A História
do Cinema
1. O
nascimento do cinema (1878–1900)
No final do século XIX, cientistas, fotógrafos e
inventores procuravam reproduzir o movimento através de imagens sucessivas.
Eadweard Muybridge realizou experiências de fotografia sequencial.
Thomas Edison (1847–1931) e William Kennedy Laurie Dickson (1860–1935)
desenvolveram o cinetógrafo e o cinetoscópio, aparelhos que permitiam registar
e observar pequenos filmes.
A grande transformação ocorreu com os irmãos Auguste
e Louis Lumière, que aperfeiçoaram o cinematógrafo e popularizaram a
projeção coletiva.
A 28 de dezembro de 1895, em Paris, realizaram
uma célebre sessão pública paga, considerada um marco fundador do cinema
enquanto espetáculo comercial.
Em 1896, o cinema chegou a Portugal. O portuense Aurélio
da Paz dos Reis realizou A Saída do Pessoal Operário da Fábrica
Confiança, um dos primeiros filmes nacionais.
Ver
os primeiros filmes dos irmãos Lumière
Explorar a
Cinemateca Digital portuguesa
2. Georges
Méliès e a descoberta da fantasia (1902)
A Viagem à Lua (1902), de Georges Méliès. Fotograma histórico. Para
identificação e consulta de materiais, Cinémathèque
française.
O francês Georges Méliès (1861–1938), antigo
mágico e homem de teatro, compreendeu que o cinema podia fazer muito mais do
que reproduzir a realidade.
Com truques de montagem, sobreposições, cenários
pintados e efeitos óticos, criou mundos imaginários.
"A Viagem à Lua" (1902), inspirada na literatura de
Júlio Verne e H. G. Wells, tornou-se uma das primeiras grandes obras do cinema
fantástico.
Méliès abriu o caminho aos efeitos especiais que,
mais tarde, seriam desenvolvidos pela tecnologia cinematográfica.
3. O cinema
mudo: a arte de contar histórias sem palavras (1900–1929)
No início do século XX, o cinema aperfeiçoou a
sua linguagem através da montagem, dos grandes planos, dos movimentos da câmara
e da interpretação corporal.
O cinema mudo não era necessariamente silencioso.
As sessões eram frequentemente acompanhadas por pianistas ou pequenas
orquestras.
Entre os grandes criadores da comédia
destacaram-se Charlie Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd.
Chaplin criou Charlot, personagem que conjugava o
humor com a crítica social em obras como "O Garoto" (1921), "A Quimera do Ouro" (1925) e "Luzes da Cidade" (1931).
As atrizes Lillian Gish, Mary Pickford e Louise
Brooks tornaram-se também figuras emblemáticas desta época.
Ver
O Garoto, de Charlie Chaplin
Portugal
Em Portugal, a
televisão desempenhou também um papel importante na divulgação do cinema mudo.
Em 1986, António Lopes Ribeiro apresentou na RTP o programa Museu do Cinema,
recuperando obras dos primeiros tempos do cinema português, acompanhadas ao
piano pelo maestro Resende Dias. As emissões permitiram a muitos espectadores
descobrir ou revisitar filmes que já não circulavam nas salas de cinema.
Fonte: RTP,
Museu do Cinema, episódios e arquivo do programa.
4. O
expressionismo alemão e a montagem soviética (1920–1930)

O Gabinete do Dr. Caligari (1920)
Robert Wiene. Referência: Deutsche
Kinemathek.
Metrópolis (1927)
Fritz Lang. Imagem
promocional de 1927, Parufamet, Wikimedia Commons.
Wikimedia Commons
Depois da Primeira Guerra Mundial, o
expressionismo alemão desenvolveu uma linguagem visual marcada por sombras
intensas, cenários deformados e atmosferas inquietantes.
Destacaram-se Robert Wiene, com O Gabinete do Dr.
Caligari (1920), F. W. Murnau, com Nosferatu (1922), e Fritz Lang, com
Metrópolis (1927).
