpétuo luto, mercearias à lojeca acanhada, suja,
derramando para além do portão de chapa da viela, com um ramo seco de loureiro
espetado nas lanças, da porta mal pintada de castanho da venda que moscas
peganhentas todo o ano habitavam, um cheiro enjoativo a petróleo, azeite e
vinho, do Ambrósio, polícia reformado, sólido, de alcunha “ o Badalhoco”, que
tuberculizara, estivera internado no sanatório do Caramulo, mas resistira
bravamente à doença, fazendo seus os pratos de comida de cinco ou seis
companheiros de enfermaria mais falhos de apetite, mais à morte dados. Seriam
as serviçais atendidas pela senhora Amália, mulher do merceeiro, anêmica, lenta
da voz aos gestos, paquidérmica de elefantíase, enquanto atrás, num barraco
coberto por chapa ondulada de zinco, o Ambrósio dava de beber, também bebia, ou
enxotava para a loja os filhos, uns fracas-chichas ramelosos.
António
Rebordão Navarro, A Praça de Liège,
Lisboa Círculo de Leitões, 1988, pp. 5-9
Mas a semelhança
ligava-se preferentemente ao Heitor de muitos anos atrás, entre a guerra e oseu
termo, quando era muito mais novo que o
ensaísta e andava metido em negociatas equívocas prporcionando-lhe bons espadas
americanos, Cadillac e De Sotto brancos, em cujas portas, que atirava com força
nas faces afogueadas dos basbaques tomando o fresco na Avenida Brasil, mandara
incrustar, em gravações de estanho, o seu brasão. Vestia bem, fatos de pura
casimira inglesa e cheviotes bem talhados ao seu corpo alto e espadaúdo,
camisas de seda beige ou azul-escura, com a coroa de barão bordada, abertas no
Verão até à ponta do esterno ou apertadas nos laços de pomposas gravatas
furadas por alfinetes de brilhantes. Jovava forte nos casinos da Povoa e de
Espinho e ainda em certas tavolagens mais ou menos clandestinas, dava boas
espórtulas aos porteiros e aos criados das casas de chá e reataurantes chiques,
fora um dos primeiros a roçar o porto pelo uísque e se geralmente se fazia
acompanhar de mulheres um tanto duvidosas que riam oufalavam muito alto ou se
pintavam escandalosamente, era muito conhecido e, embora não possuísse o charme
do jamais olvidado pelas velhas fidalgas seu tio Henrique, mesmo nos desmandos
fulgurantes, tinha também muita classe e era muito fino nos novos tempos que
eram desencantados, bem diversos desses outros, já tão longe e tão estáveis nas
suas estruturas sociais em que os nomes conferiam estatuto , eram respeitados e
um fidalgo era sempre um fidalgo, nada tinha a ver com os pobres filhotes de pequenos
merceeiros, alfaiates, droguistas, saindo doutores das faculdades.
As danadas
dessas duas guerras tinham subvertido, confundido tudo. Não tardaria até que os
filhos dos obreiros e dos mecânicos se tornassem engenheiros, arquitectos,
juízes, levando os melhores filhos-família a terem de tirar-lhes os chapéus.
Não mais seria
possível um Henrique José de Sousa Guimarães Vilaça, com a sua filáucia , a sua
elegância, a sua graça. Os privilégios desapareciam. Qualquer talhante, agora,
Deus do céu, era mais rico e conceituado que muitos nobres a caírem de fome ou
vilmente fardados de chauffeur. Tristes tempos devorados pelo dinheiro! O que
mais se veria, estaria por vir? E as melancólicas macróbias, pensou Tiago,
soltariam entre dentes podríssimos lamentosos suspiros, agradecendo à Senhora
de Fátima e ao providencial presidente Salazar os milagres de as terem poupado
ao bolchevismo e aos desastres da guerra.
António
Rebordão Navarro, Mesopotâmia, Difel,
Lisboa, 1984.
Fim séc.
XIX
Caixeiros
Quanto aos
empregados de commercio, os caixeiros particularmente, esses comem e vivem em
casa dos patrões; sahem aos domngos por turnos, gastam a tarde nu, passeio num
Café, ou numa sociedade de dança, e recolhem o mais tardar às oito horas
,precisando licença especial para ir ao theatro, ou passar a noite fora. Nesta
limitação prohibitiva de costumes, formam-se, segundo a opinião dos
commerciantes, os futuros homens sérios, que tem de succeder-lhes nobalcão,,
nos chinelos de liga acalcanhados , nos estribilhos chulos, e na meia suissa
arredindada, que foi por largos annos a
inimiga intransigente do bigode, considerado apenas como prenda sexual dos
vadios, que passavama vida em botequins. Hoje amaciou um pouco esse ódio de
Capeto e a própria suissa escanhoada vae á tarde jogar o dominó com parceiros
conhecidos no café mais prximo do estabelecimento. Succede por isso que os
cafés no Porto são concorridíssimos ao anoiteer, lusco-fusco, quando em Lisboa,
por exemplo, ainda o gaz tremula na frouxa oscillação da meia luz. È que também
no Porto se janta mais cedo, e a tarde , que é para Lisboa um encanto, é para a
cidade invucta um aborrecimento, só vulnerável por uma partida de bilhar, pelo
doble zero, ou pelo café servido com goles de cognac.
