segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
Cantiga de Reis
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
As coisas mais belas do mundo
O meu avô sempre dizia que o melhor da vida
haveria de ser ainda um mistério e que o importante era seguir procurando .
Estar vivo é procurar, explicava. (…) percebíamos isso no seu abraço. Eu dizia: dentro do abraço
do avô. Porque ele se tornava uma casa inteira e acolhia. Abraçar assim, talvez
porque sou magro e ainda pequeno, é para mim um mistério tremendo.
Eu sei que ele queria chamar a atenção para a
importância de aprender. (…) Estava constantemente a pedir-me (…) se prestares
atenção, vês corações e podes tirar medidas à felicidade.
(…) o meu avô pedia que não me desiludisse.
Quem se desilude morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantado. O encanto
é a única cura possível para a inevitável tristeza.
Criava jogos para inventarmos perguntas só
para ver se todas as perguntas teriam uma solução. As mais absurdas talvez sejam
adiadas, só o futuro lhes saberá responder. Inventar perguntas é aprender. (…)
“Nesse tempo, o meu avô
perguntou quais seriam as mais belas coisas do mundo.
Ele sorriu e quis saber se
não haviam de ser a amizade, o amor, a honestidade e a generosidade, o ser-se
fiel, educado, o ter-se respeito por cada pessoa. Ponderou se o mais belo do
mundo não seria fazer-se o que se sabe e pode para que a vida de todos seja
melhor.
A beleza, compreendi, é
substancialmente um atributo do pensamento, aquilo que inteligentemente
aprendemos a pensar.
A força do pensamento
haverá de criar coisas incríveis, científicas, intuitivas, maravilhosas,
profundas, necessárias, movedoras, salvadoras, deslumbrantes ou amigas. Pensar
é como fazer. Quem só faz e não pensa só faz uma parte.
Para a beleza é preciso
acreditar. Quem não acredita não está preparado para ser melhor do que já é.”
(…)
Para
mudar o mundo, sei bem, é preciso sonhar acordado.
(…)
há uma felicidade para os tempos difíceis. Sei que é importante seguir à sua
procura
“À
noite, deito igual a uma semente na almofada húmida do coração. Fico aninhado
com a esperança de crescer esplendorosamente por dentro do amor. No verdadeiro
amor tudo é para sempre vivo. E sei que, como as pedras, existo pela sede.
Quero sempre inventar a vida. Desse modo, tenho a certeza, numa ideia sem fim,
eu posso dizer: dentro do abraço. Dentro do abraço do meu avô.”
Valter Hugo
Mãe, As
coisas mais belas do mundo
sábado, 9 de novembro de 2019
Desculpem mas não tenho saudade da infância
Sei
que fui criada com amor, do pai à sua maneira tímida e pouco efusiva, da mãe de
forma abnegada, mas dado os problemas de doença, talvez, numa agonia constante
de impotência de tudo querer dar e não conseguir, dos meus titios e primos com
gestos de verdadeira fraternidade e acolhimento.
Os
meus primos, sobretudo, deram-me a conhecer um mundo alargado em múltiplas
direções, a leitura que devorava dia e noite e da qual tirava notas refletidas ajudou, também.
No
entanto, apesar de ir sozinha e a pé para a escola, brincar na rua, ou no
quinteiro do Couto, às vezes brincadeiras perigosas que ninguém superintendia e
nunca nada aconteceu de monta, a não ser coisas divertidas, não esqueço o dia
em que que me obrigaram a “dar um
bolo” a uma amiga da 3ª classe, quando
eu andava na primeira, e sabia o que ela não sabia, o que ocasionou, “apanhar”
eu; as redações coletivas em que todos escrevíamos o mesmo sobre os
passarinhos, o ter de decorar aqueles mapas, que, por acaso, o meu tio tinha no
escritório e diziam respeito a terras que ele conhecia lá de África, mas que eu
nunca tinha visto e aquele dia, já em 1973, em que a professora de Geografia,
no seu ditado para o caderno, referiu os países da Cortina de Ferro e eu, que
nunca tinha ouvido falar em tal, pus o dedo no ar e perguntei respeitosamente: “
é capaz de me explicar o que é a Cortina de Ferro?” Nunca imaginaria a pergunta
sacrílega e que pudesse resultar numa ameaça de expulsão. Saudades
disso? Não tenho nenhumas.
domingo, 20 de outubro de 2019
D. António Ferreira Gomes
D. António Ferreira Gomes com D. Manuel Martins (ainda antes de eleito Bispo de Setúbal) em julho/1969, nos dias do regresso ao Porto depois de 10 anos de exílio.