Este último representou uma cidade futurista
dividida entre uma elite privilegiada e trabalhadores oprimidos, conjugando
expressionismo, Art Déco e futurismo.
Na União Soviética, Sergei Eisenstein demonstrou
o poder da montagem cinematográfica.
O Couraçado Potemkin (1925), particularmente a
sequência da escadaria de Odessa, tornou-se uma referência fundamental na
história do cinema.
5. A revolução
do som, da cor e Hollywood clássica (1927–1950)
A chegada do som sincronizado transformou
profundamente o cinema.
The Jazz Singer (1927), de Alan Crosland,
assinalou uma etapa decisiva na expansão comercial do cinema sonoro.
A voz, o diálogo e a música passaram a fazer
parte integrante da narrativa, contribuindo para o desenvolvimento dos grandes musicais.
A cor, experimentada desde os primeiros tempos do
cinema, ganhou nova expressão com o aperfeiçoamento do Technicolor.
Filmes como "O Feiticeiro de Oz" (1939) e "E Tudo o
Vento Levou" (1939) demonstraram as possibilidades artísticas da cor.
Hollywood consolidou os grandes géneros
cinematográficos: o western, o musical, a comédia, o filme policial, o
melodrama e o cinema de aventuras.
Entre os grandes realizadores destacaram-se John
Ford, Howard Hawks, Alfred Hitchcock, Orson Welles e Michael Curtiz.
A época consagrou estrelas como Greta Garbo,
Marlene Dietrich, Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Katharine Hepburn, Clark
Gable e Cary Grant.
Ver
uma sequência de Serenata à Chuva (1952)
6. O
neorrealismo italiano e o cinema de autor (1943–1960)
"Ladrões de Bicicletas "(1948), de Vittorio De Sica. Imagens e documentação: The
Criterion Collection.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o neorrealismo
italiano procurou aproximar o cinema das condições de vida das populações.
Realizadores como Roberto Rossellini, Vittorio De
Sica e Luchino Visconti privilegiaram as histórias de pessoas comuns, filmando
frequentemente em espaços reais.
Roma, Cidade Aberta (1945) e Ladrões de
Bicicletas (1948) são obras fundamentais deste movimento.
Mais tarde, Federico Fellini desenvolveu um
cinema muito pessoal, marcado pela solidão, pela fantasia e pela memória.
Entre os seus filmes encontram-se "A Estrada" (1954), "As Noites de Cabíria" (1957), "A Doce Vida" (1960), "Oito e Meio" (1963) e "Amarcord" (1973).
Na Suécia, Ingmar Bergman explorou as grandes
questões existenciais em obras como "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957) e "Persona" (1966).
Explorar
A Estrada, de Fellini
7. A Nouvelle
Vague e a renovação do cinema mundial (1958–1970)
Os Quatrocentos Golpes (1959), de François Truffaut, com Jean-Pierre Léaud.
Imagens e trailer: The
Criterion Collection. The Criterion Collection
No final da década de 1950, surgiu em França a
Nouvelle Vague, movimento que contestou as convenções cinematográficas
tradicionais.
Os realizadores recorreram a câmaras mais leves,
filmagens em exteriores, montagem inovadora e maior liberdade narrativa.
Destacaram-se François Truffaut, com Os
Quatrocentos Golpes (1959), Jean-Luc Godard, com O Acossado (1960), e Agnès
Varda, com Cléo das 5 às 7 (1962).
Entretanto, outras cinematografias conquistavam
reconhecimento internacional.
No Japão, Akira Kurosawa, Yasujirō Ozu e Kenji
Mizoguchi desenvolveram linguagens cinematográficas muito próprias.
Na Índia, Satyajit Ray afirmou-se com Pather
Panchali (1955), primeiro filme da Trilogia de Apu, e, mais tarde, A Casa e o
Mundo (1984), inspirado na obra de Rabindranath Tagore.