José Augusto
Vieira, O Minho Pitoresco, ed. Do Rotary Club de Valença, Valença,
1987Tomo II, p.707.
Vendedores
Ambulantes
O aguadeiro
é uma profissão em declínio e a instalação da rede de distribuição de água
domiciliária constituirá um rude golpe para este comércio, que ocupava um
considerável número de pessoas, muitas das quais originárias da Galiza. De
igual modo, a venda de castanha assada, feita sobretudo por beirões, a de
refrescos na Praça de D. Pedro, ou a de rebuçados da Régua, terá conhecido uma
época de menor progresso, conquanto sobrevivam alguns anos mais
José Alberto
Rio Fernandes, Porto – Cidade e Comércio,
documentos e Memórias para a História do Porto, Arquivo Histórico/ Câmara
Municipal do Porto, Porto 1997, p. 57
Entre os
muitos que se dedicam a este comércio ao ar livre, feito isoladamente,
contam-se ainda ... os aldeões e aldeãs [que ] vão e vêm, apregoando laranjas,
legumes, frutos, flores, que trazem em cestos de junco.
Velho Tripeiro
– O que dizem de nós, A cidade do Porto descrita por Oliveira Merson na sua
viagem a Portugal em 1857, Porto, “O Tripeiro”, vol III, 1ª série,
Associação Comercial do Porto, 1912, p. 424) in José Alberto R. Fernandes, op.
cit, p.
CONVÍVIOS –
REPRESENTAÇÕES
Socialmente, o
Passeio da Cardosa, mais ainda que o Camanho, a Farmácia Lemos, o Lino, ou a
Livraria More, é o local predilecto de encontro. E são tantos os que aí se
concentram, cavaqueando, discutindo e gozando a animação resultante do
movimento de um elevado número de passantes, que alguns lhe chamavam o “aquário
dos imbecis”, a maioria o “pasmatório dos lóios” enquanto que, outros ainda,
costumeiros no local, criam uma associação de estatuto incerto, a que chamam de
“Real Clube dos Encostados”. Assim , na década de oitenta do século passado é
em torno da Praça de D. Pedro que se situava já, senão o principal centro
financeiro, certamente que o centro cívico, o centro social, o “ ... centro
comercial da cidade, Praça Nova, Lóios, Rua de santo António e Clérigos, [ onde a
maioria d ]as lojas tinham melhor aspecto, algumas eram parte das cafurnas
sombrias da rua das Flores, das Hortas [ tramo Sul da actual do Almada], etc.
José Alberto
Rio Fernandes, Porto – Cidade e Comércio,
documentos e Memórias para a História do Porto, Arquivo Histórico/ Câmara
Municipal do Porto, Porto 1997, p. 52
Mobilizaria ela,
no entanto, nessa apetência da exterioridade, os elementos da família e os
amigos mais próximos, para uma sucessão de piqueniques, criteriosamente
preparados. Seleccionava o sítio, primeiro, operação que dependia da época
anual e do quadro atmosférico, de um arbítrio momentâneo, do interesse por um
facto histórico ou por um aspecto geográfico, em conformidade se estruturando o
seu assalto e a sua tomada. Eram zonas de pequenos bosques, como as de
Ermesinde e de Rio Tinto, de margens ribeirinhas, como as do Freixo e de
Avintes, de pendores montanhosos, como as de Gondomar e de Valongo, de praias
afectuosas, como as de Matosinhos e de Lavadores. E erguiam-se, de madrugada,
pelas cinco horas, entre o charivari de protestos dos mais idosos, que
preferiam o sedentarismo, e o chilreio de falações das crianças, que nisso
anteviam a aventura maior que se lhes propiciava. Investia a nossa heroína,
entretanto, numa extravagância transbordante, pelo que respeitava às
alternativas de sua toilette, inspirada na emblemática aparência das quatro
estações, tal e qual se alegorizavam, naqueles quadros de moldura de
pinho-da-escócia, na sala de jantar da Rua do Calvário. E surgia, então, ora
como a Primavera, de écharpe muito colorida, aparando num braço um cesto
repleto de flores, ora como o Verão, de blusa de decote condescendente, com um
chapéu carregado de frutos variados, ora como o Outono, de casaquinha de tule
roxo, sobraçando um molho de feno, ora como o Inverno, de capuz de debruns de
pele, alteando um ramo de azevinho. Sentava-se na erva, assim, enquanto os
outros comiam, na usual ocupação de formar um ramalhete de margaridas, cantando
uma berceuse, que só ela, mais ninguém, conseguiria compreender. Acomodavam-se
os homens, como sempre, nos lugares mais confortáveis, base de forte roble, a
que pudessem encostar-se, pedra de musgo fofo, que lhes proporcionasse bom
assento. E, de um açude, escondido pelas frondes, vinha a melopéia, incessante
e embaladora, que não era alegre nem triste. Enfraqueciam as vozes, a partir de
dada altura, como se, de modo crescente, se fosse tornando uma abominação,
contra a imponência do cenário, a manifestada presença da subvertora
humanidade. E algumas garotinhas, apenas, arregaçando os bibes, caminhavam pela
ribas do regato, colhendo seixos polidos, que enfiavam no bolso.
