terça-feira, 19 de junho de 2001

Porto- tecitura social

 

PORTO – TECITURA SOCIAL

 

 

Havia grande actividade na larga rua, chamada dos ingleses (...) A vida comercial estava então no seu auge; numerosos grupos ocupavam os passeios, o centro da rua e os portais das velhas casas, que de um e outro lado a limitam.  Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em ocasiões assim.

Nas posturas, nos ademares e em várias outras exterioridades dos diferentes indivíduos que compõem estes grupos pode-se encontrar indícios da posição comercial que eles ocupam.

Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditório atento, mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de porcelana, comentam com movimentos de aprovação as palavras destes oráculos; são directores de bancos, ou de companhias comerciais de outra qualquer natureza, bem ou mal reputados, as primeiras capacidades da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo futuro dos seus capitais, meditam cada palavra deles, como as de uma mensagem de Napoleão III, na abertura do parlamento francês.

Mais longe, passeiam com ar de quem confiado em si, outros que não escutam os primeiros, mas que os saúdam com fraternal familiaridade. Não têm tão numeroso cortejo a rodeá-los, porém, são igualmente cumprimentados por todas as cabeças da Praça, chamam aos lábios das pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de afabilidade, e obrigam-lhes o tronco à inclinação expressiva de acatamento, pouco diferente da eloqüência persuasiva, a qual, segundo um escritor humorista, é representada por o ângulo de 85º ½ - com o horizonte – São estes os negociantes que não administram capitais alheios, mas que dispõem de grandes capitais próprios; de que menos directamente depende portanto a numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem, mais ou menos , sobre os de toda a Praça. Além disso, têm a faze-los valer o prestígio da riqueza, prestígio que se impõe até aos que nada esperam dela.

Observa-se às vezes um espectáculo, à primeira vista de difícil interpretação. Um homem humildemente vestido, de aspecto triste, de cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com ansiedade na roda dos mais esplêndidos membros do corpo comercial; todos parecem esforçar-se por não perder a menor palavra das poucas e sumidas que o tal homem pronuncia. De vez em quando, ele murmura não sei que frase e limpa ou faz que limpa uma lágrima, e os outros levantam as mãos ao Céu, cruzam os braços, encolhem os ombros, coçam a cabeça, dão volta, como a distrair mágoas, e tornam a acercar-se dele, como se fosse o centro da atracção daqueles elementos dispersos; e toda a cena se reproduz de novo. Que quer isto dizer? – É um negociante falido de pouco e rodeado de credores, a quem, na sua humilhação, domina e que, de quando em quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes concederá. (...)

O olhar exercitado em estudar a fisiologia da Praça talvez possa distinguir do negociante, cujos pagamentos Aida em época alguma foram suspensos, aqueles cujas remotas fracturas têm sido miraculosamente consolidadas pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de maneiras é tão igual nas duas espécies, que à nossa análise não é possível a discriminação.

A contrastar com todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa, agitar-se na Praça, sempre a passo rápido, rapazes na maior parte com papéis, sacas ou amostras na mão; saem de um portal para entrar em outro; descem a Calçada do Terreiro em direcção à Alfândega, ao cais ou a bordo de algum navio mercante; consultam os indivíduos dos grupos que já mencionamos, ou aguardam pacientes que eles os descubram ou interroguem; dirigem-se.lhes, então, tirando o chapéu – atenção nem sempre retribuída - ; são estes os segundos-caixeiros, os chamados de “fora”, os praticantes de escritório, os cobradores, e ainda os despachantes; aqueles, enfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga da vida do comércio e quem menos proventos auferem dela. Distinguem-se pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes, chega a ser incómoda de ver-se.

É digna também de nota a posição que tomam mais ordinariamente os dois interlocutores dos curtos diálogos, que a cada momento se travam no meio da rua, entre os representantes das diversas hierarquias sociais, que se dizem – caixeiro e patrão. O caixeiro está perfilado, com a mão na ba do chapéu e os olhos fitos nos lábios do negociante; este responde-lhe, olhando para o lado e, às vezes sorrindo até para um colega, que de longe lhe fala por acenos – distracção perigosa para a clareza da ordem dada, mas cujas conseqüências são atribuídas depois a quem a recebeu: os patrões mais acessíveis levam a bondade a ponto de puxarem por o botão do casaco, ou de desapertarem o do colete do subordinado, enquanto lhes dão instruções.(...)

