quinta-feira, 5 de maio de 2022

Canções do Niassa

 

"A ERVA LÁ NA PICADA"

I
A erva lá na picada
Pisam-na os guerrilheiros
O coração do soldado
Pisam-no os coronéis
E ajudam os machambeiros (Bis)

II
Que culpa tem o soldado
De ter raiva à sua sorte
Se chega um filho da puta
Que o mete numa farda
E o manda para a morte (Bis)

III
E o senhor brigadeiro
Vive muito consolado
Até comprou uma balança
Para pesar o dinheiro
Que rouba ao pobre soldado (Bis)

IV
Quando será Deus do céu
Que um dia haverá verba
Que um dia haverá verba
Para a malta comer pão
E os chicos erva erva /merda merda (Bis)

Merda merda!
Merda merda!
Merda merda!

Música da guerra civil espanhola, cujo tema foi tratado por um grupo de alferes milicianos, em que aborda os negócios escuros da guerra e da exploração do soldado, sempre o mais injustiçado. Feita em Nampula em 1970.

 

 

 "ADEUS NOVA VISEU"

I
A história que eu vou contar
P'ra velhinhos escutar
Na noite da despedida
Com orgulho ser lembrada
E também ser recordada
Tristezas da nossa vida

II
Chegou o dia da famba
Adeus poço da machamba
P'ra quem Jauá compreender
Adeus pontes e picadas
Picaretas e machadas
Serviste p'ra nos prender

III
Adeus Companhia moderna
Adeus ratos da caserna
Queixas de vós não há nada
Bons companheiros de leito
Encostados ao nosso peito
Éreis vós nossa alvorada

IV
Exponho meu sofrimento
Com orgulho e com alento
Desta vida amargurada
Adeus formigas do mato
Que quisestes fazer tacho
Da nossa carne cansada

V
Adeus pedreira adeus rio
Adeus trotil adeus fio
Alavancas e marretas
Casa de banho ainda existe
E tantas vezes serviste
P'ra tocar nossas cornetas

VI
Adeus Luanga e Lochese
Onde pisei muito os pés
Adeus Lumbenhe e Messal
Luatize e Iluminado

setstats1

 

 

"BOCAS BOCAS"

Bocas, bocas, bocas
Bocas, bocas, sois tão belas
Bocas, bocas, bocas estou farto delas

Boa terra é o Luângua
O bocas nos prometeu
Ai que bom que isto é
Dizes tu e eu
Façam pontes e picadas
Cheguem a Nova Viseu
(Bis)

(Era bom era, mas são)

Bocas, bocas, bocas
Etc.

Reuniram-se os cabeças
E decidiram por frim
Isto é muito pouco
Não fica assim
Façam pontes e picadas

E cheguem a Valadim

(Era bom era mas são)
Bocas, bocas, bocas
Etc.

Eu canto p'ra minha Mãe
Que p'ra tropa me viu nascer
Tenho pena meu filho
Não te posso valer
Tinhas razão mamãzinha
Estão fartos de me apalpar
Bis

(E infelizmente não são)

Agora canto p'rós "cabeças"
Que lá p'ra Nampula vivem
Vão a banquetes
Usam botões de punho
Mas quem se lixa é a malta
Que p'ró ano vai p'ró Lunho
Bis

(Era bom era, mas são)

Bocas, bocas, bocas
Bocas, bocas, sois tão belas
Bocas, bocas, estou farto delas

E deles também.


Sobre os boatos de guerra (bocas/mentiras) relativamente a alguns lugares muito perigosos
do Niassa.

 

setstats1

 

"CHECAS"

I
Ó Checa amigo checa
Cacimbado ando eu
Já estou farto disto tudo
Aqui em Nova Viseu

II
Já estou farto de picar
De fazer operações
De rios atravessar
Com água até aos calções

III
Já estou farto de buracos
Feitos pelas marmitas
Já estou farto de ir ao ar
E sem ver os terroristas

IV
Ó checa amigo checa
Na picada faz favor
Tu serás paraquedista
Ou piloto aviador

V
Comes feijão ao almoço
Comes feijão ao jantar
E quando não é feijão
É punga para variar

VI
Uma sopa de mosquitos
E de formas esquisitas
Dia sim dia não
Lá virão os ciclistas

VII
Ó checa amigo checa
Isto aqui é muito chato
Aturar a chicalhada
Que nunca saem para o mato

VIII
Esta guerra é dos soldados
E também dos furriéis
O resto dos graduados
Faz a guerra dos papéis

IX
Assim é Nova Viseu
E isto ainda aumenta
Isto é uma charanga
Na trinta e quatro setenta

 

 

"EI-LOS QUE PARTEM"

I
Ei-los que partem, olhos molhados
Coração triste, mochila às costas
Adeus aos seus entes amados
Ei-los que partem, olhos molhados


II
Virão um dia, ricos ou não
Contando histórias da sua guerra
Onde a dor se fez em pão
Virão um dia, ricos ou não


III
Ei-los que partem, olhos cansados
Já estão no fim da comissão
Alguns doentes e aleijados
Ei-los que partem pobres soldados
Ei-los que partem, pobres soldados
Ei-los que partem, pobres soldados

setstats1

 

"EMBOSCADA"

I
Em tempos tive a mania
Que não havia emboscada
Até que num lindo dia
Toda a minha companhia
Pelos turras foi avisada

II
A história que vou contar
Contou-ma certo velhinho
Quando eu vim para o Ultramar
Disse-me ele a sussurrar
Checa toma juizinho

III
E lá no mato cansado
De aspecto frio e sério
Há sempre um soldado
Prestes a ser emboscado
E a ir p'ró cemitério

IV
P'ró Niassa veio alguém
Com uma idéia aperrada
Ouve turra escuta bem
Que nós não queremos ninguém
Emboscado na picada

V
Perante a admiração de todos
Acabou-se a emboscada
Foi o Batalhão dos Rangers
Que deu porrada a rodos
Temos a guerra acabada

 

setstats1

 

 

"EMBOSCADA"
(COMPANHIA 3470)


I
A trinta e quatro setenta
Companhia corpulenta
Formada por atletas
Sofreu uma emboscada
Lá numa mata isolada
Quando todos eram checas

II
O pobre do capitão
Batia-lhe o coração
Por ser ele o comandante
Ao ver árvores crivadas
Por balas mal mandadas
Ficou todo radiante

III
O resto da Companhia
Os seus conselhos seguia
Como ele havia ordenado
Atiraram-se para o chão
Já com a arma na mão
Procurando um bom estado

IV
Depois de tudo acabar
Puseram-se a verificar
Se havia algo de sangrento
Um homem encorajado
Chamando os turras de lado
Era o nosso sargento

V
Ao chegarem ao quartel
Perguntei ao furriel
Se aquilo era o destino
Disse-me com satisfação
Que a arma que trazia na mão
Pertencia à Frelimo

 

 

"FADINHO SERRANO"


Muito boa noite senhoras e senhores
Os homens do Lunho são bons lutadores
São bons lutadores são bons guerrilheiros
Fazem horas extras sem ganhar dinheiro

Sem ganhar dinheiro em nada se ficam
Nos dias de folga vão p'rá pá e pica

Fazemos machambas e nasce o que é bom
No rancho comemos sopa de feijão
Sopa de feijão, grelos com cristas
Para variar comemos ciclistas
Comemos ciclistas com molho e salada
Fome não passamos, mas fartura nada.

Roupa que não falta
A verdade é uma
Até colchões temos
E de lusospuma

Para não estragar
Fazemos um esforço
Ou mandam para o mato
Ou pôr de reforço

Pôr-nos de reforço
Já sabem quem são
Colchões para durar
Outra comissão


(Machambas/Hortas)

setstats1

 

"FADO A METANGULA"

Tens belas ruas, tens avenidas
Tens tantas coisas que nos são queridas
Tens aeroporto, tens aviões
Tens bom cinema, tens diversões


Recentemente já rádio há
Nem há paisagem como a de cá
Tens pôr-do-sol visto de graça
És a mais linda deste Niassa


Ó Metangula
És afinal
Grande "cidade" de Portugal
Tens tantas coisas
Boas e belas
Que nós ficamos
Loucos com elas


Ó Metangula
Tu tens razão
Já só te falta
Televisão
Vais dentro em pouco
Ser das primeiras
Mas só não tens é
Mulheres solteiras



O autor deste fado, com optimismo, vê Metangula por um prisma muito favorável, levado pelo progresso e olhado com muito exagero! Mas no entanto, como se deduz do estribilho, ainda há muita coisa que falta!!!

setstats1

 

 

"FADO A METANGULA"

Tens belas ruas, tens avenidas
Tens tantas coisas que nos são queridas
Tens aeroporto, tens aviões
Tens bom cinema, tens diversões


Recentemente já rádio há
Nem há paisagem como a de cá
Tens pôr-do-sol visto de graça
És a mais linda deste Niassa


Ó Metangula
És afinal
Grande "cidade" de Portugal
Tens tantas coisas
Boas e belas
Que nós ficamos
Loucos com elas


Ó Metangula
Tu tens razão
Já só te falta
Televisão
Vais dentro em pouco
Ser das primeiras
Mas só não tens é
Mulheres solteiras



O autor deste fado, com optimismo, vê Metangula por um prisma muito favorável, levado pelo progresso e olhado com muito exagero! Mas no entanto, como se deduz do estribilho, ainda há muita coisa que falta!!!

setstats1

 

 

 

"FADO A UM AUTOR DESCONHECIDO"

I
Desconhecido autor "porreiro"
A ti devemos tod'o nosso Cancioneiro
Em fado lento em fado antigo
O teu talento foi o nosso melhor amigo

II
Cantaste o fado cantaste a raça
Disseste em verso da beleza do Niassa
Disseste até sem uma falha
A vida triste que cá viv'esta "maralha"

III
Tempo esquecido
Que ao passar
Só a saudade por castigo faz ficar
"Desconhecido"
Vais-nos deixar
Ó Metangula tens razão para chorar

IV
Virão mais checas virá mais malta
Tal como nós hão-de sentir a tua falta
Serás cantado tenho a certeza
A tua ausência lembraremos com tristeza

V
Já lá vai longe foi há um ano
Que nos deixaste grande amigo Adriano
Vamos voltar vamos-te ver
P'ra nosso fado todos juntos reviver



Esta composição é dedicada ao Autor Desconhecido a cujo entusiasmo, veia poética e garra fadista
se deve a concretização do sentimento que em nós existia e só ele soube cantar.
Como testemunho do muito apreço e gratidão da "maralha".

