EMIGRAÇÃO
Partida do Porto para o
Brasil em 1916
Ao princípio ela e
as filhas estranharam o ambiente. Aquela confusão, no cais, de pessoas de todas
as qualidades, misturadas, em busca da entrada própria, do lugar competente.
Malas, embrulhos. Os guindastes guinchando, voando, carregando. Iam uns de passeio
ou de negócio, na viagem da prosperidade. Para outros, aquele era o cais da
esperança incerta. Gente simples, do campo, a quem incomodava a roupa
domingueira e facilmente, logo que era possível, o sapato ou a chinela davam
lugar ao pé descalço. Carpinteiros, pedreiros boçais, a cheirar a suor, unhas
de luto... Mas depois a bordo tudo era ordem, organização, hierarquia. Cada um
em sua prateleira! As correntes de ouro a balouçarem nos coletes de veludo, de
camurça, passeavam-se lá em cima na outra classe. Os enjeitados, enfeixavam-nos
no buraco escuro e irrespirável do porão ... A maior parte ia para o Brasil,
via Madeira, Canárias, Dacar ...
(...
) o vapor era como o mundo em miniatura (...)
Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987
“O galego
da Galiza
quando vai à procissão
leva as
botas engraixadas
com a graxa
do patrão.”
No comboio, a caminho do
Porto, ainda nos ouvidos lhe soavam ecos de conversas recentes com amigos, à
mesa do café, nos dias de chegada a Portugal...
“ Como uma estátua que de
súbito se pusesse a caminhar! Acredite, Silva Lisboa!” dizia um.
“Como uma rocha que se
transformasse em gaivota e se erguesse a voar!” explicava outro.
Mas ambos pretendiam
exprimir a mesma odeia. Com ocinema, a fotografia libertara-se, no empolado
dizer deles, da petrificação, da morte, da eternidade, e nascera uma nova arte.
Fernando Campos,
Psiché,Difel, Lisboa, 1987