Adriano, o Pelicano
O professor de yoga pronunciou devagar,
de forma serena, como é seu costume: Hoje proponho um exercício de concentração
dos mais difíceis. Concentrem-se no vazio, esvaziem a mente,
Fixei o pensamento num ponto, qual
Buraco negro feito de nada, com intenção de escoar tudo o que entrasse pela
porta do cérebro. Tudo em vão!
Que engraçado o Adriano! Murmurou o
ponto negro.
- O Adriano? Aquele boneco recortado e
revestido de fotografias, como uma persona à qual se colaram pessoas, lugares e
coisas? Perguntei eu.
- Remete para memórias, sons e cheiros.
Respondeu o Buraco.
Neste instante, o ambiente,
habitualmente imbuído de uma suave essência de lavanda, explodia em fortes
especiarias e no cheiro do jasmim que emanava de uma das tendas do Bolhão.
Ouvi o som das chuvas das últimas
tempestades e a algazarra das pessoas que percorriam o Mercado para comprar
produtos frescos, fotografar ou até desenhar.
Um professor pedia atenção aos pontos de
fuga e ao horizonte.
Senti essa observação como uma
advertência para regressar ao meu Buraco negro.
Mas o Buraco decidia reforçar a sua voz:
Aquela figura, de mão direita levantada,
diz-nos adeus.
Recordei: Lembra-me a última vez que fui
de férias sozinha para Pena de Francia, o horizonte infinito e o silêncio
também. A nossa voz desequilibrava o ecossistema de tal forma que parecia
sacrílega.
E agora estava eu ali, perante o Adriano
Pelicano, a esforçar-me por visualizar o nada, quando só me ocorria o Fungagá
da Bicharada que o meu afilhado pequenote costumava ver nos anos setenta.
Com efeito, o Adriano sobrepunha-se ao Buraco,
e o negro era absorvido por um espetro de cores. O primeiro permanecia com a
mão a dizer adeus e as pernas a escorrerem pelo chão adentro, qual “Persistência
da Memória”, em alguma praia deserta.
Era no deserto que eu devia estar a
pensar, mas não. As cores e as sombras, as gruas e as árvores a furar o
nevoeiro impunham-se numa cidade a anoitecer. O que haveria naquela janela e na
outra? Cada fragmento colado àquele corpo parecia contar a sua própria
história.
- Já viste a cabeça do Adriano? Como se
chamam aquelas pessoas? Perguntou o Buraco inoportuno.
- Fátima, a fotogénica, Adelaide, a
faladora, e João, o reservado. Acho interessante relevarem assim pessoas tão
diferentes. E os ouvidos? Os do Nel e os meus. Reconheci os meus pelo brinco.
São portas de entrada de sons.
O Buraco negro reparou: No coração
aparece o Coliseu e o Bolhão. Que coisa fantástica!
Relembrei: O Coliseu que aprendi a amar,
pelos grandes espetáculos, como aquele da despedida do Zeca, já doente, a vinte
e cinco de maio de mil novecentos e oitenta e três. Um espetáculo emocionante.
O nosso Zeca a cantar, sobretudo a Balada do Outono, que pôs toda a gente de
pé, com lágrimas a cair pela face abaixo: “Águas das fontes, calai; ó ribeiras,
chorai, que eu não volto a cantar”.
O Bolhão. Os verdes mais verdes. As
flores que perfumavam a infância. Lembro-me da vendedeira senhora Quitas, mãe
da Ermelinda, minha colega de escola e das nossas brincadeiras.
Hoje está mais turístico, mas continua
colorido.
Foi engraçado quando o visitámos e demos
de caras com o bacalhau, a cara perfeita, sem o espalmado da seca e da
salmoura. Lembrei-me logo dos cromos que colávamos com farinha nas cadernetas.
Os mais difíceis de arranjar eram o bacalhau quarenta e dois, a cobaia cento e
quarenta e sete, o cabrito cento e noventa e nove. A caderneta completa podia-se
enviar para a editora e receber-se uma medalha ou um jogo, mas nada era mais
desafiante do que passar pela prova de arranjar os animais difíceis e conseguir
completar a coleção.
Ter uma caderneta cheia era uma alegria
transbordante!
Uma fotografia lembrou-me algum filme
policial ou “O Vermelho e o Negro, só porque no corpo do Adriano surgia um
encapuçado negro ao lado das escadas, com um belo corrimão de ferro forjado, e
depois o mesmo aparecia em cima, junto ao piano coberto de vermelho.
O Buraco exclamou: Gostei do negro!
- Pois devias gostar era só do negro.
Ainda te transformo em branco, atravessando-te com toda a paleta desta
instalação. Estás a irritar-me! Exclamei.
- Olha que estás aqui para acalmar.
Concentra-te em mim. Cala as vozes e visões que te afloram ao cérebro, replicou
o Buraco.
Nisso tens razão, mas aquele corpo não é
preto, é uma profusão de cor, e tu próprio ou estás fascinado por ele ou queres
provocar-me para não realizar o exercício.
- Vês aquela foto das flores que
espreitam dentro de um teto de suportes de ferro, formando um losango, um pouco
acima do umbigo do Adriano? Perguntou o buraco.
- É linda, não é? Muitas mais flores e
verdes se espalham pelas pernas em sombra, como se requer às espécies que
enfeitaram o Jardim Passos Manuel e que hoje nem a arqueo botânica poderá já
recolher as sementes. Respondi.
- O Adriano é um autêntico jardim. Um
corpo onde as ruas florescem e os edifícios respiram!
Uma das ruas desemboca na Igreja de
Santo Ildefonso e sabemos que o Jardim de Passos Manuel ficava nas suas
traseiras. Em frente à igreja, existe a feira do artesanato a lembrar-me as inúmeras
exposições de flores e até de eletricidade que existiram no Jardim. Só falta
que o piano cante e que as telas vibrem. Mas vejo que o Adriano tem pintores
que reproduziram Amadeo de Souza-Cardoso, tão mal-entendido pela burguesia
portuense quando expôs neste Jardim.
- Tu que és nada, como sabes essas
coisas? Perguntei-lhe.
- Temos de captar o som. Aquele piano no
extremo do Salão de Festas tem de falar, nem que tenhamos de engolir o sapo que
está no lado direito da perna do Adriano, sugeriu o Buraco.
- Eu já quase dançava o a Valsa das
Flores em compasso ternário! Murmurei.
A voz serena do professor anunciou:
preparem-se para finalizar o exercício de concentração com uma respiração
agradável e natural.
- Foi difícil esvaziar a mente?
Perguntou.
Dentro de mim, o Adriano ainda acenava,
o piano fazia soar as últimas notas e o Buraco negro, agora invadido de
múltiplas cores, respirava com dificuldade.
- Não, professor. Respondi comprometida.
Não fosse o Fungagá da Bicharada, era só
pensar no Buraco negro!