 

 "FADO DA DESPEDIDA"

I
Adeus Metangula
Adeus Comissão
Já vou p'rá cidade
Até me dá vontade
De m'andar p'ró chão
Deixei o farol
Que o controlo regula
Vou pelo caminho
Dizendo baixinho
Adeus Metangula

II
Adeus Cobué, Manhai
Ah! Lipoche "Good bye
A zona que é mais pachola
Adeus ó ondas malucas
Que daí às Melulucas
É sempre a bater cachola

Adeus Metangula
Adeus Comissão
...

III
Adeus ó Lago Niassa
Só conhece quem lá passa
Onde se dorme bem ao luar
Adeus ó turras banais
A mim não me lixais mais
Agora vou descansar

Adeus Metangula
Adeus Comissão
Já vou p'rá cidade
Até me dá vontade
De m'andar p'ró chão
Deixei o farol
Que o controlo regula
Vou pelo caminho
Dizendo baixinho
Adeus Metangula


Este fado cantava-se no fim da comissão. Um misto de saudade que aparecia mas com um desejo perfeitamente natural de lá sair.
Felizes os que puderam cantar este fado.

 

 

"FADO DA ESCURIDÃO"

Oh tempo volta p'ra trás
Traz-me tudo o que eu perdi
Tem pena e dá-me
A luz que eu já vivi
Oh tempo volta p'ra trás
Mata a minha esperança vã
Vê que até o próprio sol
M'ilumina de manhã

O sol já se foi embora
O tempo p'ra mim parou
Cortaram-me a luz cá fora
Cá em casa ela acabou
Os dias p'ra mim são dias (Bis)
As noites p'ra mim são meses
Recordação é saudade
Daquela claridade
Que hoje só temos às vezes

Oh tempo volta p'ra trás
Traz-me tudo o que eu perdi
....

Agora só temos sombra
Nem sequer ventilação
Eu já perdi toda a esp'rança
De ter iluminação
Quero ler mas não consigo (Bis)
Água fresca é só d'outrora
Viver assim é castigo (Bis)
Até que me for embora

Oh tempo volta p'ra trás
Traz-me tudo o que eu perdi
....

 

Este fado foi inspirado quando houve corte de energia eléctrica durante uns meses, por razões
de ordem técnica!

"FADO DA JÚLIA GOLPISTA"

I
A Júlia golpista
Grande vigarista
Veio a Metangula
Passando por "tia"
Dum alferes rufia
Que foi p'ra Nampula


II
Chegou de avião
Com aspiração
De todos fintar
Quer queiram quer não
Dão-me um dinheirão
E hei-de-o livrar


III
Ah Júlia golpista
Que grande mulher
Vai pedir mais massa
A quem a tiver
Júlia vigarista
Tu não és culpada
Tu és uma artista
Teu falar conquista
Toda esta cambada


IV
Há quem te critique
Quem diga que fique
À espera que voltes
Com tanta limpeza
Não há com certeza
Quem saiba mais golpes


V
Vamos juntar massa
Se vens ao Niassa
Estás no pensamento
Da malta que aspira
Que talvez um dia
Tenha abatimento

Ah Júlia golpista
Grande mulher
...




Assunto delicado de explicar. É preciso ter-se "lata", quando sucede o que sucedeu em Metangula, em Junho de 1969.
Resta dizer que a coisa não foi tão longe como se julgava, embora o mais difícil tivesse sido feito e finalmente... o indivíduo voltou às fileiras.

"FADO DA RENDIÇÃO"


Perguntaste-me outro dia
Quando é que me vou embora
Eu disse-te que não sabia
Quando chega a minha hora
Passo os dias sem saber
Contando o tempo que passa
Já parei de viver
Desde que vim p'ró Niassa.


Horas esquecidas
Que são perdidas
Vidas sem se viver
Dia após dia
Sinto a magia
Do tempo assim perder
O dia corre
E a esperança morre
Sem que o final se veja
Talvez p'ró ano
Num desengano
'Inda cá estejas


Meu "mata-bicho" já conta
Três meses de comissão
O meu nome não se encontra
No plano de rotação
Mas agora estou contente
Pois acabo de saber
Já apareceu de repente
Um "Checa" p'ra me render


Horas esquecidas
Que são perdidas
.....



Este fado traduz o estado de espírito do pessoal em comissão, quando, para além dos dois anos por tabela, ainda lhes era imposto o "mata-bicho", ou seja, tempo a mais por falta de quem os rendesse.

setstats1"FADO DAS COMPARAÇÕES"

Que estranha forma de vida!
Que estranha comparação!
Vive-se em Lourenço Marques (Bis)
Cá arrisca-se o coirão!

Vida boa! Vida airada!
"Boites", é só festança!
Lá não se fala em matança (Bis)
Nem turras; há só borgadas.

Niassa, pura olvidança!
Guerra, como és ignorada!
Conversa que é evitada (Bis)
P'los que vivem n'abastança!

Falar na nossa desdita
Fica mal e aborrece!
E como lembrar irrita (Bis)
Toda a gente a desconhece!

Ao passar pela cidade,
Com tanta tranquilidade,
Deu-me comparar
Meninas com mini-saias!
Mandai-as p'ras nossas praias
P'ra "manobra de atacar"!

Hippies com carros GT's
Mandai-os para as berliets
Tirai-lhes as modas finas
Melenudos efeminados
Eram bem utilizados
P'ra fazer rebentar minas!

Bem como essas tais meninas
Que apesar de enfezadinhas,
Mas com ar da sua graça
Serviriam muito a jeito
Para aliviar a dor do peito,
Cá da malta do Niassa.

Mas não, só por pirraça,
Hão-de lá continuar!
E nós temos de lerpar,
Invertem-se as posições!
E trocam-se as situações!
Continuamos a aguentar!

Nós sem sermos desejados
Ficamos cá apanhados
Aos urros, num desvario!
Eles, os daqui naturais,
Gastando dinheiro aos pais
Vão p'ra p... que os pariu!

Acabe-se com a tradição!
Entre-se em mobilização!
Utilize-se a manada!
Dentro de poucas semanas,
Como quem come bananas!
Estará a Guerra acabada.


Este é um fado que compara algumas coisas que se passavam. Não é um fado para ofender, e era cantado em ambientes muito particulares e com público esclarecido!
De resto, como todo o cancioneiro, sobressai sempre o aspecto humorístico com que todos os
temas são abordados.

 

 

 

"FADO DAS COMPARAÇÕES"

Que estranha forma de vida!
Que estranha comparação!
Vive-se em Lourenço Marques (Bis)
Cá arrisca-se o coirão!

Vida boa! Vida airada!
"Boites", é só festança!
Lá não se fala em matança (Bis)
Nem turras; há só borgadas.

Niassa, pura olvidança!
Guerra, como és ignorada!
Conversa que é evitada (Bis)
P'los que vivem n'abastança!

Falar na nossa desdita
Fica mal e aborrece!
E como lembrar irrita (Bis)
Toda a gente a desconhece!

Ao passar pela cidade,
Com tanta tranquilidade,
Deu-me comparar
Meninas com mini-saias!
Mandai-as p'ras nossas praias
P'ra "manobra de atacar"!

Hippies com carros GT's
Mandai-os para as berliets
Tirai-lhes as modas finas
Melenudos efeminados
Eram bem utilizados
P'ra fazer rebentar minas!

Bem como essas tais meninas
Que apesar de enfezadinhas,
Mas com ar da sua graça
Serviriam muito a jeito
Para aliviar a dor do peito,
Cá da malta do Niassa.

Mas não, só por pirraça,
Hão-de lá continuar!
E nós temos de lerpar,
Invertem-se as posições!
E trocam-se as situações!
Continuamos a aguentar!

Nós sem sermos desejados
Ficamos cá apanhados
Aos urros, num desvario!
Eles, os daqui naturais,
Gastando dinheiro aos pais
Vão p'ra p... que os pariu!

Acabe-se com a tradição!
Entre-se em mobilização!
Utilize-se a manada!
Dentro de poucas semanas,
Como quem come bananas!
Estará a Guerra acabada.


Este é um fado que compara algumas coisas que se passavam. Não é um fado para ofender, e era cantado em ambientes muito particulares e com público esclarecido!
De resto, como todo o cancioneiro, sobressai sempre o aspecto humorístico com que todos os
temas são abordados.

 

 

 

"FADO DAS PARTITURAS"

I
Sem tua ajuda
Eu não consigo cantar
E nas noites de loucura
Não me é fácil decorar
Oh Bettencourt
Tem paciência vai lá fora
E traz-me para eu brilhar
Todas essas partituras

II
Tu sabes bem
Que eu sem ti não sou ninguém
Sou capaz de me enganar
Começo a desafinar
Oh Bettencourt
És a alma da canção
Vai depressa e vem depressa
E ensina-me a lição

III
A qualquer hora
Tu estás pronto a ir buscá-las
E nunca te vais embora
Sem tornar a recebê-las
Guardas p'ra sempre
Num pacote trapalhão
As partituras d'outrora
Com imensa devoção

IV
Tu sabes bem
Que eu sem ti não sou ninguém
Sou capaz de me enganar
Começo a desafinar
Oh Bettencourt
És a alma da canção
Vai depressa e vem depressa
E ensina-me a lição

 

Este fado é uma paródia que o fadista dedica ao seu amigo das partituras. Sem ele, como conseguiria
decorar tanto verso?!!!

