segunda-feira, 13 de março de 2017

Porto - emigração

 

EMIGRAÇÃO

 

 

Partida do Porto para o Brasil em 1916

 

 

Ao princípio ela e as filhas estranharam o ambiente. Aquela confusão, no cais, de pessoas de todas as qualidades, misturadas, em busca da entrada própria, do lugar competente. Malas, embrulhos. Os guindastes guinchando, voando, carregando. Iam uns de passeio ou de negócio, na viagem da prosperidade. Para outros, aquele era o cais da esperança incerta. Gente simples, do campo, a quem incomodava a roupa domingueira e facilmente, logo que era possível, o sapato ou a chinela davam lugar ao pé descalço. Carpinteiros, pedreiros boçais, a cheirar a suor, unhas de luto... Mas depois a bordo tudo era ordem, organização, hierarquia. Cada um em sua prateleira! As correntes de ouro a balouçarem nos coletes de veludo, de camurça, passeavam-se lá em cima na outra classe. Os enjeitados, enfeixavam-nos no buraco escuro e irrespirável do porão ... A maior parte ia para o Brasil, via Madeira, Canárias, Dacar ...

 

(... ) o vapor era como o mundo em miniatura (...)

 

 

Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987

 

 

 

 

 

 

 

“O galego da Galiza

 quando vai à procissão

leva as botas engraixadas

com a graxa do patrão.”

 

 

 

No comboio, a caminho do Porto, ainda nos ouvidos lhe soavam ecos de conversas recentes com amigos, à mesa do café, nos dias de chegada a Portugal...

“ Como uma estátua que de súbito se pusesse a caminhar! Acredite, Silva Lisboa!” dizia um.

“Como uma rocha que se transformasse em gaivota e se erguesse a voar!” explicava outro.

Mas ambos pretendiam exprimir a mesma odeia. Com ocinema, a fotografia libertara-se, no empolado dizer deles, da petrificação, da morte, da eternidade, e nascera uma nova arte.

 

Fernando Campos, Psiché,Difel, Lisboa, 1987