quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Cinema - memórias

 

A minha relação com o cinema

Dos filmes que vi, de uns ficou o argumento, uma frase, a música, uma imagem, de outros apenas as circunstâncias em que os vi. E tudo isso é história.

A magia da cabina de projeção

A minha iniciação ao cinema teve um encanto particular. Um vizinho, inquilino do meu pai, era projecionista no cinema da Ala de Nun'Álvares de Gondomar, conhecido por Cine Carioca. Chamava-se Abílio, mas eu tratava-o por Bilho.

De vez em quando, levava-me com ele. Em vez de assistir ao filme na plateia, via-o da cabina de projeção, num lugar privilegiado para observar a magia e os seus mecanismos.

Havia uma coisa de que gostava especialmente: que a película se partisse!

Acontecia, por vezes, nos pontos onde já tinha sido emendada, como me explicava o Bilho. Hoje interrogo-me se algumas dessas emendas não corresponderiam a cortes determinados pela censura, sobretudo nas cenas de beijos ou noutras consideradas inconvenientes.

Quando a fita se partia, interrompia-se a sessão e começavam os protestos. Eu divertia-me a observar o trabalho de reparação da película e, lá de cima, apreciava o alarido da assistência.

Afinal, havia dois espetáculos: o que decorria no ecrã e aquele a que eu assistia na cabina.

Muitos anos depois, Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, devolveu-me algo dessa infância. Reconheci no filme o fascínio pelo projetor, pela película e pelo homem que, da cabina, fazia nascer as imagens.

Cinema para rir, para chorar e para voltar a sorrir

Na juventude, o cinema tornou-se também um lugar de convívio.

Quando o Belmiro regressou da guerra do Ultramar, vinha profundamente marcado por aquela vivência. Parecia incapaz de se animar com o que quer que fosse. Eu procurava ajudá-lo, convidando-o a sair comigo e com as minhas amigas, a passear e a ir ao cinema.

A determinada altura, passou a ser ele a convidar-me, sobretudo para ver comédias.

Dizia que gostava de se rir das minhas gargalhadas!

Na verdade, eu soltava umas gargalhadas sonoras e prolongadas, que me faziam bem a mim e, pelos vistos, também a ele.

Louis de Funès, com as suas comédias irresistíveis, e Trinitá, o Cowboy Insolente, com Terence Hill e Bud Spencer, acabaram por ser instrumentos de uma espécie de terapia partilhada.

Se é que alguma vez se recupera totalmente de uma guerra.

Em sentido contrário, havia os filmes indianos que íamos ver ao Cinema Vale Formoso, eu, o Nel e a Zinha.

Chorava baba e ranho.

Não me lembro dos títulos nem dos enredos, mas recordo perfeitamente as emoções que me provocavam. A Zinha, cansada, acabava frequentemente por adormecer, enquanto eu me deixava envolver por aqueles melodramas intermináveis.

É curioso como a memória pode esquecer toda uma história e conservar intacta a emoção que ela despertou.

O som do cinema

O Violino no Telhado, de Norman Jewison, foi outro dos filmes que me marcaram.

Não me lembro ao certo onde o vi. Talvez no Cinema Trindade.

Mas ainda hoje visualizo o violinista no telhado, a família judaica, a alegria das celebrações e a música que parecia resistir às adversidades.

O meu primo Belmiro comprou o disco e ouvimo-lo vezes sem conta.

Gostava de arrumar a casa a cantar aquelas canções, tal como fazia com Cat Stevens. Father and Son dava-me ânimo para as tarefas domésticas que tinha de cumprir.

O cinema prolongava-se, assim, para além da sala, instalando-se na vida quotidiana através da música.

Também A Flauta Mágica, de Mozart, passou a fazer parte da minha história familiar.

Foi na Sala Bébé do Cinema Batalha que vi a extraordinária adaptação de Ingmar Bergman, recomendada pelo saudoso professor Carlos Alberto Ferreira de Almeida.

Fascinaram-me os contrastes entre a luz e as trevas, o dia e a noite, e a forma como Bergman transformava a ópera numa experiência simultaneamente musical, teatral e cinematográfica.

Sempre adorei A Flauta Mágica.

Quando estava grávida, costumava ouvi-la. Tinha a impressão de que o meu filho se acalmava.

Mais tarde, punha a música a tocar para o adormecer. Afinal, segundo ele próprio me contou, o efeito era precisamente o contrário: ficava em estado de alerta, atento à música.

Eu queria embalá-lo com Mozart. Ele queria ouvir Mozart!

Os filmes que nos contam

Há um filme que nunca esqueci, embora a minha recordação mais viva não seja a de o ter visto.