"FADO DO ANTONINHO"

I
Foi no domingo passado que eu passei
À casa onde vivia o Antoninho
Mas está tudo tão mudado
Que não vi em nenhum lado
Os tais agentes da Pide bonitinhos

II
Do rés-do-chão ao telhado
Não vi nada nada nada nada que fizesse
Recordar a tal vidinha
Já não há vidros pregados reforçados
Guardados com tabuinhas

III
Entrei onde era a casa agora está
À secretária um sujeito uma delícia
Não vi bombas nem espingardas
Nem revólveres nem espadas
Nem espreitadelas furtivas da polícia

IV
O tempo cravou a garra
Na alma daquela casa
Onde às vezes parecia não ter gente
E onde em noites de segredo a meter medo
Lá surgia o Presidente

V
As janelas tão medonhas que ficavam
Com cortinas a tapar a velharia
Ganharam de novo a graça
Pois são hoje umas vidraças
Já livres de toda a porcaria

VI
E lá p'ra dentro quem passa
Hoje é para ir ao Marcelo
Entregar ao Presidente um pedidinho
Pois chega a esta desgraça toda a graça
Com a doença do velhinho

VII
P'ra terem feito da casa o que fizeram
Melhor fora que a mandassem p'rás alminhas
Pois na casa de Saúde
Provas de amor amiúde
É idéia que não cabe cá nas minhas

VIII
Recordações do pavor
D'avareza e do terror
Vamos procurar esquecer nas cervejinhas
Pois dar de beber à dor é o melhor
Já dizia a Mariquinhas

Versos feitos provavelmente por civis que parodiavam a "Primavera Marcelista", "evolução na continuidade", "doença de Salazar".




"FADO DO BULDOZER"

I
Quando ele passa
É num instante que arrasa
Tudo que querem que faça
Num minuto é conseguido
Toda a picada
Velozmente é transformada
Fica melhor que auto-estrada
Levando tudo varrido

II
És infernal
Meu buldozer bestial
Para a frente e para trás
Nem teu ruído incomoda
Quando ele passa
Levando tudo que arrasa
Fazendo caminho ou praça
És o invento da moda

III
Foste ansiado
Foste querido e desejado
Dizem que és quase roubado
Mas por fim apareceste
Há tanta obra
Que só com tua manobra
E tua força que sobra
Finalmente resolveste

IV
Meu caterpilar
Minha máquina infernal
Eu sou feliz afinal
Por poder contar contigo
Minha obra prima
Ando p'ró lado e p'ra cima
Avança, vence e domina
Tu és o melhor amigo


Foi com ansiedade que esta fabulosa máquina foi esperada na Base Naval de Metangula, no início
do segundo trimestre de 1969.
Ruído mecânico que foi sinónimo de progresso. Por isso o Buldozer mereceu um fado!

"FADO DO CHECA"

I
Benvindo Checa
P'ra esta guerra
Que cá te espera
Não estejas triste
Que a guerra é linda
Só fazes cera.
Vais ter saudades
De mulheres brancas
Ai que tormentos;
Aqui há pretas
Mas tem cuidado
C'os seus lamentos

II
Checa danado
Pela tropa muito lixado
Não chores oh desgraçado
Não vale a pena chorar
Checa benvindo
Chegaste a horas
Eu já vou indo
Afinal mal encavado
Que vieste cá fazer
Checa danado
Vieste p'ra me render

II
Vais "lerpar" muito
Mas com o aumento
Vais ficar rico.
Dá-o às pretas
Pois assim fazes
A tua "psico":
Mas tem cuidado
Checa danado
Sê pouco anjinho
Manda-os lixar
E faz a tua guerra
Sózinho

 

No Norte de Moçambique, especialmente no Niassa, "CHECAS" eram os que chegavam de novo, iniciavam portanto a sua comissão.
Neste fado aparece o termo "lerpar" que no Niassa era sinónimo de tudo, desde
"ficar a perder" até "morrer". Aqui é empregue como "ter que passar maus bocados".

 

 

"FADO DO DESERTOR"

Estava eu na minha terra
Disseram-me vais para a guerra

Toma lá uma espingarda
E um bilhete p'ró navio
E uma medalha num fio
E uma velha, velha farda

Após dias de caminho
Estava já muito magrinho

Esfomeado como um rato
Olhei bem só vi palmeiras
Macacos e bananeiras
Entendi, estava no mato

O furriel e o sargento
Chamavam-me fedorento

Porque me queria lavar
E o alferes e o capitão
Diziam que era calão
Se me viam descansar

Estava tão farto da guerra
E ao lembrar a minha terra

Fui um dia passear
Numa palhota sózinha
Estava uma preta girinha
Que ao ver-me pôs-se a chorar

E fiquei com tanta pena
Dessa mocinha morena

Que fugimos para o mato
Somos um casal feliz
E já temos um petiz
Que por sinal é mulato

Este fado documenta uma realidade histórica porque muitos soldados desertaram mesmo.

setstats1

 

"VENTOS DE GUERRA"

De quantos sacrifícios senhores que em mim mandam
É feita a vida dum soldado
De quantas noites perdidas no mato
É feita vida dum guerreiro
São ventos de guerra
Não penses amigo
Que a hora que passa é de perigo

De quantos tiros senhores que me ordenam
É feita a vida dum soldado
De quantas minas senhores que em mim mandam
É feita a vida dum guerreiro

Quem limpa senhores as manchas de sangue
Que os jovens deixam na picada
Quem limpa senhores lágrimas choradas
Por noivas e mães adoradas

São ventos de guerra...
São ventos de guerra...

De quantas saudades senhores que em mim mandam
É feita a vida dum soldado
E quantas loucuras senhores que me ordenam
Contém a vida dum guerreiro

De quantos desgostos senhores que em mim mandam
É feita a vida dum soldado
E quanto vinho senhores que me ordenam
Se deve beber p'ra esquecer

São ventos de guerra
São ventos de guerra

E quantas vezes senhores que em mim mandam
Se deve expor a vida ao perigo
E quantos gritos se devem soltar
Para se acreditar que está vivo.

Quantas idéias tombadas na luta
Quantas esperanças perdidas
Quanto sangue deve um jovem verter
Antes que o chamem de homem

São ventos de guerra...



"E quanto vinho senhores que me ordenam/Se deve beber p'ra esquecer"
E a quantos Ex-Combatentes estes versos se aplicam ainda hoje? São as marcas duma guerra.

 

"UNANGO - TANGO"

Adeus oh Lunho, inferno da minha vida
Terra lixada e sem igual
Adeus Felgar, adeus azar, é a despedida
Vamos embora, vamos para outra vida.
Ai que contentes ora nós já nos sentimos
Com os cabeças que decidimos
Aqui estamos nós de novo a cantar
Esta cantiga que é para obsequiar


Por toda a vida nós iremos recordar
Quem nos mandou para aqui gozar
E àquele homem que soberbo decidiu
Nós mandaremos para a p... que o pariu
Cantam de novo as nossas bocas já cansadas
É injustiça esta tourada
E aqui poremos direitinho neste tango
Estou farto deles aqui mesmo no Unango.

 

"TURRA DAS MINAS"

I
O turra das minas
Pequeno e traquinas
Lá vai na picada
E a malta escondida
Na mata batida
Monta a emboscada.
O turra passou
A malta esperou
Já toda estafada
E a Berliet
Sempre foi estoirada.

II
Oh turra das minas
A tua vida agora
É pôr as "marmitas"
Pela estrada fora.
Oh turra das minas
Tua arma soa
Por léguas e léguas
Aqui no Niassa
Onde a Guerra entoa.

III
Há mortos e feridos
E os mais comidos
Somos sempre nós,
Vamos pelos ares
Gritando por todos
Até pelos avós.
Oh turras bairristas
Mas pouco fadistas
Já é tradição
Ser paraquedista
Sem tirar o curso
Ai isso é que não.

Oh turra das minas
A tua vida agora
...


Fado de humor em que, como o nome indica, é o "turra" (terrorista) que põe as "marmitas" (minas)
nas "picadas" (caminhos através do mato)


setstats1

 

 

"TABERNA DO DIABO"

I
Um dia fui dar com Deus
Na taberna do diabo
Entre cristãos e ateus
Fizeram de mim soldado

II
E eu sem querer fui embarcado (Bis)
Levei armas e um galão
Pr'ó outro lado do mar
Quis levar o coração
Não mo deixaram levar

E eu sem querer ia matar (Bis)

III
Deram-me uma Cruz de Guerra
Quando matei meu irmão
E a gente da minha terra
Promoveu-me a capitão

E eu sem querer fiquei papão (Bis)

IV
Todos me chamam herói
Ninguém me chama Manel
Quem quer uma Cruz de Guerra
Que eu já não vou pr'ó quartel

Que eu já não vou pr'ó quartel (Bis)

 

Feito em Braga no ano de 1966 por Manuel António Gouveia Ferreira, que o levou para Moçambique (1969).
Reflecte os medos da geração de então face à Guerra Colonial, um muro a transpor. Muitos desertaram, muitos não e foram sem mais voltar "a acender no meu o seu cigarro".

 

setstats1"SERENATA"

I
Anda vem comigo
Fazer uma serenata
Anda que o ar é fresco
E a lua estiva é prata

II
Homens de rosto duro
Avançam pela picada
Partem de olhar em prumo
Chegam de cara crispada

III
Vieram de camponeses
Outros foram estudantes
Hoje de armas em punho
Tornaram-se assaltantes

IV
Pedidos de helicópteros
Para nunca chegar
Não resta outra sorte
Que o corpo sepultar

V
Os dias depois da chega
De tudo se consumar
Porque ao senhor comandante
Apeteceu passear

VI
Cá ao Norte do Candulo
Onde a fama não se acaba
Já vejo os meus abutres
Mas os gajos não se ralam

VII
Aos grandes ídolos da Nação
Que tenho para te dar
Secaram as minhas fontes
Agora só o cantar.

setstats1

 

"POEMA DO MILITANTE"

Mãe,
Eu tenho uma espingarda de ferro!
O teu filho,
Aquele a quem um dia viste acorrentarem
E choraste,
Como se as correntes prendessem e ferissem
As tuas mãos e os teus pés
O teu filho já é livre, Mãe!
O teu filho tem uma espingarda de ferro
A minha espingarda
Vai quebrar todas as correntes,
Vai abrir todas as prisões,
Vai matar todos os tiranos,
Vai restituir a terra ao nosso povo,
Mãe, é belo lutar pela liberdade!
Há uma mensagem de justiça em cada bala
que disparo
Há sonhos antigos que acordam como
pássaros
Nas horas de combate, na frente de batalha,
A tua imagem próxima desce sobre mim.
É por ti também que eu luto, Mãe.
Para que não haja lágrimas nos teus olhos.