Há ainda outra classe, também inquieta, apressada, incansável, porém muito longe das disposições para a reverência desta última em que falamos. Há nas suas cortesias rasgadas alguma coisa de artificial, que não ilude ninguém, e às vezes a menos cerimoniática familiariaridade substitui até essas aparências de respeito. São espantosos de tenacidade a perseguirem em certos casos o comerciante, que em vão tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com ele nos portais, sobem com ele as escadas, invadem-lhe o átrio dos escritórios, transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem cerimônia às escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos ombros, colocam-lhe diante dos olhos garrafas, vidros, maços de fazenda, tabelas de preços, amostras de todos os gêneros comerciáveis, de que andam constantemente munidos, e a custo se resolvem a soltar das mãos a vítima que chegaram a atacar. – São estes os correctores e os agentes de casas estrangeiras.

A classe dos primeiros guarda-livros é a porção  aristocrática desta burocracia ou escritoriocracia comercial. Mostra-se principalmente à janela dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar das fadigas de uma escrituração. De ordinário, conservam a pena entre os dedos, como para significar que é momentânea a pausa – o que nem sempre sucede. Mais necessários, e por isso mais apreciados e atendidos, gozam já de certas franquias e privilégios entre os da sua classe. É-lhes concedido falarem da janela para a rua com algum colega ou amigo que passa; a alguns até se permite fumar na varanda um charuto ou ausentar-se algum tempo do escritório sem prévia requisição; na rua saúdam mais desassombrados os patrões e são menos distraidamente correspondidos por estes.

Acrescente-se agora a progênie ociosa dos grandes capitalistas  - comerciantes honorários, cuja vida comercial se reduz, como a de Carlos, a passear na Praça, até às quatro horas da tarde; o brasileiro retirado, distraindo-se a presenciar, como espectador, o labutar do negócio, à maneira do marítimo velho que se senta à beira-mar a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o empregado da alfândega fumando o cigarro, nas freqüentes entreabertas de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade, estacionados a cada esquina; os moços de escritório encostados às ombreiras das portas; os meninos dos directores de companhias, confiados à vigilância de algum empregado subalterno; isto tudo composto de ingleses ruivos, de alemães louros, de brasileiros escuros, de portugueses de todas as cores, e ter-se-á imaginado o aspecto da Praça comercial do Porto.

Júlio Dinis, Uma família Inglesa, Obras de Júlio Dinis, vol I, Porto, Lello & Irmão, s/d. Pp. 621-622.

 

 

 

As janelas abriram-se às manhãs coruscantes (...) De súbito, podia ouvir-se uma cantiga, um repicar de trálá-lás, a melopéia plangente de um fragamento de auto ou de comédia trazida dos longes da província, a cançoneta trauteada de um filme português, de, de um quadro de revista, misturada aos rumores de pregas alisadas, sacudir de panos, desfraldar de colchas, abanar de colchões, roupa a lavar nas pias. Podia também, inopinadamente, escutar-se um borrigmo penetrado de silvos , de alguma telefonia demorando a aquecer, a transmitir vozes e ritmos sobrelevando, por instantes breves, os demais.

As ruas começavam a mexer-se nos perfis indecisos das manhãs, fazendo explodir em centelhas vibrantes os azulejos das fachadas, brilhar as suas tintas, incendiar a sua cal, ou enredando num véu pardo, inconsútil, abafando vozes, gritos, ruídos.