Ver o trailer
e um excerto de Os Quatrocentos Golpes
Explorar
A Casa e o Mundo, de Satyajit Ray
8. O cinema
político e as novas cinematografias (1960–1980)
As transformações políticas, sociais e culturais
das décadas de 1960 e 1970 refletiram-se no cinema.
O Novo Cinema Alemão afirmou realizadores como
Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders.
Fassbinder abordou as relações de poder e as
desigualdades sociais em filmes como O Direito do Mais Forte à Liberdade
(1975).
Em Itália, Bernardo Bertolucci realizou Último
Tango em Paris (1972) e 1900 (1976), enquanto Pier Paolo Pasolini desenvolveu
um cinema de intervenção política e crítica social.
Nos Estados Unidos, uma nova geração de
realizadores transformou Hollywood: Francis Ford Coppola, com O Padrinho
(1972), Martin Scorsese, com Taxi Driver (1976), e Steven Spielberg e George
Lucas, que contribuíram para uma nova era de grandes produções.
Explorar
O Direito do Mais Forte à Liberdade, de Fassbinder
9. A evolução
do cinema português
Depois das experiências pioneiras de Aurélio da
Paz dos Reis, o cinema português desenvolveu-se através de produtoras como a
Invicta Film, fundada no Porto em 1912.
Com a chegada do sonoro, as comédias portuguesas
ganharam enorme popularidade. A Canção de Lisboa (1933), O Pai Tirano (1941) e
O Pátio das Cantigas (1942) afirmaram atores como Vasco Santana, António Silva
e Beatriz Costa.
Manoel de Oliveira tornou-se uma figura
fundamental do cinema português e internacional.
Aniki-Bóbó (1942), de Manoel de Oliveira. Referência documental para
seleção da imagem: Cinemateca
Portuguesa.
Entre as suas obras destacam-se Douro, Faina
Fluvial (1931), Aniki-Bóbó (1942), Francisca (1981), Non ou a Vã Glória de
Mandar (1990) e Vale Abraão (1993).
Nos anos 60, o Novo Cinema Português, com Paulo
Rocha, Fernando Lopes e outros realizadores, procurou renovar a expressão
cinematográfica nacional.
Depois do 25 de Abril, o cinema português
conheceu novas possibilidades de criação e reflexão histórica. Destacam-se João
César Monteiro, João Botelho, Teresa Villaverde, Pedro Costa, Miguel Gomes e
João Canijo, entre outros.
Consultar o
património cinematográfico português digitalizado
10. Dos
efeitos especiais ao cinema digital (1980–2026)
Blade Runner (1982), de Ridley Scott. Imagem ilustrativa da cidade
futurista. Para publicação, deverá ser substituída por uma imagem promocional
com crédito de distribuição confirmado.
Desde Georges Méliès que os efeitos especiais
acompanham a evolução do cinema.
Com o desenvolvimento da informática, os modelos
e efeitos óticos tradicionais passaram a ser complementados por imagens criadas
digitalmente.
Blade Runner (1982), de Ridley Scott, tornou-se
uma referência da ficção científica, conjugando uma poderosa linguagem visual
com reflexões sobre a identidade, a memória e a condição humana.
Em Jurassic Park (1993), Steven Spielberg
utilizou imagens digitais e animatrónica para recriar dinossauros.
Toy Story (1995), de John Lasseter, foi a
primeira longa-metragem inteiramente realizada em animação tridimensional por
computador.
Avatar (2009), de James Cameron, explorou a
captura de movimentos e os ambientes virtuais.
A passagem para a captação, montagem e projeção
digitais transformou profundamente a indústria cinematográfica.
Nas primeiras décadas do século XXI, as
plataformas de streaming modificaram também a distribuição dos filmes e os
hábitos dos espectadores. Mais recentemente, a inteligência artificial
introduziu novas possibilidades criativas e questões éticas.
Apesar de todas as transformações, o cinema
continua a conservar a sua essência: contar histórias através de imagens e
sons, despertando emoções e convidando-nos a interpretar o mundo.