 

Poema encontrado numa base da Frelimo na zona do Lunho.

 

 

 

"LUTA PELA VIDA"

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Venham ver os que lutam sem querer buscar glórias
Anda ver meu irmão os que tombam no chão
Frente à morte na luta pela vida

Venham ver os que vivem e apostam na sorte
Venham ver os que dormem nos braços da morte
Venham ver como é que se luta com fé
Frente à morte na luta pela vida

Se há um jovem que tomba outro se levanta
Se há um jovem que chora há outro que canta
Anda ver meu amigo os que riem do perigo
Frente à morte na luta pela vida

Sabem todos que a vida é caminho duro
E que a força das armas defende um futuro
Que se guarde a imagem da imensa coragem
Frente à morte na luta pela vida

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Que se guarde p'ra sempre nas vossas memórias
Que assim tomba no chão a minha geração
Frente à morte na luta pela vida
Frente à morte na luta pela vida

 

Um hino à coragem dos jovens, resumida no verso "Que assim tomba no chão a inha geração"

 

 

 

"LAMENTO DO NIASSA"

I
Num beco no cú de Judas
Sem ter miúdas
Sem ter ninguém
Vivia a maralha toda
Sem ter quem... lixar
Sem ter com quem

II
Era um sítio "estaporado"
Mal parido, condenado
Um local abandonado
Onde se cantava o fado
Cada qual mais apanhado

III
Aqui no Niassa
Eu me estou lembrando
No dia que passa
E em que vou lerpando
Saudades é mato
Das farras d'outrora
Niassa estaporado
Deixem-me ir embora

IV
Voltaria a ser quem era
Nada mais bera
Qu'esta saudade
Regressava à vida boa
Dessa Lisboa
Grande cidade

V
Procurava os meus amores
P'ra mitigar minhas dores
Boémio e ar de fadista
Deixava a perder de vista
Todos os conquistadores



"Saudades é mato" - (bastantes saudades)

 

 

"HINO DO LUNHO"


No céu cinzento sob o astro mudo
Batem as hélices, na terra esquentada
Vêem em bandos, com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Estou farto deles
Estou farto deles
Só mandam vir
E não fazem nada

S'alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas à chegada
Só mandam vir, só mandam vir
Só mandam vir e não fazem nada

Quantas mercedes, senhor capitão,
Até agora foram fornicadas?
Eu bem lhe disse que pusesse os homens
Picando minas, fazendo emboscadas

A toda a parte chegam helicópteros
Poisam nos tandos, poisam nas picadas
Trazem no ventre as cabeças de oiro
Que de guerrilha não percebem nada

Foi de propósito
Foi de propósito
Foi de propósito
Qu'ela foi estoirada

São os reizinhos do Niassa todo
Senhores por escolha, mandadores sem punho
Aceitam cunhas e dizem que não
Passam as rondas sobre o céu do Lunho

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas de um credo
E não se esgota o sangue da manada

Só quero feridos à segunda-feira
Não quero mais evacuações
O inimigo deve conhecer-se
Vamos chamá-lo para as inspecções

Fazendo a estrada sobre o chão de greda,
Fazem-se aterros, pontes e ontões
Ouvem-se os tiros, lá na emboscada
Aqui no Lunho é que há leões...

Agora queriam arrasar o Lunho
Deixar a estrada, abandonar a pista
É muito bom, já ninguém duvida
Deixa contente qualquer terrorista

Ouve-se um estrondo, todo o chão tremendo
Saltam as chispas com grande estupor
Soam as tubas, o que terá sido?
Mudou o chefe este sector

Acaba a guerra
Eu cá sou bom
Sou candeeiro
E também Fourgon

Estou farto deles
Estou farto deles
Só mandam vir
E não fazem nada

Tremem as paredes de qualquer quartel
Falam militares, anda tudo à bulha
Ri-se o capitão, ri-se o coronel
Com esta moda da mini-patrulha

Estou farto deles
Estou farto deles
Só mandam vir
E não fazem nada

Por uma ponte sem terminação
O nosso sangue foi sacrificado
Mas aleluia, não será lembrado
Pelas cabeças d'ar condicionado

Encher o peito de metal brilhante
É essa a sua aspiração
Para isso deixa os turras sózinhos
Dentro da linha de contenção

Estou farto deles
Estou farto deles
Só mandam vir
E não fazem nada

Deixem crescê-los
Organizá-los
Depois eu
Deito-lhes a mão

S'alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas à chegada
Só mandam vir
Só mandam vir
Só mandam vir
E não fazem nada

Estranha maneira de tratar o cancro
Que se propaga por nossa nação
Ele será leigo ou talvez ceifeiro
Mas nunca médico ou cirurgião


O "Hino do Lunho", para os que acompanharam a época era um desabafo sem qualquer idéia subversiva, embora algumas das quadras sejam violentas e possam parecer conterem algo
mais reprovável, o que não é o caso. Predomina o protesto e como sempre a crítica vem ao de cima.
O Lunho, povoação do Niassa Ocidental, era "duro de roer" para quem lá esteve, por vezes mais de um ano.

 

 

"HINO DE VILA CABRAL"

I
No dia em que lá chegámos
Contentes ficámos admirados
Vimos moças engraçadas
Nos parques sentadas
Com seus namorados

II
Em seguida toda a malta
Foi dar uma volta
E até por sinal
Ficámos admirados
Com os autocarros de Vila Cabral
(Bis (Troley carros)

III
Depois fomos em seguida
Por uma avenida
Que é de encantar
E então só de passagem
A linda paisagem
Fez-nos delirar

IV
Vimos coisas tão bonitas
Que atraem turistas
E os faz pasmar
E fomos de madrugada
À sardinha assada
À feira popular

V
Depois fomos mais além
E vimos também parques infantis
P'ra vermos coisa mais fina
Fomos à piscina ver os biquinis

VI
No fim vimos muita gente
E disse contente o amigo Amaral
Com tanta coisa que ver
Dá gosto viver em Vila Cabral
(Não! Não!) Com tanta coisa que rir
Dá gosto fugir de Vila Cabral
Deu gosto fugir de Vila Cabral.

 

(Letra de Carlos Macedo)
"Tudo o que não havia e fazia muita falta à malta..."

 

"HINO DE OLIVENÇA"

I
Lá, Lá, Lá, Olivença
Lá, Lá, Lá, Olivença
Capital do Nunca Mais
Onde a malta é toda fixe
Olivença terra sem jornais
Mesmo junto ao Lipiriche

II
De repente um grito na rota
Assinala que o avião vem
Que importa táxi ou Dakota
Se trás correio e tabaco também

III
Se quiseres um bom manjar
Vai falar com o cozinheiro
Um bom arroz a fartar
E também tampas de morteiro

IV
Quem por aqui passou
Nunca mais se esquecerá
Se dos turras não lerpou
Também de saudades não morrerá
Lá, Lá, Lá, Olivença
Lá, Lá, Lá, Olivença

"HINO À MINHA TERRA"

Amanhece
sobre as cidades do futuro.

E uma saudade cresce no nome das coisas
E digo Metengobalame e Macomia
E é Metengobalame a cálida palavra que os negros inventaram
E não outra Macomia

E grito Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!
E torno a gritar Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!
E outros nomes da minha terra
Afluem doces e altivos na memória filial
E na exacta pronúncia desnudo-lhes a beleza.

Chulamáti! Manhoca! Chinhambanine!
Morrumbala, Namaponda, e Namarroi
E com o vento a gritar sensualmente as folhas dos canhoeiros
Eu grito Angoche, Marrupa, Michafutene e Zóbué
E colho as sementes do cutilho e a raíz da txubula
E mergulho as mãos na terra fresca de Zitundo.

Oh as belas terras do meu áfrico país
E os belos animais astutos
Ágeis e fortes dos matos do meu país
E os belos rios e os belos lagos
E os belos peixes
E as belas aves dos céus do meu país
E todos os nomes que eu amo belos da língua ronga
Macua, suaíli, changana
Xítsua, e bitonga
Dos negros de Camunguine, Zavala, Meponda, Chissibuca
Zongoene, Ribáué e Mossuril.
- Quissimajulo! Quissimajulo! Gritam as bocas autênticas no hausto da terra.
- Aruângua! Responde a voz dos ventos na cúpula das micaias.
E o luar de cabelos de marfim nas noites de Morrupula
E nas verdes campinas das terras de Sofala a nostalgia sinto
Das cidades inconstruídas de Quissico
Dos chindjinguiritanas no chilro tropical de Mapulanguene
Das árvores de Namacurra, Muxilipo, Massinga
Das inexistentes ruas largas de Pindangonga
E das casas de Chinhanguanine, Mugazine e Bala-Bala
Nunca vistas nem jamais sonhadas ainda.

Oh, o côncavo seio azul-marinho da baía de Pemba
E as correntes dos rios Nhacuaze, Incomáti, Matola, Púnguè
E o potente espasmo das águas do Limpopo.
Ah! E um cacho das vinhas de espuma do Zambeze coalha ao sol
E os bagos amadurecem fartos um por um
Amuletos bantos no esplendor das mais belas vindimas.

E o balir pungente do chango e da impala
O meigo olhar negro do xipene
O trote nervoso do egocero
A fuga desvairada do inhacoso bravo no Funhalouro
O espírito de Mahazul nos poentes da Munhuana
O voar das sécuas na Gorongoza
A xidana-kata nas redes dos pescadores a Inhaca
A maresia no remanso idílico de Bilena Macia
O veneno da mamba no capim das terras do régulo de Santaca
A música da timbila e do xipendana
O ácido sabor da nhantsuma doce
O sumo da mapsincha madura
O amarelo quente da navúngua
O gosto da cuácua na boca
E o feitiço misterioso de Nengue-wa-Suna.

Meus nomes puros
Dos tempos de livres troncos de chanfuta, umbila e mucarala
Livres estradas de água
Livres pomos tumefactos de sémen
Livres shingombelas
E chigubos completamente livres!
Grito Nhanzilo, Eráti, Macequece
E o eco das micaias responde Amaramba, Murrupula, Nuanacamba
E os nomes virgens eu renovo o seu mosto
E sem medo um negro queima as cinzas e as penas de corvos de agoiro
Não corvos sim manguavavas
No esconjuro milenário do nosso invencível Xicuembo!