Às campainhas de polidos suportes, às mãozinhas de ferro pendendo da aldrabas, aos manípulos rudes ligados a longínquas sinetas nos portões, batia o pequeno comércio ambulante: as peixeiras de xaile e lenço, embiocando crânios levemente descobertos no acto de arrear as canastras tapadas com um oleado cor de areia molhada, desvendando cabelos luzidios, que, distraída e sistematicamente, varriam com os dentes das travessas, voltavam a ocultar, num gesto maquinal e muito antigo; as hortaliceiras, bem dispostas, tagarelas, de aventais álacres com bolsos-alçapões, luminosa pele, olhinhos buliçosos, cabazes policromos, cesário-verdeanos; as vendedeiras de aves, lutuosas, com jaulas prenhes de asas à cabeça, pios, grasnidos, grugulejos, cheiros mornos de caca galinácea, penas a colarem-se às testas miudinhas, enfeixadas de rugas paralelas, a esvoaçarem junto às orelhas curtas sustentando prodigiosas arrecadas; as doceiras de alvas batas, transportando sobre rodilhas destrançadas, reentrançadas, voltadas a destrançar, baús verdes de lata repletos de pastéis caseiros conspicuamente acamados por espécies entre folhas de papel vegetal levemente maculado de gordura; os carteiros fardados de cinzento, com volumosas sacas de cabedal transborbando de cartas e de embrulhos; as padeiras, as leiteiras, os cegos de bonés ensebados, rostos macilentos de um vazio melancólico, batendo nos passeios, em golpes lentos de matraca, as pontas das bengalas zebradas de branco e encarnado; os mendigos de acaso, lamurientos, ossudos, desdentados, autobiografando-se em miséria; as encardidas ciganas, com o seu bando de catraios lambendo o próprio monco grudado às saias a roçarem o solo, propondo passado e presente e futuro a coroa cada mão, uma cruz, sibilando: “Em louvor do Santíssimo Sacramento, todo lo mal par’fora, todo lo bem par’ dentro2.

Em dias certos, vinha receber ordens e entregar encomendas, numa alcofa de palha, o carniceiro, homem de enxutas carnes, olhar velhaco (se não velhaco, pelo menos enfadado, pelo menos impaciente, continuamente maldisposto), bata branca sulcada por respingos de sangue alastrando numa auréola rósea, desbotada.

Semanalmente, triste e ossuda, ocupando as sonolentas tardes dominicais, de alguidar de barro à cabeça, como constituindo parte integrante do seu corpo, conferindo-lhe a bizarra forma de um daqueles “bichos firozes” mais tarde divulgados por Rosa Ramalho, os sovacos da desgastada blusa manchados de suor, a vendedeira de tremoços.

De longe a longe,  o chinês das miudezas, baixo, de fato completo e chapéu de feltro castanho, nó de gravata em rigoroso triângulo eqüilátero, a boca  abrindo em plano de teclas de ouro e sarro de tabaco, transportando sobre o peito, preso com correia ao cachço de galinha cozida, um painel de veludilho escarlate em que fixavam cintilantes fancarias. Era calmo, imperturbável, como um dia de inverno sem chuva nem vento.

Outros comércios prescindiam das portas. Anunciavam-se por instrumentos pobres. Flautas de celulóide, cornetas de metal torcidas como chifres, uma gaitinha curta agitando grãozinhos a chocar uns nos outros e contra as paredes circundantes. O amola tesouras e navalhas empurrando o seu motociclo azul ferrete, em forma de touro de treino, velhos guarda-chuvas pendendo dos varais, a rodazinha de esmeril soltando chispas sob o aço embotado; as carroças com pequenos tonéis metálicos de azeite, de vinagre, de petróleo, de álcool desnaturador e fardos vistosos de chitas, algodões, flanelas, um burrinho ajaezado com manta multicor e campainhas. Do primeiro dizia-se, dizia-se dos sons que propagava, que anunciava o Inverno, a chuva, a mudança de tempo, talvez porque viesse geralmente em dias cor de cartucho, de farda de polícia e de magala, ou, com mais freqüência, pelo Outono.

As ruas eram francas, podendo preencher-se de carroças puxadas por muares e eqüídeos, algumas vezes até, mas isso era mais raro ou podia ocorrer muito mais cedo, ainda madrugada, quando os ardinas enfiavam à força os jornais nas caixas do correio, por bois cor de tijolo, arrastando rumorejantes carros de entrechocantes tábuas, com palhas, toros, lavagens em bidões para os porcos. Porque automóveis, naquelas redondezas, circulavam pouco. Pelas manhãs, os seus donos iam buscá –los à garagem à garagem do Alceu, um niquito de homem com cara de saguim, calvo e beato que havia de perder em poucos dias a mulher e a única filha atacadas de tétano sem qualquer delas saber o mal da outra ou ter notícia do seu falecimento, só regressando ao fim do dia, quando a treva, havia muito, caíra de improviso ou a tarde, em labaredas, devagar se extinguia, ao barracão junto do cemitério, arrumando em predeterminados espaços com cal assinalados no cimento oleoso e sombrio, os seus carros.

