segunda-feira, 9 de março de 2026

A propósito de uma instalação

 

 

Adriano, o Pelicano

 

 

O professor de yoga pronunciou devagar, de forma serena, como é seu costume: Hoje proponho um exercício de concentração dos mais difíceis. Concentrem-se no vazio, esvaziem a mente,

Fixei o pensamento num ponto, qual Buraco negro feito de nada, com intenção de escoar tudo o que entrasse pela porta do cérebro. Tudo em vão!

Que engraçado o Adriano! Murmurou o ponto negro.

- O Adriano? Aquele boneco recortado e revestido de fotografias, como uma persona à qual se colaram pessoas, lugares e coisas? Perguntei eu.

- Remete para memórias, sons e cheiros. Respondeu o Buraco.

Neste instante, o ambiente, habitualmente imbuído de uma suave essência de lavanda, explodia em fortes especiarias e no cheiro do jasmim que emanava de uma das tendas do Bolhão.

Ouvi o som das chuvas das últimas tempestades e a algazarra das pessoas que percorriam o Mercado para comprar produtos frescos, fotografar ou até desenhar.

Um professor pedia atenção aos pontos de fuga e ao horizonte.

Senti essa observação como uma advertência para regressar ao meu Buraco negro.

Mas o Buraco decidia reforçar a sua voz:  Aquela figura, de mão direita levantada, diz-nos adeus.

Recordei: Lembra-me a última vez que fui de férias sozinha para Pena de Francia, o horizonte infinito e o silêncio também. A nossa voz desequilibrava o ecossistema de tal forma que parecia sacrílega.

E agora estava eu ali, perante o Adriano Pelicano, a esforçar-me por visualizar o nada, quando só me ocorria o Fungagá da Bicharada que o meu afilhado pequenote costumava ver nos anos setenta.

Com efeito, o Adriano sobrepunha-se ao Buraco, e o negro era absorvido por um espetro de cores. O primeiro permanecia com a mão a dizer adeus e as pernas a escorrerem pelo chão adentro, qual “Persistência da Memória”, em alguma praia deserta.

Era no deserto que eu devia estar a pensar, mas não. As cores e as sombras, as gruas e as árvores a furar o nevoeiro impunham-se numa cidade a anoitecer. O que haveria naquela janela e na outra? Cada fragmento colado àquele corpo parecia contar a sua própria história.

- Já viste a cabeça do Adriano? Como se chamam aquelas pessoas? Perguntou o Buraco inoportuno.

- Fátima, a fotogénica, Adelaide, a faladora, e João, o reservado. Acho interessante relevarem assim pessoas tão diferentes. E os ouvidos? Os do Nel e os meus. Reconheci os meus pelo brinco. São portas de entrada de sons.

O Buraco negro reparou: No coração aparece o Coliseu e o Bolhão. Que coisa fantástica!

Relembrei: O Coliseu que aprendi a amar, pelos grandes espetáculos, como aquele da despedida do Zeca, já doente, a vinte e cinco de maio de mil novecentos e oitenta e três. Um espetáculo emocionante. O nosso Zeca a cantar, sobretudo a Balada do Outono, que pôs toda a gente de pé, com lágrimas a cair pela face abaixo: “Águas das fontes, calai; ó ribeiras, chorai, que eu não volto a cantar”.

O Bolhão. Os verdes mais verdes. As flores que perfumavam a infância. Lembro-me da vendedeira senhora Quitas, mãe da Ermelinda, minha colega de escola e das nossas brincadeiras.

Hoje está mais turístico, mas continua colorido.

Foi engraçado quando o visitámos e demos de caras com o bacalhau, a cara perfeita, sem o espalmado da seca e da salmoura. Lembrei-me logo dos cromos que colávamos com farinha nas cadernetas. Os mais difíceis de arranjar eram o bacalhau quarenta e dois, a cobaia cento e quarenta e sete, o cabrito cento e noventa e nove. A caderneta completa podia-se enviar para a editora e receber-se uma medalha ou um jogo, mas nada era mais desafiante do que passar pela prova de arranjar os animais difíceis e conseguir completar a coleção.

 Ter uma caderneta cheia era uma alegria transbordante!

Uma fotografia lembrou-me algum filme policial ou “O Vermelho e o Negro, só porque no corpo do Adriano surgia um encapuçado negro ao lado das escadas, com um belo corrimão de ferro forjado, e depois o mesmo aparecia em cima, junto ao piano coberto de vermelho.

O Buraco exclamou:  Gostei do negro!

- Pois devias gostar era só do negro. Ainda te transformo em branco, atravessando-te com toda a paleta desta instalação. Estás a irritar-me! Exclamei.

- Olha que estás aqui para acalmar. Concentra-te em mim. Cala as vozes e visões que te afloram ao cérebro, replicou o Buraco.

Nisso tens razão, mas aquele corpo não é preto, é uma profusão de cor, e tu próprio ou estás fascinado por ele ou queres provocar-me para não realizar o exercício.

- Vês aquela foto das flores que espreitam dentro de um teto de suportes de ferro, formando um losango, um pouco acima do umbigo do Adriano? Perguntou o buraco.

- É linda, não é? Muitas mais flores e verdes se espalham pelas pernas em sombra, como se requer às espécies que enfeitaram o Jardim Passos Manuel e que hoje nem a arqueo botânica poderá já recolher as sementes. Respondi.

- O Adriano é um autêntico jardim. Um corpo onde as ruas florescem e os edifícios respiram!

Uma das ruas desemboca na Igreja de Santo Ildefonso e sabemos que o Jardim de Passos Manuel ficava nas suas traseiras. Em frente à igreja, existe a feira do artesanato a lembrar-me as inúmeras exposições de flores e até de eletricidade que existiram no Jardim. Só falta que o piano cante e que as telas vibrem. Mas vejo que o Adriano tem pintores que reproduziram Amadeo de Souza-Cardoso, tão mal-entendido pela burguesia portuense quando expôs neste Jardim. 

- Tu que és nada, como sabes essas coisas? Perguntei-lhe.

- Temos de captar o som. Aquele piano no extremo do Salão de Festas tem de falar, nem que tenhamos de engolir o sapo que está no lado direito da perna do Adriano, sugeriu o Buraco.

- Eu já quase dançava o a Valsa das Flores em compasso ternário! Murmurei.

 

A voz serena do professor anunciou: preparem-se para finalizar o exercício de concentração com uma respiração agradável e natural.

 

- Foi difícil esvaziar a mente? Perguntou.

Dentro de mim, o Adriano ainda acenava, o piano fazia soar as últimas notas e o Buraco negro, agora invadido de múltiplas cores, respirava com dificuldade.

- Não, professor.  Respondi comprometida.

Não fosse o Fungagá da Bicharada, era só pensar no Buraco negro!