Na adolescência, costumava passar temporadas de praia em Salgueiros, onde o Nel e a Zinha arrendavam casa. A Luísa e os irmãos também apareciam. Gostávamos de caminhar, de nadar e de nos aventurarmos até ao rochedo grande, muitas vezes por incentivo do meu irmão.

Um dia, a Luísa foi ao cinema ver Doutor Jivago, de David Lean.

O filme era longo e ela resolveu contar-nos toda a história.

O relato acompanhou uma caminhada desde Salgueiros até ao Areinho da Foz e o regresso. Não lhe escapou praticamente nada.

Recordo a balalaica, a música associada a Lara, as flores amarelas, os grandes espaços da natureza, a guerra, o vermelho da Revolução e as paixões atravessadas pela História.

A narrativa foi tão pormenorizada que, quando terminou, eu tinha a sensação de já ter visto o filme.

E perdi a vontade de o ver. A surpresa estava estragada!

Afinal, também se pode conhecer o cinema pela voz dos outros.

Da História à liberdade

Sempre tive um fraquinho pela História e, naturalmente, os grandes filmes históricos exerciam sobre mim um enorme fascínio.

No início dos anos 70, ia ao Coliseu do Porto, com as minhas colegas, ver grandes produções como Ben-Hur.

Mas o cinema não era apenas uma forma de revisitar o passado. Era também uma maneira de acompanhar as transformações do presente.

Lembro-me especialmente da vontade de ver Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci.

O filme tinha provocado uma enorme polémica internacional e fora proibido em Portugal durante a ditadura. Depois do 25 de Abril, a sua exibição representava, para muitos espectadores, a possibilidade de ver aquilo que até então lhes tinha sido vedado.

Eu queria vê-lo precisamente porque tinha sido proibido.

Era o sabor da liberdade.

Havia, contudo, um obstáculo: a classificação etária. Receava que me pedissem o bilhete de identidade, porque, sendo baixa, podia parecer mais nova.

Arranjei-me cuidadosamente, maquilhei-me e calcei os sapatos mais altos que tinha.

O Belmiro chamava-lhes umas chancas.

Que o fossem! Faziam-me mais alta.

Na realidade, a altura nunca me causara grandes complexos. Preocupava-me mais a possibilidade de engordar. Mas naquele dia interessava-me sobretudo parecer suficientemente adulta para entrar.

O porteiro não reparou, ou não quis reparar, no meu ar comprometido.

Lá consegui entrar no Cinema Trindade.

E, finalmente, pude respirar de alívio e saborear a minha pequena conquista da liberdade, ainda que à custa de uma mentira social.

Entre aulas, cinemas e enganos

Nos últimos anos da década de 1970, enquanto frequentava a Faculdade de Letras do Porto, o cinema fazia parte da vida universitária.

Havia um professor que praticamente reproduzia os seus próprios livros durante as aulas.

Organizávamo-nos, então, de forma muito prática. Ficavam duas pessoas a ouvir e a tirar apontamentos, enquanto as restantes iam ao cinema ou, quando o tempo convidava, à praia.

Muitas vezes, o destino era o Cinema Brasília, relativamente próximo da Faculdade.

De uma dessas sessões ficou-me uma cena particularmente aflitiva. Alguém estava prestes a ser decapitado por um fio cortante.

A Lúcia, nervosa e sentindo o nervosismo dos outros, não resistiu a quebrar o silêncio e para se controlar, dizer em voz alta:

«Vá lá, até ao fim, sem medo!»

Não me recordo do título do filme, mas nunca esqueci a intervenção da Lúcia.

Noutra ocasião, fui a uma reunião que deveria decorrer numa sala onde também funcionava o Cineclube do Porto.

Cheguei atrasada. Estava tudo às escuras. Entrei discretamente, sentei-me e fiquei a assistir ao filme que estava a ser projetado.

Quando as luzes se acenderam, percebi que tinha acabado de ver O Couraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein.

Tinha-me enganado no dia da reunião!

Foi uma forma bastante original de descobrir uma das grandes obras da montagem cinematográfica soviética.

Quando o cinema nos confronta

Nem todos os filmes me proporcionaram prazer.

Recordo uma noite, provavelmente no início dos anos 80, em que saí do Café Estrela d'Ouro para ir ver Salò ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini.

Creio que a sessão decorreu no Cinema Passos Manuel, mas não tenho a certeza.

O filme andava a dar que falar.

Achei-o nojento.

Compreendia, contudo, que Pasolini utilizava deliberadamente a repulsa para denunciar a violência do poder, a dominação social e a transformação dos seres humanos em objetos.

O António tinha-me convidado.