As senhoras não tinham necessidade de ir às compras. Quando muito, mandavam as criadas buscar fitas de nastro, alfinetes, agulhas, novelos de lã ou de algodão perlé à loja da Aurelinas, duas irmãs marrecas e grisalhas, em perpétuo luto, mercearias à lojeca acanhada, suja, derramando para além do portão de chapa da viela, com um ramo seco de loureiro espetado nas lanças, da porta mal pintada de castanho da venda que moscas peganhentas todo o ano habitavam, um cheiro enjoativo a petróleo, azeite e vinho, do Ambrósio, polícia reformado, sólido, de alcunha “ o Badalhoco”, que tuberculizara, estivera internado no sanatório do Caramulo, mas resistira bravamente à doença, fazendo seus os pratos de comida de cinco ou seis companheiros de enfermaria mais falhos de apetite, mais à morte dados. Seriam as serviçais atendidas pela senhora Amália, mulher do merceeiro, anêmica, lenta da voz aos gestos, paquidérmica de elefantíase, enquanto atrás, num barraco coberto por chapa ondulada de zinco, o Ambrósio dava de beber, também bebia, ou enxotava para a loja os filhos, uns fracas-chichas ramelosos.

 

António Rebordão Navarro, A Praça de Liège, Lisboa Círculo de Leitões, 1988, pp. 5-9

 

 

Mas a semelhança ligava-se preferentemente ao Heitor de muitos anos atrás, entre a guerra e oseu termo, quando era  muito mais novo que o ensaísta e andava metido em negociatas equívocas prporcionando-lhe bons espadas americanos, Cadillac e De Sotto brancos, em cujas portas, que atirava com força nas faces afogueadas dos basbaques tomando o fresco na Avenida Brasil, mandara incrustar, em gravações de estanho, o seu brasão. Vestia bem, fatos de pura casimira inglesa e cheviotes bem talhados ao seu corpo alto e espadaúdo, camisas de seda beige ou azul-escura, com a coroa de barão bordada, abertas no Verão até à ponta do esterno ou apertadas nos laços de pomposas gravatas furadas por alfinetes de brilhantes. Jovava forte nos casinos da Povoa e de Espinho e ainda em certas tavolagens mais ou menos clandestinas, dava boas espórtulas aos porteiros e aos criados das casas de chá e reataurantes chiques, fora um dos primeiros a roçar o porto pelo uísque e se geralmente se fazia acompanhar de mulheres um tanto duvidosas que riam oufalavam muito alto ou se pintavam escandalosamente, era muito conhecido e, embora não possuísse o charme do jamais olvidado pelas velhas fidalgas seu tio Henrique, mesmo nos desmandos fulgurantes, tinha também muita classe e era muito fino nos novos tempos que eram desencantados, bem diversos desses outros, já tão longe e tão estáveis nas suas estruturas sociais em que os nomes conferiam estatuto , eram respeitados e um fidalgo era sempre um fidalgo, nada tinha a ver com os pobres filhotes de pequenos merceeiros, alfaiates, droguistas, saindo doutores das faculdades.

As danadas dessas duas guerras tinham subvertido, confundido tudo. Não tardaria até que os filhos dos obreiros e dos mecânicos se tornassem engenheiros, arquitectos, juízes, levando os melhores filhos-família a terem de tirar-lhes os chapéus.

Não mais seria possível um Henrique José de Sousa Guimarães Vilaça, com a sua filáucia , a sua elegância, a sua graça. Os privilégios desapareciam. Qualquer talhante, agora, Deus do céu, era mais rico e conceituado que muitos nobres a caírem de fome ou vilmente fardados de chauffeur. Tristes tempos devorados pelo dinheiro! O que mais se veria, estaria por vir? E as melancólicas macróbias, pensou Tiago, soltariam entre dentes podríssimos lamentosos suspiros, agradecendo à Senhora de Fátima e ao providencial presidente Salazar os milagres de as terem poupado ao bolchevismo e aos desastres da guerra.

António Rebordão Navarro, Mesopotâmia, Difel, Lisboa, 1984.