Mário
Cláudio, A Quinta das Virtudes,
Quetzal Editores, Lisboa, 1991, pp. 299, 300
Os que vão dos
Guindais, da Ribeira, de Massarelos ou de Miragaia jantar ao domingo em
família, e em festa “pelo rio acima” a Quebrantões, ao Freixo, à quinta da
Oliveira, preferem para a excursão fluvial, ao bote correcto e banal dos
barqueiros de Gaia, o pitoresco, o vetusto, o festival pangaio da Padeira de
Avintes, mordido pelo sol, despintado pelo tempo, aqui e ali descosido e
descalefetado nas juntas do cavername, de toldo de linho em remendos, coma
flâmula em bico, de paninho vermelho, tremulando alegremente na ponta de uma
vara de pinho.
A recordação da
patuscada campestre, da fritura e da salada comida na relva à sombra dos
castanheiros, entre o rumor da água e o gorjeio dos ninhos , fica para sempre
aliada na memória à silhuetta robusta e sadia da esbelta remadora, de cujo
aspecto parece vir para nós, num ridente
eflúvio bucólico, a sensação dos fenos percorridos, dos morangais
atravessados numa tarde de Verão, com o carreiro da alfazema através do
quinteiro, o poço ornado de craveiros e de manjericos, as garrafas lacradas de
verde refrescando na água de bica os vestidos de musselina, os ramalhetes de
papoulas e de espigas de trigo, a alface ripada em jovial colaboração em torno
da saladeira em ramagens, e os víveres que saem do cesto novo para a toalha
desdobrada no chão, sob um picante e apetitoso aroma de rega, de coentros e de
cebolinho novo
Ramalho
Ortigão, Álbum de Costumes Portugueses,
Lisboa, David Corazzi, s/d
Os lugares de
encontro, o vestuário, os tempos e as formas de sociabilidade popular, e mesmo
da pequena-burguesia conservam muitas características tradicionais,
alternando-se, no entanto, gradualmente, por efeito da pressão, quer das normas
implícitas que são associadas à ascensão social e que conduzem à imitação dos
hábitos das elites, quer das transformações impostas pelo tempo industrial e
pela nova ordem dos espaços.
Em meados do
século, o tempo religioso continua a dominar o quotidiano das camadas
populares. O domingo é o único dia de lazer, marcado pela missa matinal e pelos
passeios, à tarde, até ao campo ou ao rio. Uma ou outra vez, vai-se, em
família, merendar, “sob a folhagem das parreiras”, às hortas de peixe frito” do
Reimão, Barros Lima ou S. Roque da Lameira. De Verão, são os passeios no rio,
prolongando as “fúrias” setecentistas, até às barracas de sável do Areinho ou,
noutra direcção, até ao Leça. Aqui e ali, juntam-se grupos de tocadores de
“ramaldeiras” em bailaricos e descantes improvisados.
À medida que
crescem as aglomerações populares “suburbanas” das freguesias mais
industrializadas, com o Bonfim, Cedofeita ou Lordelo, nas “ilhas” ou nas
“eiras”, os “espectáculos de dança” tornam-se o recreio predilecto do domindo à
tarde dos jovens das classes trabalhadoras. Com o associativismo operário,
diversas colectividades promoverão também bailes par os seus sócios, nas
respectivas sedes, não sem escândalo das vizinhas famílias burguesas.