À saída, percebi que o convite escondia intenções que iam para além da sessão de cinema.

Ele agradava-me, mas...

Ficou por aí.

O cinema também é feito destas histórias que não chegam a acontecer.

As imagens que ficaram

Foi o Paulo Melo quem me falou de Metrópolis, de Fritz Lang.

Estava fascinado com a grandeza daquele filme e despertou imediatamente o meu interesse.

A sua descrição levou-me a descobrir os contrastes violentos entre o claro e o escuro, a geometria opressiva dos cenários, as máquinas colossais e a cidade futurista que fazia lembrar uma Nova Iorque imaginada para o futuro.

Interessava-me particularmente a oposição entre os trabalhadores, condenados a viver e trabalhar no subsolo, e os privilegiados que habitavam a cidade da superfície.

A arquitetura monumental, as referências à Torre de Babel, a máquina Moloch e a estranha casa do cientista Rotwang mostravam como o cinema podia reunir o expressionismo alemão, a Art Déco, o futurismo e a simbologia religiosa numa poderosa reflexão sobre a sociedade industrial.

Aquela cidade era também uma imagem das desigualdades humanas.

Anos depois, outras imagens futuristas viriam juntar-se às de Fritz Lang.

O Coliseu e a força de uma multidão

Uma das minhas memórias mais impressionantes está associada a 1900, de Bernardo Bertolucci, que vi no Coliseu do Porto, provavelmente em 1977.

Numa determinada sequência, os trabalhadores começaram a cantar A Internacional.

Subitamente, a assistência levantou-se e acompanhou o cântico em uníssono, dando as mãos.

A sala transformou-se numa multidão participante.

A memória desse instante ficou profundamente gravada em mim.

O filme decorria no ecrã, mas, durante alguns momentos, parecia prolongar-se pela plateia.

Era o cinema a revelar o seu extraordinário poder de mobilização emocional, num Portugal ainda profundamente marcado pela experiência revolucionária.

O cinema, os amigos e o amor

Conheci o Zé em 1979, no Café Estrela d'Ouro. Tornámo-nos amigos, começámos a namorar em 1982 e casámos em 1983.

O cinema foi uma presença constante na nossa relação.

Gostávamos de ver filmes e, sobretudo, de os comentar depois das sessões.

Recordo uma ida ao Cinema Lumière para ver Francisca, de Manoel de Oliveira.

À saída, o Zé adiantou-se. Eu, cheia de vontade de discutir o filme, fui ter com ele.

Não reparei que havia uma porta de vidro pelo meio.

Esborrachei o nariz contra o vidro!

O Zé estava do outro lado.

Depois do drama de Francisca, acabávamos de protagonizar uma pequena comédia.

Também vi com ele A Mais Louca História do Mundo, de Mel Brooks, uma divertida paródia dos grandes episódios históricos.

O cinema tanto podia conduzir-nos à reflexão mais profunda como ao riso mais descontrolado.

Lisboa, o Alentejo e a descoberta de novos cinemas

Em 1981 e 1982, quando trabalhava no Alentejo, passava frequentemente os fins de semana em Lisboa, onde me reunia com amigos ligados ao meio cinematográfico. Creio que alguns colaboravam numa revista chamada Cinema Novo.

Passávamos literalmente os fins de semana a ver filmes.

Foi provavelmente numa dessas ocasiões que assisti a O Direito do Mais Forte à Liberdade, de Rainer Werner Fassbinder.

O filme impressionou-me pela forma como expunha a exploração económica e afetiva, mesmo no interior de relações aparentemente amorosas.

Mas houve uma surpresa inesperada.

No ano anterior, em 1981, tinha passado férias em Marrocos. Em Marraquexe, ficara hospedada num hotel com uma grande piscina, onde cheguei a nadar à meia-noite, por causa do calor intenso.

Ao ver o filme de Fassbinder, pareceu-me reconhecer o hotel onde estivera.

Não sei se era o Holiday Inn International, mas a coincidência ficou-me na memória.

Afinal, o cinema também pode recordar os lugares por onde passamos.

Outra cinematografia que me marcou foi a indiana.

Muito diferente dos melodramas que me faziam chorar no Vale Formoso, A Casa e o Mundo, de Satyajit Ray, despertou o meu interesse pela relação entre cinema, literatura e História.

O filme abordava um tema que eu já tinha estudado: o boicote aos produtos estrangeiros durante o movimento nacionalista indiano.

Partia de um romance de Rabindranath Tagore, autor que eu acabara de descobrir.

Era outra forma de olhar a Índia, através dos conflitos entre tradição e modernidade, nacionalismo, liberdade e emancipação feminina.