E um som de xipalapala exprime
Os caninos amarelos das quizumbas ainda
Mordendo agudas glandes intumescidas de África
Antes da circuncisão ébria dos tambores incandescentes da lua nova.


 

"FADO POR ESCOLHA"

I
Se estou muito chateado
Canto o fado
E mesmo muito lixado
Canto o fado
Quando me sinto apanhado
Canto o fado


II
Nesta vida de marinha
Quero só saber da minha
Não ser nunca incomodado
Eu só quero vida boa
Nunca sair de Lisboa
Nunca ir p'ra nenghum lado


III
Desde que vim p'ró Niassa
Vejo a vida a andar p'ra traz
Isto foi uma desgraça
Esta "escolha" não se faz


IV
Nem mesmo sei dizer
Se sou bom ou fui comido
Penso que me fazem crer
E eu estou mesmo a ver
É a canção do bandido


V
Se estou muito chateado
Canto o fado
E mesmo muito lixado
Canto o fado
Quando me sinto apanhado
Canto o fado


Nesta vida de marinha (tropa) / Quero só saber da minha (borga)

"FADO JOÃO PENEQUE"

I
Tua garganta tua voz d'ouro
Toda a magia do teu cantar
Adeus fadista, adeus tesouro
Teu belo fado vai-nos deixar

II
Tens d' ir embora tu já cumpriste
Fica a saudade da tua voz
Adeus Peneque, partes é triste
Tu ficarás sempre entre nós

III
Recordações dessas noitadas encantadas
Com teus cantares a noite passa
Vais ter saudades das ceatas e das farras
Adeus fadista do Niassa

IV
Leva a guitarra por companheira
Génio do fado que vais embora
Tu vais cantar a vida inteira
Serás artista p'la vida fora

V
Tu foste sempre um bom amigo
Alma boémia, companheirão
O fado todo parte contigo
Adeus fadista, adeus João


Este fado foi dedicado ao grande fadista João Peneque, pela malta amiga do Niassa.

 

"FADO DO RENDER DA GUARDA"

I
Vou-me embora
Hora triste
E a minha voz não resiste
A cantar em tom magoado

II
Volto à terra
Falta pouco
Já estou num desejo louco
Que o meu coração encerra

III
Sinto vontade
De acabar com esta guerra
Mas domina-me a saudade
Que vou deixar nesta terra

IV
E se inda agora
Estava alegre e bem disposto
Ao ver que chegou a hora
Vou-me embora com desgosto

V
Vou partir
Deixo a malta
Hei-de sentir sua falta
Apesar de ir p'ra melhor

VI
Levo comigo
A lembrança
E minha alma não descansa
Deixando um lugar amigo

VII
Quero cantar
Mas sufoca-me a emoção
Sinto a guitarra a chorar
A par do meu coração

VIII
Estou já à beira
Do render da minha guarda
E embora queira e não queira
Vou abandonar a farda

 

Este fado foi cantado e dedicado pelo fadista ao seu público de sempre, os camaradas, na noite da
sua despedida do Niassa. Toda a sua garra de artista está posta neste cantar em que o significado
do verso traduz perfeitamente o seu estado de espírito.
Ao deixarem o Niassa, no momento do render da guarda, muitos certamente se sentiam assim.

setstats1

 

"FADO DO TURRA"

I
Se de mim nada consegues
Não sei porque me persegues
Constantemente no mato!
Sabes bem que sou ladino,
Que tenho um andar muito fino,
E me escpo como um rato!

II
Lá porque és branco e pedante,
Pretendes ser arrogante,
Por capricho e altivez!
Eu que tenho sido pobre,
Mas que tenho a alma nobre
TalveZ te lixe de vez!

III
Como ando sempre alerta,
Tua arma não me acerta,
Nem me deixa atrapalhado!
E assim num breve instante,
Por mais que andes vigilante,
Tu serás sempre emboscado!

IV
Por isso toma cuidado!
E não me venhas com o teu fado
Dizer que branco é melhor.
Eu já muito codilhado
Estou sempre desconfiado,
E irás desta p'ra pior.

 

Outro fado de humor, em que o autor põe o "turra" a falar.

setstats1"FADO DO MILICIANO"

I
Ser miliciano foi meu sonho
Mas não foi esse o meu fado
Deus deu-me outra fantasia
A de entrar para a Academia
E de ser oficial do quadro

II
Abandonei os civis
Ai deixei a honestidade
Passei a ser calaceiro
Sabujo do mundo inteiro
Deixei de falar verdade

III
Hei-de ir p'ró Estado Maior
Cagar postas de pescada
Dedicar-me àquele estudo
Eles é que sabem tudo
Os outros não sabem nada

IV
Não chorem pelo meu fado
E de mim não digam mal
Se eu aldrabar um bocado
Se eu aldrabar um bocado
Ainda chego a General
(E não é preciso ser muito...)

Versão do Exército para Fado da Marinha (ser "RN" - Reserva Naval - Foi meu sonho - Ainda chego a Almirante).
Humor refinado contra Oficiais do Quadro/Meninos da Academia. Contraste entre os Oficiais sofredores e os Oficiais "Cunhados"...

 

"FADO DO DESTACAMENTO VETERANO"


Já fiz 20 ou já fiz 30,
Fiz 40 operações
Sem falhar ou sem que minta
Palmilhei mato aos montões
D'engolir tantas rações
Eu d'entre em pouco rebento!
passei noites ao relento,
Sem dormir um só momento


Oh! turra!
Vai-te embora,
Ai de mim que estou tão cansado!
Meu corpo já está todo escavacado!
Passar a vida assim a emboscar,
Nomadizar e palmilhar,
Isto é que é frete, isto é que é fado!
Tem pena e pensa em mim
Que é p'ra meu bem! Deixa-te capturar,
Que é p'ra Guerra s'acabar.


Não posso mais da "carcassa"
Sinto tudo do avesso
Desde que vim p'ró Niassa
Nem conserto eu já mereço!
Quando chegar à terrinha,
Não sei se vou inteiro!
Que raio desta idéia a minha,
De ter dado em fuzileiro.




Este fado é uma paródia sobre a vida dura e incómoda que um Destacamento de Fuzileiros suportava durante dois anos! Tudo nele se compreende e não necessita de explicação.

 

domingo, 24 de abril de 2022

Ditadura vs Democracia

 




A 24 de março de 2022, o tempo da democracia ultrapassa, em um dia, a duração da ditadura, que teve precisamente 17 499 dias. A Revolução de 25 de Abril de 1974, que pôs fim ao regime ditatorial, marca o início da contagem do tempo do período democrático, ou seja, 17 500 dias.


Esta quarta-feira, Portugal assinala 17 499 dias vividos em democracia - igualando o tempo vivido em ditadura - e começam também as comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril que se estenderão até 2026.

 

"Isso dá-me uma realização, um sentimento de orgulho, de sentir que o 25 de Abril trouxe para Portugal uma situação de paz e de democracia e de liberdade como nunca um período tão grande teve" ( Coronel Vasco Lourenço,JN).

 

A escola e os seus alunos cientes que há um longo caminho a percorrer no sentido da concretização dos 3 Ds de Abril: Descolonizaçao; Democracia; Desenvolvimento, iniciam hoje, também essa memória e luta.

“Nunca ninguém disse que cumprir Abril era tarefa só dos nossos pais e avós. Não é. Onde eles falharam teremos nós de acertar. A responsabilidade é nossa. E dos nossos filhos e filhas”. Marco Capitão Ferreira Professor, 25.04.2018, Expresso.


https://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/ditadura-democracia.aspx

segunda-feira, 21 de março de 2022

De volta à rotina

 

De volta à rotina, depois de um período de ”prisão” domiciliária, preocupação  pelos mais frágeis, extremos cuidados na desinfeção de todo o ar que se respira, volto, não igual, mas com novos motivos para agradecer aos amigos que espalham o aroma do jasmim e nos fazem ver os rebentos das árvores, com os seus cuidados. Obrigada. Preocupada embora por quem não conseguiu, ainda, sair da sua “prisão”, acredito que tudo correrá bem.

 É o mundo que temos, há que andar para a frente, mas o bicharoco anda por aí e em algumas lojas nem já há gel desinfetante! Estamos destinados a apanhar todos o Covid, é o que referem certas opiniões. Será?

Reduzo-me à minha pequenez, mas acho que embora andando para a frente podíamos continuar com todos os cuidados, digo eu, que não sou ninguém.  Mas eu tive-os e não me valeu de nada. Qual é a síntese?

Como hoje, é dia da poesia e no ar rescende o jasmim, fica o quintal florido e a conhecida poesia de António Ramos Rosa sobre as palavras.

 

 

Palavras

Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo

As palavras identificam-se com o asfalto negro

o tropel das nuvens

a espessura azul das árvores acesas pelos faróis

o rumor verde

 

As palavras saem de uma ferida exangue

de teclas de metal fresco

de caminhos e sombras

da vertigem de ser só um deserto

de armas de gume branco

 

Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos

e há palavras como giestas vivas

 

Matrizes primordiais matéria habitada

forma indizível num rectângulo de argila

quem alimenta este silêncio senão o gosto de

colocar pedra sobre pedra até à oblíqua exactidão?

 

As palavras vêm de lugares fragmentários

de uma disseminação de iniciais

de magmas respirados

do odor de gérmen de olhos

 

As palavras podem formar uma escrita nativa

de corpos claros

 

Que são as palavras? Imprecisas armas

em praias concêntricas

torres de sílex e de cal

aves insólitas

 

As palavras são travessias brancas faces

giratórias

elas permitem a ascensão das formas

elevam-se estrato após estrato

ou voam em diagonal

até à cúpula diáfana

 

As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado

 

Que enfrentam as palavras? O espelho

da noite a sua impossível

elipse

Saem da noite despedaçadas feridas

e são signos do acaso pedras de sol e sal

e da sua língua nascem estrelas trituradas

António Ramos Rosa

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Café concerto -século XX

 

 

 

 

 


 

CAFÉ CONCERTO

 

 

   

ESCOLA EB 2.3 DE BAGUIM

29 – 07 – 2001

21 horas

 

 

 

1900 – 1910

 

(Power point)

 

Portugal  entra no século XX frustrado com a perda de parte do seu império colonial e desanimado com as condições impostas pelo Ultimatum inglês.