 

Fim séc. XIX

 

Caixeiros

 

Quanto aos empregados de commercio, os caixeiros particularmente, esses comem e vivem em casa dos patrões; sahem aos domngos por turnos, gastam a tarde nu, passeio num Café, ou numa sociedade de dança, e recolhem o mais tardar às oito horas ,precisando licença especial para ir ao theatro, ou passar a noite fora. Nesta limitação prohibitiva de costumes, formam-se, segundo a opinião dos commerciantes, os futuros homens sérios, que tem de succeder-lhes nobalcão,, nos chinelos de liga acalcanhados , nos estribilhos chulos, e na meia suissa arredindada, que foi por largos annos  a inimiga intransigente do bigode, considerado apenas como prenda sexual dos vadios, que passavama vida em botequins. Hoje amaciou um pouco esse ódio de Capeto e a própria suissa escanhoada vae á tarde jogar o dominó com parceiros conhecidos no café mais prximo do estabelecimento. Succede por isso que os cafés no Porto são concorridíssimos ao anoiteer, lusco-fusco, quando em Lisboa, por exemplo, ainda o gaz tremula na frouxa oscillação da meia luz. È que também no Porto se janta mais cedo, e a tarde , que é para Lisboa um encanto, é para a cidade invucta um aborrecimento, só vulnerável por uma partida de bilhar, pelo doble zero, ou pelo café servido com goles de cognac.

José Augusto Vieira, O Minho Pitoresco,  ed. Do Rotary Club de Valença, Valença, 1987Tomo II, p.707.

 

Vendedores Ambulantes

 

O aguadeiro é uma profissão em declínio e a instalação da rede de distribuição de água domiciliária constituirá um rude golpe para este comércio, que ocupava um considerável número de pessoas, muitas das quais originárias da Galiza. De igual modo, a venda de castanha assada, feita sobretudo por beirões, a de refrescos na Praça de D. Pedro, ou a de rebuçados da Régua, terá conhecido uma época de menor progresso, conquanto sobrevivam alguns anos mais

José Alberto Rio Fernandes, Porto – Cidade e Comércio, documentos e Memórias para a História do Porto, Arquivo Histórico/ Câmara Municipal do Porto, Porto 1997, p. 57

 

Entre os muitos que se dedicam a este comércio ao ar livre, feito isoladamente, contam-se ainda ... os aldeões e aldeãs [que ] vão e vêm, apregoando laranjas, legumes, frutos, flores, que trazem em cestos de junco.

 Velho Tripeiro – O que dizem de nós, A cidade do Porto descrita por Oliveira Merson na sua viagem a Portugal em 1857, Porto, “O Tripeiro”, vol III, 1ª série, Associação Comercial do Porto, 1912, p. 424) in José Alberto R. Fernandes, op. cit, p.

 

CONVÍVIOS – REPRESENTAÇÕES

 

 

Socialmente, o Passeio da Cardosa, mais ainda que o Camanho, a Farmácia Lemos, o Lino, ou a Livraria More, é o local predilecto de encontro. E são tantos os que aí se concentram, cavaqueando, discutindo e gozando a animação resultante do movimento de um elevado número de passantes, que alguns lhe chamavam o “aquário dos imbecis”, a maioria o “pasmatório dos lóios” enquanto que, outros ainda, costumeiros no local, criam uma associação de estatuto incerto, a que chamam de “Real Clube dos Encostados”. Assim , na década de oitenta do século passado é em torno da Praça de D. Pedro que se situava já, senão o principal centro financeiro, certamente que o centro cívico, o centro social, o “ ... centro comercial da cidade, Praça Nova, Lóios, Rua de santo António e Clérigos, [ onde a maioria d ]as lojas tinham melhor aspecto, algumas eram parte das cafurnas sombrias da rua das Flores, das Hortas [ tramo Sul da actual do Almada], etc.