A jornada de ontem no Paço e na Sé do Porto foi uma digna e justa celebração daquele regresso. O dia coincidiu com os 60 anos do impedimento de entrada no país na fronteira de Valença, em 18 de outubro de 1959. Apesar to tempo invernal, o povo do Porto quis associar-se enchendo o auditório e, à noite, a Sé Catedral para um memorável espetáculo de teatro e música. (fundação SPES)
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
HINO DA CATALUNHA
A música é de Francesc Alió e foi composta em 1892, com base numa canção popular.
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
Sonata de Outono - José Tolentino
"Sonata
de outono
E
o outono vai-se instalando. A princípio nem parece uma estação. É quase um
estado de alma, este tempo assim um pouco vago, em declive delicado, com a
chuva ainda rala (mesmo se em alguns dias chega por aí aos tropeções) e o vento
que parece um miúdo a aprender a assobiar. Olhamos com íntima estranheza para a
brevidade destes primeiros dias, dos quais já não nos lembrávamos. Nas árvores,
as folhas tremeluzem, indecisas e iluminadas, transmutadas em incríveis
tonalidades. Os frutos têm perfume e sabores densos, tão diferentes daqueles
que se saboreiam no verão.
Lembro-me
de um poema de Miguel Torga, que gosto de pôr a tocar como uma pequena sonata
de outono:
O
que é bonito neste mundo e anima,
é
ver que na vindima
de
cada sonho
fica
a cepa a sonhar outra aventura...
E
que a doçura que se não prova
se
transfigura
numa
doçura
muito
mais pura
e
muito mais nova
Neste
arranque de outono, deixo-me demorar nas palavras: "a doçura que se não
prova". Tendo o privilégio de acompanhar a vida de muitas pessoas, sei que
esta não é uma questão que se possa iludir. Há um momento na nossa vida, ou há
momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos que ficámos aquém dos nossos
próprios sonhos. Há dias e estações da nossa vida em que nos sentimos mendigos
de nós mesmos. Esperávamos isto e aquilo que não aconteceu.
Desejávamos
uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é uma estreita e baça
normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob tetos baixos. Há uma
espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica adiada, que começamos
talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível nos assoma. Por
vezes, este sentimento vem aos 70 ou aos 40 anos. Mas também surge aos 20 ou
aos 30. Recordo aquela frase terrivelmente verdadeira de um romance
autobiográfico de Marguerite Duras: «Muito cedo na minha vida foi tarde de
mais». Esta difusa melancolia, este sentir que a luz que interiormente nos
alumia se tornou fosca e sem alcance são experiências muito alargadas. Por isso
se diz que não dependem propriamente da idade os outonos interiores que
atravessamos.
Existem
é modos diferentes de encarar essa experiência, que, no fundo, nos é tão
intrínseca e comum. Podemos desistir simplesmente de esperar, e largamos a vida
no parque de estacionamento do pragmatismo mais raso. Podemos trocar a doçura
que não conseguimos, por um tipo de acidez quotidiana, uma desconfiança
sistemática a que nada nem ninguém escapam, e que se vai espalhando, entre a
ironia e o desalento, contaminando tudo. Ou podemos, e esse é o olhar mais
necessário, perceber que «a doçura que se não prova/se transfigura numa
doçura/muito mais pura/e muito mais nova».
O
outono não é, portanto, o fim da história. Se o soubermos agarrar, é sim um
ponto de partida avançado, que nos permite essa coisa urgente que é a
"transfiguração" da vida, através de um paciente e esperançoso
trabalho interior."
José
Tolentino Mendonça, Diário de Notícias, Madeira
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
Morte
Santo Agostinho
“A morte não é nada.
Eu somente passei para o outro lado do
caminho
Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês, eu continuarei
sendo.
Me dêem o nome que vocês sempre me
deram,
Falem comigo como vocês sempre fizeram
Vocês continuam vivendo no mundo das
criaturas,
Eu estou vivendo no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene ou triste,
continuem a rir
Daquilo que nos fazia rir juntos
Rezem, sorriam, pensem em mim, rezem por
mim.
Que o meu nome seja pronunciado como
sempre foi,
Sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra ou tristeza
A vida significa tudo o que ela sempre
significou,
O fio não foi cortado.
Porque estaria eu fora dos vossos
pensamentos,
Agora que estou apenas fora das vossas
vistas?
Eu não estou longe, apenas estou do
outro lado do caminho...
Você que aí ficou, siga em frente,
A vida continua, linda e bela como
sempre foi."