 

Sobrevém, então, a exaltação patriótica de heróis nacionais,  de que Camões é o máximo expoente. 01

 

Portugal é um país com elevada taxa de analfabetismo e com saúde débil. 02

 

A industrialização iniciada no final do século progride lentamente. Portugal continua a afirmar-se como país agrícola e artesanal. É o país europeu com menor volume de comércio externo per capita. Exporta, sobretudo matérias primas e vinho do Porto. 03 - 04

 

Neste contexto progride a emigração, sobretudo para o Brasil. 05

 

Portugal é um país atrasado. A rede de gás mantém-se nas ruas durante toda a década. 06

 

Em 1901, o carro eléctrico, antes introduzido no Porto, chega a Lisboa. 07

 

O automóvel introduzido na década anterior deslumbra. 08

 

O telefone e o telégrafo confinam-se a alguns núcleos urbanos. Só em 1904 é que se estabelece a ligação entre Lisboa e Porto. 09 -  010

No início do século todo o protagonismo público é masculino – o homem é a autoridade e tem espaços para si reservados. 011

 

O foot-ball regista um crescimento de adeptos. Em 1903, surge o Boavista Foot.ball Club; em 1904, o Sport Lisboa e Benfica; em 1906 o Sporting Club de Portugal e o Foot-ball Clube do Porto. 012

O Teatro é o grande espectáculo da época. 013

A nível económico, afirma-se o comércio logista em detrimento do mercado e da feira. 014

 

D Carlos livre pensador e constitucional mantém-se afastado dos assuntos do Estado já que prefere o desporto, a caça, a ciência, a arte e a agricultura. 015

Em 1908, o rei é vítima de um atentado da carbonária. 016

 

Em 5 de Outubro de 1910, implanta-se a República. 017 - 018

 

 

(Passagem de modelos – música: Hino Nacional por Isabel Silvestre)

 

Ainda, em 1910, Augusto Gil publica Luar de Janeiro.

 

(Vânia Filipa e Pedro Plácido dizem Balada da Neve)

 

1910 – 20

 

(Power point)

 

Ao longo da década, a República frusta todas as expectativas. 101

 Verifica-se, então, uma constante instabilidade política. 102

 

Em resultado da Lei da Separação do Estado da Igreja, muitos eclesiásticos tornam-se conspiradores anti-republicanos. 103

 

Em 1914, eclode a 1ª Grande Guerra, na qual Portugal se vê forçado a envolver para garantir os seus direitos coloniais. São enviados para a Flandres 55 000 homens. 104

 

A guerra provoca carências de géneros essenciais, aumento de preços, desvalorização da moeda, racionamento, assaltos, confrontos e uma vaga de peste pneumónica. 105

 

Em 1917 , três crianças analfabetas guardadoras de rebanhos, em Fátima, afirmam ter encontros mensais, no sítio da Cova da Iria, com uma aparição que associam à Virgem Maria. 106

 

Em 1918, a instabilidade abre caminho à tentativa ditatorial de Sidónio Pais. 107

 

A nível social, a República considera os conjugues com os mesmos direitos no matrimónio, mas na prática o estatuto da mulher não é modificado. 108

Durante a guerra, a mulher destaca-se na retaguarda como enfermeira da Cruz Vermelha na Flandres ou em Portugal, a promover campanhas a favor das vítimas. 109

 

O traje feminino muda radicalmente– é abolido o espartilho rígido e imposto o fato de  casaco e saia, de início comprida, mas ao longo da década cada vez mais curta.

A gordura deixa de ser formosura. A silhueta adelgaça-se. 111

 

  

(Passagem de modelos – música: Rapsódia Portuguesa de Manuel de Figueiredo)

  

Em 1915 publica-se a revista literária que inicia, em Portugal o movimento modernista. Nela colaboram Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros entre outros.

 

(Ariana e Cátia Daniela dizem Luís, o poeta, salva a nado o poema de Almada Negreiros )

 

 

1920 – 30

 

(Power point)

As comunicações teleféricas, os transportes motorizados, o cinema, a imprensa ilustrada e as máquinas impõem-se em Portugal. 201/202/203

 

Os portugueses descontentes com a República afastam-se da política. 204

Explode o consumo associado a uma enorme alegria de viver.

A inflação galopante aconselha a gastar, devido à constante desvalorização do dinheiro. 205

 

Crescem algumas grandes empresas monopolistas. As grandes apostas fazem-se no comércio e na bolsa. 206

 

A república está desacreditada. Progride a instabilidade de tal forma que diversos sectores começam a ansiar uma mudança política no sentido do controlo social e estabilidade económica. 207

Assim, quando, em 28 de Maio de 1926, Gomes da Costa faz um levantamento das tropas em Braga e marcha sobre Lisboa, é acolhido com entusiasmo. 208

 

Está o caminho aberto para a instauração do Estado Novo que levará Salazar ao poder. 209

 

Em Lisboa , ao mesmo tempo que em Paris, Berlim ou Nova Iorque, acompanha-se com espumante a jazz-band, o fox-trot e o charleston – as roupas moldam o corpo e a cabeça de cabelo curto vive a leviandade. 210

No entanto, a “loucura” dos anos 20 restringe-se à capital. 2111/212.

 Para o final da década clama-se por ordem, disciplina, moral e autoridade.

 

 

(Passagem de modelos – música: Maldita Cocaína cantada por Luís Cília)

 

 

Florbela Espanca edita no final da década, no ano da sua morte, 1930, a obra Charneca em Flor:

 

 

( Sofia recita:  Ser Poeta. )

 

 

 

1930 - 40

 

(Power point)

Portugal vive uma estabilidade que contrasta com o vulcão em ebulição além-fronteiras. O responsável por esta atmosfera é António de Oliveira Salazar. Com efeito, a década decorre sob o signo do Salazarismo.que tudo controla. 301  - 302

 

Se o trabalho de persuasão e mentalização se mostra insuficiente recorre-se à repressão. Instala-se, então, um vasto aparelho que vai da censura prévia à polícia política, com discricionários poderes de detenção, tortura e custódia ilimitada de presumíveis opositores condenados ou não. 304 – 305 - 306

 

A Exposição do Mundo Português em 1940, festeja o Estado Novo e exalta o passado dos portugueses, devolvendo-lhes o orgulho e a esperança. 307

 

Salazar mantém Portugal afastado da 2ª Guerra Mundial. 309

 

É a década da consolidação do poder.

O corporativismo obriga à dissolução dos sindicatos livres. 3010

 

Reforça, nesse mesmo ano, o aparelho do regime com dois organismos de inspiração fascista, a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa. 3011 - 3012

 

No domínio do espectáculo, a revista conserva a sua popularidade. No entanto, a censura torna-a menos crítica. 3013

 

Os ideais educativos estão expressos nas máximas de inclusão obrigatória nos livros escolares, a partir de 1932:

 

“Obedece e saberás mandar”; “Na família, o chefe é o pai”; “Na escola, o chefe é o mestre”; “No Estado, o chefe é o Governo”. 3014

 

 

 

 

(Passagem de modelos – música: O Cochicho)

 

Nesta década, Fernando Pessoa publica a obra “Poesias”.

 

 (Ricardo Neves dizem Viajar de Fernando Pessoa )

 

 

1940 – 50

 

(Power point)

Portugal é um país neutral numa guerra que ameaça o mundo e que põe em perigo a soberania de Portugal sobre as suas colônias e o território dos Açores. 401

A cedência aos Ingleses da base das Lajes na Ilha Terceira, Açores, seguida de outra em Santa Maria aos Americanos, bem como a simpatia para com as idéias de Mussolini e Hitler faz com que Portugal mantenha relações com os dois lados da contenda mundial. 402 - 403

 

No entanto, enquanto outros fazem a guerra, Portugal faz negócios.

A balança comercial tem pela primeira vez, de 1941 a 1943, saldo positivo. As conservas de peixe e sobretudo o volfrâmio elevam a qualidade das exportações.

Inúmeras famílias camponesas tornam-se, agora, dependentes do volfrâmio. 404 Desenvolve-se, então, o contrabando e incrementam-se os novos ricos. 405

 

Lisboa torna-se uma zona de passagem de muitos refugiados que aqui são proibidos de procurar trabalho. 406

 

Na protecção aos refugiados destaca-se, o cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes que dá entrada a todos os fugitivos que se lhe dirigem. É despedido por Salazar.  407

 

Vigora, nesta época, a escassez de alimentos e o seu  racionamento progressivo, o açambarcamento e o mercado negro. 408

 

No entanto, é, também a década das grandes obras. Duarte Pacheco cria a obrigatoriedade dos grandes planos ordenadores dos meios urbanos. É também, obreiro  de novas pontes, viadutos, gares, estradas, redes sanitárias, tribunais, escolas, hospitais, prisões e bairros. 409

 

O facto de Portugal ser um ponto de passagem de múltiplas gentes favorece a circulação de novas idéias e modas.

Todavia, a guerra impõe rigor no vestir. Estamos atravessando tempos difíceis e é necessário fazerem-se economias, avisa a revista Arte Feminina, em 1942. 4010

 

O fado ganha o estatuto de canção nacional. O facto de qualquer execução carecer de licença oficial e o cantador ou cantadeira serem obrigados à apresentação de registo criminal, bem como as letras serem sujeitas a censura prévia, conformam o fado à dimensão de canção nacional, imagem de Portugal. 4011

 

Impõe, então, um nome: Amália Rodrigues que se torna a rainha da noite.

Com Amália, o fado é agora, juntamente com o vinho do Porto a imagem de marca de Portugal no estrangeiro.  4012

 

(Passagem de modelos – música: Uma Casa Portuguesa de Amália)

 

Nesta década, afirma-se a poetisa Sophia de Mello Breyner Anderson.

 

(Mário diz Dia do mar)

1950 – 60

(Power point)

Portugal mantém-se um país essencialmente agrícola. Salazar aconselha prudência na indústria já que lhe repugna a aposta no desenvolvimento e na urbanização, a abertura económica do país, o investimento estrangeiro. 501

A vida política também estagnou. O aparelho policial e censório atinge a plenitude.