José Alberto Rio Fernandes, Porto – Cidade e Comércio, documentos e Memórias para a História do Porto, Arquivo Histórico/ Câmara Municipal do Porto, Porto 1997, p. 52

 

 

 

Mobilizaria ela, no entanto, nessa apetência da exterioridade, os elementos da família e os amigos mais próximos, para uma sucessão de piqueniques, criteriosamente preparados. Seleccionava o sítio, primeiro, operação que dependia da época anual e do quadro atmosférico, de um arbítrio momentâneo, do interesse por um facto histórico ou por um aspecto geográfico, em conformidade se estruturando o seu assalto e a sua tomada. Eram zonas de pequenos bosques, como as de Ermesinde e de Rio Tinto, de margens ribeirinhas, como as do Freixo e de Avintes, de pendores montanhosos, como as de Gondomar e de Valongo, de praias afectuosas, como as de Matosinhos e de Lavadores. E erguiam-se, de madrugada, pelas cinco horas, entre o charivari de protestos dos mais idosos, que preferiam o sedentarismo, e o chilreio de falações das crianças, que nisso anteviam a aventura maior que se lhes propiciava. Investia a nossa heroína, entretanto, numa extravagância transbordante, pelo que respeitava às alternativas de sua toilette, inspirada na emblemática aparência das quatro estações, tal e qual se alegorizavam, naqueles quadros de moldura de pinho-da-escócia, na sala de jantar da Rua do Calvário. E surgia, então, ora como a Primavera, de écharpe muito colorida, aparando num braço um cesto repleto de flores, ora como o Verão, de blusa de decote condescendente, com um chapéu carregado de frutos variados, ora como o Outono, de casaquinha de tule roxo, sobraçando um molho de feno, ora como o Inverno, de capuz de debruns de pele, alteando um ramo de azevinho. Sentava-se na erva, assim, enquanto os outros comiam, na usual ocupação de formar um ramalhete de margaridas, cantando uma berceuse, que só ela, mais ninguém, conseguiria compreender. Acomodavam-se os homens, como sempre, nos lugares mais confortáveis, base de forte roble, a que pudessem encostar-se, pedra de musgo fofo, que lhes proporcionasse bom assento. E, de um açude, escondido pelas frondes, vinha a melopéia, incessante e embaladora, que não era alegre nem triste. Enfraqueciam as vozes, a partir de dada altura, como se, de modo crescente, se fosse tornando uma abominação, contra a imponência do cenário, a manifestada presença da subvertora humanidade. E algumas garotinhas, apenas, arregaçando os bibes, caminhavam pela ribas do regato, colhendo seixos polidos, que enfiavam no bolso.

Mário Cláudio, A Quinta das Virtudes, Quetzal Editores, Lisboa, 1991, pp. 299, 300

 

 

 

Os que vão dos Guindais, da Ribeira, de Massarelos ou de Miragaia jantar ao domingo em família, e em festa “pelo rio acima” a Quebrantões, ao Freixo, à quinta da Oliveira, preferem para a excursão fluvial, ao bote correcto e banal dos barqueiros de Gaia, o pitoresco, o vetusto, o festival pangaio da Padeira de Avintes, mordido pelo sol, despintado pelo tempo, aqui e ali descosido e descalefetado nas juntas do cavername, de toldo de linho em remendos, coma flâmula em bico, de paninho vermelho, tremulando alegremente na ponta de uma vara de pinho.

A recordação da patuscada campestre, da fritura e da salada comida na relva à sombra dos castanheiros, entre o rumor da água e o gorjeio dos ninhos , fica para sempre aliada na memória à silhuetta robusta e sadia da esbelta remadora, de cujo aspecto parece vir para nós, num ridente   eflúvio bucólico, a sensação dos fenos percorridos, dos morangais atravessados numa tarde de Verão, com o carreiro da alfazema através do quinteiro, o poço ornado de craveiros e de manjericos, as garrafas lacradas de verde refrescando na água de bica os vestidos de musselina, os ramalhetes de papoulas e de espigas de trigo, a alface ripada em jovial colaboração em torno da saladeira em ramagens, e os víveres que saem do cesto novo para a toalha desdobrada no chão, sob um picante e apetitoso aroma de rega, de coentros e de cebolinho novo

Ramalho Ortigão, Álbum de Costumes Portugueses, Lisboa, David Corazzi, s/d

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os lugares de encontro, o vestuário, os tempos e as formas de sociabilidade popular, e mesmo da pequena-burguesia conservam muitas características tradicionais, alternando-se, no entanto, gradualmente, por efeito da pressão, quer das normas implícitas que são associadas à ascensão social e que conduzem à imitação dos hábitos das elites, quer das transformações impostas pelo tempo industrial e pela nova ordem dos espaços.