O frio do Fantasporto

Nos primeiros anos do Fantasporto, era quase obrigatório ir ao Cinema Carlos Alberto.

Recordo o frio que se entranhava no corpo à saída das sessões, quando regressávamos à rua ainda perturbados pelas imagens de terror.

Ficou-me uma mão a sair da terra e a agarrar alguém. Talvez de Carrie, talvez de Evil Dead. Não sei.

Sei que aquela imagem continuava a perseguir-me depois de terminada a projeção.

Mas o Fantasporto proporcionou-me também experiências de outra natureza.

Uma das mais marcantes foi Blade Runner, de Ridley Scott, apresentado numa das primeiras edições do festival.

Havia a excitação de assistir, em primeira mão, a um filme de que tanto se falava.

Nunca esqueci a atmosfera sombria e chuvosa daquela Los Angeles futurista, iluminada por anúncios luminosos, onde a tecnologia parecia conviver com a decadência urbana.

A música de Vangelis acrescentava uma dimensão quase hipnótica às imagens.

E ficou-me o monólogo final do replicante interpretado por Rutger Hauer, com aquela reflexão sobre as memórias e os momentos vividos que acabariam por se perder no tempo, como lágrimas na chuva.

Uma imagem poética da condição humana, nascida de um filme de ficção científica.

O cinema como hábito de vida

Nos primeiros anos de casada, não concebia passar uma semana sem ir ao cinema.

Foram tantos os filmes!

Taxi Driver, A Rosa Púrpura do Cairo, Laranja Mecânica, a beleza fotográfica e poética de Vale Abraão, Non ou a Vã Glória de Mandar, Os Canibais, os filmes de Bergman, de Fassbinder e tantos outros cujos títulos já não consigo enumerar.

O cinema era uma necessidade cultural, um prazer e uma forma de conhecer outros mundos.

Alguns filmes ficaram associados à sua mensagem, outros à beleza das imagens, à música ou à interpretação dos atores.

Vale Abraão, de Manoel de Oliveira, permanece na minha memória pela extraordinária relação entre a paisagem do Douro, a fotografia, a literatura de Agustina Bessa-Luís e a complexidade da personagem Ema.

E havia Fellini, com as suas personagens solitárias, a mistura entre realidade e fantasia, a música de Nino Rota e aquele universo em que o sonho tantas vezes parecia prolongar a vida.

O cinema tornara-se uma companhia permanente.

O cinema entrou na sala de aula

Mais tarde, na minha vida profissional, utilizei frequentemente o cinema como ponto de partida para o estudo da História.

Nunca substitui os documentos históricos por filmes, mas aproveitei a capacidade das imagens para despertar a curiosidade, criar problemas e suscitar a discussão.

Tinha excertos preparados para diferentes momentos das aulas.

Para a Pré-História e a evolução humana, recorria a 2001: Odisseia no Espaço e A Guerra do Fogo.

Para a Antiguidade, selecionava passagens de Os Dez Mandamentos, Troia, Ulisses, Os 300 de Esparta e Spartacus.

O mundo medieval encontrava expressão em O Nome da Rosa, O Sétimo Selo e Coração de Cavaleiro.

Para outros períodos históricos, utilizava O Homem da Máscara de Ferro, 1492: A Conquista do Paraíso, A Missão, As Sombras de Goya, África Minha e Tempos Modernos.

As guerras mundiais, a perseguição e a resistência eram abordadas através de A Oeste Nada de Novo, A Vida É Bela, A Lista de Schindler e filmes sobre Aristides de Sousa Mendes.

E Capitães de Abril ajudava a aproximar os alunos de um acontecimento fundamental da nossa história contemporânea.

Naturalmente, era necessário distinguir a ficção da realidade histórica, identificar anacronismos, discutir interpretações e compreender as opções dos realizadores.

Mas as imagens tinham uma força especial.

Muitas vezes, bastava uma sequência para despertar perguntas que depois encontravam resposta nos documentos, nos livros e no diálogo da aula.

O cinema, que tantas vezes me tinha ajudado a compreender o mundo, tornava-se também um instrumento para ensinar outros a interrogá-lo.

 

Termino voltando ao Trindade para ver “Naza” de Yuval Abraham e Rachel Szor e sair sem ousar dizer uma palavra.

 

A minha própria história

Ao percorrer estas memórias, verifico que nem sempre recordo aquilo que seria mais importante do ponto de vista cinematográfico.

Esqueci argumentos, títulos, datas e até salas.

Mas não esqueci as pessoas que me acompanharam ao longo da vida.

Talvez o cinema represente na minha vida não apenas uma sucessão de imagens projetadas num ecrã, mas uma multiplicidade de experiências que se foram entrelaçando com a minha própria história.