Está instalada a delação praticada por milhares de portugueses, como informadores da PIDE ou da Legião Portuguesa. 502

 

O medo é a argamassa que consolida o Estado Novo. 503

 

Inicia-se, em 1953, o I Plano de Fomento dirigido tanto para a indústria, como para a rentabilidade agrícola que marca a transição de uma sociedade rural para uma sociedade moderna. 504

 

Em 1954, Portugal é integrado nas Nações Unidas.

 

A década termina com a adesão do Governo português à Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA) o que antes parecia impensável. 505

 

Em 1958, Humberto Delgado, ao candidatar-se à Presidência da Republica, consegue demonstrar que a sociedade portuguesa anseia pela mudança e está pronta a acarinhar quem demonstre ter novas propostas. 506

As fraudes eleitorais então verificadas levam D. António Ferreira Gomes a redigir uma carta a Salazar onde criticando o regime assevera: Sinto ter de pensar que não estamos a caminhar a não ser do avesso. 507

 

É nos anos 50 que Fátima se projecta como o altar do mundo. 508

 

Os clubes de futebol tornam-se instituições de influência na sociedade portuguesa. 509

 

A RTP nasce em 1957, depois de várias emissões experimentais na Feira Popular, o governo espera que os dirigentes do novo serviço público saibam fazer desta instituição um meio de elevação moral e cultural do povo português. 5010

 

De notar, ainda, a adesão da mulher ao automobilismo, desporto no qual se mostra desinibida e se atreve mesmo a envergar calças. 5011

 

 

(Passagem de modelos – música: Fado das Trincheiras)

 

Nesta década, José Fontinha afirma-se como poeta, sob o pseudónimo de Eugénio de Andrade.

 

(Nuno Moreira recita “ Até Amanhã”)

 

Rómulo de Carvalho sob o pseudónimo de António Gedeão escreve a obra “movimento perpétuo”

 

( António Jorge recita “Pedra Filosofal”

 

1960 – 70

 

Em 1961, explode a guerra em África, contra os movimentos nacionalistas. 150 000 militares, dos quais 3/3 da metrópole, chegam a estar envolvidos em cada ano nas três frentes da guerra colonial. Ainda em 1961, Portugal perde o Estado Português da Índia – Goa, Damão e Diu. A guerra agrava as condições de sobrevivência do regime salazarista.

No mesmo ano, o navio Santa Maria é desviado, como forma de propaganda contra a guerra colonial.

(Apresentação em Power Point – Guerra Colonial - Rute)

 

Nos anos 60 um milhão de emigrantes parte para o estrangeiro. Os campos são abandonados pelas gentes que  buscam melhor vida. Centenas de milhares de camponeses mudam-se para as periferias urbanas. Agrava-se o fosso estrutural entre o litoral e o interior.

( Sketch teatral 9º C - professora  Anabela Gil )

 

(Power point)

A década de 60 é marcada por diversas formas de contestação ao regime, entre as quais o golpe de Estado falhado de Beja.

 

A 13 de Maio, de 1967, Paulo VI visita a Cova da Iria. É acolhido friamente por Salazar, já que o Papa tinha ido à Índia, três anos  e publicara a Encíclica Populorum Progressio, onde condenava o colonialismo. 601

 

Duplica ao longo da década o número de estudantes universitários que imbuídos da rebeldia típica da década aderem à moda do twist, do ié-ié, no início do decênio, passando no final,  para a música pop-rock e para o fascínio pelo movimento hippie e pelos acontecimentos do Maio 68 ou até pela revolução cultural chinesa. Desta forma, contestam a rigidez do regime e a guerra colonial na qual não querem morrer.  602- 603

São rebeldes no início da década, Jorge Sampaio e João Cravinho entre muitos outros, no final, Jaime Gama, Mariano Gago  e João Soares. 604 – 605.

Em 1969, em Coimbra, a força do movimento estudantil leva, em  ao encerramento das faculdades, por parte do governo e ao boicote aos exames por parte dos estudantes

 

A nação atravessa  atravessa o período de mais rápido crescimento económico em toda a sua história até à data. A pesar da política isolacionista, a situação colonial leva o governo  português a tentar atrair os capitais estrangeiros como forma de angariação de apoio diplomático para a sua causa. 606

 

A prosperidade económica exerce reflexos quase imediatos sobre índices de bem estar social, como a taxa de mortalidade (incluindo a infantil)  que nos anos 60 desce a um nível superior ao da maioria dos países europeus. 607

 

A falta de mão de obra masculina abre novas oportunidades de trabalho ao sexo oposto, evidenciando o trabalho da mulher na agricultura, nas fábricas e no sector dos serviços. 608

 

No final da década Salazar atingido de traumatismo craniano, é substituído por Marcelo Caetano, que promete governar segundo a fórmula “evolução na continuidade”. 609 –610

 

 

(Passagem de modelos – música: Obla - di - Obla - dá

 

San Francisco “be Sure to wear some Flowers in your Hair de Scott Mackenzie)

 

 

Nesta década a actividade literária mostra-se muito interveniente e para passar na censura muito imaginativa. Neste quadro salienta-se Manuel Alegre que publica Praça da Canção  e o Canto e as Armas.

 

 

(...... diz País de Abril )

 

 José Saramago dá a conhecer, nos anos 60, Poemas Possíveis

 

 (Vânia Filipa declama Astronauta)

 

Miguel Torga publica a obra Poemas Ibéricos

 

 ( Hugo Leite declama o poema Mar )

 1970 – 80

 

Vídeo

 

Num único dia, 25 de Abril de 1974, toda a história muda em Portugal. Desta forma, a década de 70 condensa-se nesta data.

 

Como bem interpretou Sophia de Mello Breyner e Andersen:

 

Esta é a madrugada que eu esperava

o dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.

 

A década inicia-se com a liberalização da economia e um crescimento económico espetacular. Portugal mantém relações preferenciais com a Europa. Esta ligação é reforçada pelo fluxo migratório que prossegue em grandes quantidades para França.

 

( Sketch teatral 9º C - professora  Anabela Gil )

 

Nos anos 70, um maior número de estudantes acedem ao ensino superior, e contestam as normas vigentes.

 

Nas artes do espectáculo surgem sementes de inquietação – o Rádio Clube Português, no programa Em Órbita dá a conhecer as últimas novidades do POP ROCK .

No teatro surgem grupos independentes e na música, “os baladeiros” amplificam a contestação ao regime que vinha já dos anos 60.

Até o nacional cançonetismo, como acontece na canção “Tourada”, com letra de José Carlos Ary dos Santos e cantado por Fernando Tordo, representante de Portugal na Eurovisão, crítica o governo  de Caetano comparando-o a uma tourada. 

 

A mulher impõe-se na vida política, na polícia e na vida em geral. Isabel Barreno, Teresa Horta e Velho da Costa, conhecidas pelas Três Marias publicam as Novas Cartas Portuguesas proibidas pela censura.

 

 

Teresa Horta na sua obra chama a atenção para a necessária dignificação da mulher.

 

( ------ diz Onde recusou a mulher o pranto )

 

O passo decisivo para a mudança de estado é dado por um grupo de oficiais intermédios que já não acreditam na possibilidade de êxito na guerra colonial.

 

No entanto, o 25 de Abril não se resume a um golpe de estado militar, provoca uma mudança radical não só, na vida política, social e económica, mas também nas mentalidades.

 

Os soldados recusam-se combater em África. O Império desmorona-se, encerrando um ciclo ultramarino de meio milénio, a autoridade contesta-se sem receio, a liberdade impõe-se como direito natural.

 

Se Grândola Vila Morena identifica o 25 de Abril por ter sido a senha aguardada pelas tropas revolucionárias para avançarem – José Afonso é já antes de 1974 o mais destacado cantor de intervenção. Dignos de realce são ainda: Adriano Correia de Oliveira; Manuel Freire; padre Fanhais; Fausto; José Jorge Letria; Luís Cília; Sérgio Godinho e José Mário Branco.

 

Grândola Vila Morena – intervenção alunos do 5º ano

 

Passagem de modelos -  Música: Les Bourgeois de Jacques Brell

 

Na poesia Alexandre O’Neil está prestes a completar a sua vida poética que vai do entusiasmo ao desengano, através da ironia e do humor negro.

 

( Mário Daniel diz Amigo de Alexandre O´Neil )

1980 – 90

 

(Power point)

 A década é marcada pela instabilidade política e económica. Cerca de seiscentas empresas deixam de pagar salários sem que qualquer autoridade as obrigue a manter o compromisso para com os trabalhadores. 801

 

Surgem bolsas de pobreza em manchas industriais de Lisboa, Porto e Setúbal, onde os operários já não têm qualquer ligação à agricultura. 802

 

Os combates dos anos oitenta não se circunscrevem a causas operárias, ganham uma dimensão mais vasta, como é o caso da despenalização do aborto ou a favor do ambiente. 805

 

A década é laranja – Social Democrata – o PSD, sozinho ou em coligação, mantém-se no Governo sem interrupção de 1980 a 1990.  806

 

Devido a exigências comunitárias, zonas de grande implantação fabril como o Vale do Ave ou a península de Setúbal passam por profundas reestruturações, vitais para a sua sobrevivência. 807

 

Para o final da década assiste-se a uma onda de privatizações de sector empresarial do Estado com o objectivo de devolver competitividade a essas unidades. 808

 

O consumo expande-se com recurso ao “dinheiro de plástico” nos primeiros Hipermercados ou Shoppings ou, ainda, nas multinacionais com assento em Portugal. 809

 

É nesta década que se impõe a língua portuguesa nos ritmos jovens, depois do êxito alcançado com “Chico Fininho” de Rui Veloso. Grupos como Xutos & Pontapés, Trovante, GNR, UHF, Táxi, Rádio Macau, Heróis do Mar ou Madredeus encontram legiões de fãs. 810

 

O tempo livre consagrado ao prazer e tudo o que é entretenimento e espectáculo conhece uma expansão enorme. 811 – 812

 

 

Passagem de modelos – Música: Rui Veloso – Chico Fininho

 

(Power point)

A grande descoberta de Portugal nos anos 80, é a Europa. 804 - 804

A entrada de Portugal não é um caminho fácil, demora mais de  oito anos a percorrer, desde o momento do pedido de adesão à então, Comunidade Económica Europeia , ou Mercado Comum .