Em meados do século, o tempo religioso continua a dominar o quotidiano das camadas populares. O domingo é o único dia de lazer, marcado pela missa matinal e pelos passeios, à tarde, até ao campo ou ao rio. Uma ou outra vez, vai-se, em família, merendar, “sob a folhagem das parreiras”, às hortas de peixe frito” do Reimão, Barros Lima ou S. Roque da Lameira. De Verão, são os passeios no rio, prolongando as “fúrias” setecentistas, até às barracas de sável do Areinho ou, noutra direcção, até ao Leça. Aqui e ali, juntam-se grupos de tocadores de “ramaldeiras” em bailaricos e descantes improvisados.

À medida que crescem as aglomerações populares “suburbanas” das freguesias mais industrializadas, com o Bonfim, Cedofeita ou Lordelo, nas “ilhas” ou nas “eiras”, os “espectáculos de dança” tornam-se o recreio predilecto do domindo à tarde dos jovens das classes trabalhadoras. Com o associativismo operário, diversas colectividades promoverão também bailes par os seus sócios, nas respectivas sedes, não sem escândalo das vizinhas famílias burguesas.

domingo, 17 de junho de 2001

Era uma vez um menino

 


 

Era uma vez um menino

Muito calmo no falar

Sonhava de dia e de noite

Andar nas ondas do mar.

 

No oceano imenso

Povoado de tubarões

Desembainhava espadas

Contra lesmas e leões

 

Num barco ele vivia

Mil e uma aventuras

Em ilhas desertas e distantes

Encontrava sempre farturas

 

 

Transportava numa arca

Ouro e pedras brilhantes.

Escondia este tesouro

Em grutas sempre elegantes.

 

 

 

Viajava na máquina do tempo

Ia até épocas perdidas

Tornava-se Triceratopus

Os vulcões, armadilhas vencidas.

 

 

Calcorreava vales encantados

Os ovos eram meteoritos

Lagos, árvores e florestas

Eram familiares dos seus gritos.

 

 

No dorso de um broncossauro

Imaginava vencer

O Carnotauro furioso

 

 

 

Contra carnotauros ferozes

Conquistava vales encantados

É que um dinaussauro bom

Combate sempre os malvados.

 

 

 

Ser pterossauro e voar

E explorar o mundo de cima

Ver os animais lá em baixo

É uma alegria  que anima

 

 

E com Winnie, o ursinho

Pachorrento e amigão

Mãe e pai nunca esquecem

Um grande xi -coração

 

 

 

 

 

quarta-feira, 13 de junho de 2001

Porto - festa

 

FESTA

  Segundo documento “Os Bailes e a Acção Católica “ de 1938 , o baile é um antro de perversão, corrompendo o instinto maternal, causando “insônias”; “delíquos”; “perturbações circulatórias”; auto-intoxicação”; “neuroses espasmódicas”; “anomalias de memória e linguagem”; “incoerência de carácter”; “fadiga intelectual”; “precoces desflorações”.

Aconselha-se o baile ao som da música folclórica. Desaconselha-se os diabólicos tango, fox-trot ou jazz-band.

 

Os bailes filantrópicos de beneficência são pretexto para os convívios dançantes.

 

CARNAVAL

 

A maior tentativa para ressuscitar o Carnaval acontece no Porto em 1939. O Clube dos Fenianos organiza um cortejo com 80 carros alegóricos – bailes, batalhas de flores, carros alegóricos.

 

CORTEJOS

 

O Estado Novo exibe-se em cortejos para todos os gostos, a propósito de todas as efemérides.

Ex: Parada Regional de Entre Douro e Minho – Porto, Julho, 1934

Exposição Colonial – Porto, 1934

Cortejo do Trabalho - Porto, Junho, 1940.

Cortejo da Lavoura - Porto, Outubro, 1940.

 

 

 

EXCURSÕES

 

Muitas sociedades recreativas fundam o seu grupo excursionista.

 

A criação de sociedades nesta época está sujeita ao controlo do Ministério do Interior que tem de aprovar os estatutos e homologar os corpos sociais eleitos. O Governo tem ainda o poder de demitir os corpos sociais, substituindo-os por comissões administrativas da sus confiança ou até de ordenar a dissolução de qualquer sociedade.