No entanto, ainda em 1986, Portugal subscreve o Acto Único Europeu que transforma o Mercado Comum em Comunidade Europeia – CE.

 

 

A comunidade europeia que nos anos 80 envolvia 12 países inicia a sua história associativa no pós 2ª guerra mundial a fim de gerir a produção do ferro e do aço. Era constituída por 6 países. Em 1973, entram mais três países, em 1981, mais 1 e em 1986 Portugal e Espanha. Nos anos 90, a União Europeia é constituída por 15 países e espera abrir as suas portas a toda a Europa “do Atlântico aos Urais.” -  813

 

Coreografia – Clube Europeu.

 

1990 – 2000

 

Nos anos 90, o poeta António Ramos Rosa vê a sua obra consagrada.

 

(......   diz poema de António Ramos Rosa )

 

(Power point)

 

Esta é a década mais tranquila e estável de todo o século. 901

 

Apesar dos apertos orçamentais com vista a cumprir os objectivos de aproximação aos padrões comunitários, o Estado permite-se acompanhar a vaga consumista geral e investe, em grande parte, com dinheiros europeus, tanto em infra-estruturas de transportes e comunicações, como em espaços destinados ao lazer e à cultura. É digna de destaque a Ponte Vasco da Gama, a maior da Europa. 902

 

O Estado promove, ainda, festejos e comemorações que restituem aos Portugueses a autoconfiança. 904

A euforia atinge o clímax na Expo 98 – exposição universal realizada em Portugal e que remodela a face da capital. 904b

Para cúmulo, em 1998, José Saramago recebe o Prémio Nobel da Literatura. 905

 

A nível europeu, Portugal faz parte dos países que se colocam na vanguarda do processo de integração, aderindo em 1991, ao Tratado de Maastrich que transforma as Comunidades Europeias numa protofederação – a U.E. e opta por integrar o processo de fundação da moeda única europeia – o euro. 906 - 907

 

A intimidade é cada vez mais pública e para essa tendência concorre a televisão privada preocupada com as audiências. 908

 

Aumenta a tendência da terciarização do país, cada vez menos industrial e agrícola e mais dedicado ao sector dos serviços. 909

 

O país continua a envelhecer. Em 1998, havia 90 idosos para 100 jovens .   910

 

No entanto, a partir de meados da década, os nascimentos aumentam, equilibrando os óbitos. 911

 

Todavia, Portugal é, ainda, o país europeu onde a esperança de vida à nascença se afigura mais curta. Apesar dos enormes passos dados em tempos recentes, ainda tem um longo e esforçado caminho a percorrer. Ainda, é considerado o 2º país mais desigual da UE, quanto à distribuição de riqueza que produz. 912 – 913

 

No fim da década há em Portugal um quarto de milhão de imigrantes legais ou não.

 

( Sketch teatral 9º C - professora  Anabela Gil )

 

A presença de minorias étnicas, sobretudo de cor, perturba alguns portugueses que deixam aflorar um racismo latente. Contudo, a intolerância militante não tem apoio na opinião pública.

Na viragem do século, espera-se a superação das dificuldades. Acredita-se no desenvolvimento e progresso.

 

 

Coreografia Rute Silva

 

Passagem de modelos – Música: Mais perto do Céu dos Bandemónio

 

 Encerramento

 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Bom dia! Até amanhã!

 

Juan trabalhava numa fábrica de distribuição de carne. Um dia, quando terminou o seu horário de trabalho, foi a um dos frigoríficos para inspecionar algo, mas num momento de azar a porta fechou-se e ele ficou trancado lá dentro.

Ainda que tenha gritado e batido na porta com todas as suas forças, jamais poderiam ouvi-lo. A maioria dos trabalhadores já tinha ido embora, e no exterior da arca frigorífica era impossível ouvir o que estava acontecendo lá dentro.

Cinco horas mais tarde, quando Juan já se encontrava à beira da morte, alguém abriu a porta. Era o segurança da fábrica, que salvou a vida de Juan.

Juan perguntou ao segurança como foi possível ele passar e abrir a porta, se isso não fazia parte da sua rotina de trabalho, e ele explicou:

“Eu trabalho nesta fábrica há 35 anos, centenas de trabalhadores entram e saem a cada dia, mas você é um dos poucos que me cumprimenta pela manhã e se despede de mim à noite. Muitos me tratam como se eu fosse invisível. Hoje, como todos os dias, você me disse seu simples ‘olá’ na entrada, mas hoje curiosamente, não tinha ouvido o seu ‘até amanhã’. Espero o seu ‘olá’ e ‘até amanhã’ todos os dias. Para você eu sou alguém. Ao não ouvir a sua despedida, eu sabia que algo tinha acontecido… Procurei e encontrei!”

Fica esta reflexão: sejam humildes e amem o próximo. A vida é curta demais e temos um impacto que não conseguimos sequer imaginar sobre as pessoas com as quais cruzamos todos os dias.


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12 novembro de 1991- massacre de Santa Cruz

 

12 de novembro de 1991, centenas de timorenses acorreram ao cemitério para homenagear Sebastião Gomes, jovem de 18 anos, membro da resistência assassinado no dia 28 de outubro, num protesto contra a ocupação de Timor pela Indonésia.

A polícia e militares indonésios carregam e disparam sobre a multidão, fazendo um número incerto de vítimas mortais que terá rondado as 300, centenas de feridos e desaparecidos.

Portugal redespertou para a mais esquecida das suas ex-colónias e conheceria uma mobilização cívica nacional, raras vezes vista, em torno da independência de Timor, que chegaria, finalmente, em 2002.

12 de novembro ficou designado em Timor-Leste como Dia Nacional da Juventude, celebrando a coragem e a determinação destas centenas de jovens e  para relembrar um dia tanto de tristeza como de esperança.


#juventude #aljube #semmemórianaoháfuturo #Timor        

 Monumento ao Massacre de Santa Cruz, Díli, Timor-Leste

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Descobrimento e expansão

 


Durante séculos os autores das obras sobre a expansão europeia dos séculos XV e XVI, divulgaram uma visão heroica dos navegadores e colonizadores, enfatizando o seu caráter civilizador. Como o continente americano era desconhecido na Europa, a palavra «descobrimento» concretizou a visão eurocêntrica, ou seja, europeísta. Mais recentemente, alguns historiadores têm analisado a expansão europeia do ponto de vista dos povos que viviam nas terras «descobertas» por Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral, apelidadas de Novo Mundo. A palavra descobrimento foi, então, substituída por expansão. Não é apenas o significado das duas palavras, mas também a intencionalidade no seu uso, que as torna inconciliáveis. Descobrir significa encontrar o que era desconhecido, logo não implica qualquer ato contrário à paz. Se nos lembrarmos de grandes descobertas da História, como por exemplo, a penicilina, concluiremos que os descobridores contribuíram, na generalidade, para o bem-estar da humanidade. Já a palavra expansão tem um significado belicista, como afirma o historiador Tzvetan  Todorov,  « é uma guerra, uma conquista.» E foi através da expansão que os Europeus construíram um «mundo novo» no Novo Mundo encontrado por Colombo e Cabral.

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Esse «mundo novo» foi construído sobre os cadáveres de milhões de pessoas que, à chegada dos Europeus, tinham um modo de vida tão diferente do modo de vida seguido na Europa que levou Sérgio Buarque de Holanda a afirmar: «o confronto de duas humanidades diversas, tão heterogéneas, que não deixa de impor-se entre elas uma intolerância mortal.» O confronto das duas humanidades diversas pode ser concretizado através de alguns exemplos. O imperador asteca acreditando que os Europeus eram deuses, recebeu-os amigavelmente e abrigou-os no seu palácio. Hernán Cortés, o comandante espanhol, prendeu-o e, a partir daí, foi mais fácil dominar o povo asteca. Os Incas eram agricultores e o ouro, tão desejado na Europa, abundava no seu território, contudo, para os Indígenas, a maior riqueza eram os armazéns espalhados pelo império onde guardavam especialmente alimentos e tecidos. Tal como os Astecas, os Incas, inicialmente, acreditaram que os Europeus eram deuses. Já alguns Europeus estavam convictos que, após a cristianização do seu continente, o diabo tinha ido habitar o continente americano, logo todas as atrocidades eram justificadas à luz da religião. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, um dos indígenas foi levado à sua presença, tendo apontado para o colar de ouro do capitão português e para terra. Para os Portugueses, o gesto significou que o metal precioso abundaria na região, o que não era verdade. Como os indígenas não conheciam a propriedade privada, tudo era de todos, talvez o indígena desejasse mostrar o colar aos restantes membros da tribo que tinham ficado em terra.

Ao contrário do que, por vezes, se pretende fazer crer, quer os aspetos positivos quer os negativos da expansão europeia dos séculos XV e XVI, não podem ser atribuídos a um só povo, pois o empreendimento europeu está associado à nova mentalidade renascentista que deu origem à Idade Moderna. Se os pensadores do Renascimento defenderam a esfericidade da Terra, Fernão de Magalhães deu início à viagem que a comprovou; à criação da perspetiva na pintura, procurando o artista aproximar-se da perfeição, corresponderam os cartógrafos desenhando o globo terrestre com enorme rigor. No livro Descobrimentos e Renascimento, Janice Silva afirma: «Os descobridores, ao realizarem a sua obra de colonização construindo igrejas e outras edificações necessárias à conquista, e os artistas, pintando ou esculpindo na Europa, consideravam a existência de um único padrão de beleza, uma única religião verdadeira, uma cultura superior a todas as outras. Descobridores e artistas olhavam o mundo de um único ponto e a partir dele destruíam e construíam. Por todos esses motivos, a harmonia presente nos quadros renascentistas transformava-se em desarmonia no Novo Mundo.»

Francisco Cantanhede, professor

https://osetubalense.com/opiniao/2021/11/11/a-construcao-do-novo-mundo-no-mundo-novo/?fbclid=IwAR124xkdn-9J9dLhJnj-1GYpm06Rle61ltWBfkRyHRgncbnIrbKjBtx8ZLk