MORTE
Alberto, vestido de luto
rigoroso, interrogava a esposa com o olhar, segurando nas mãos o chapéu preto a
que uma cinta de feltro baço, em jeito de fumo, tapava o brilho do gorgorão de
seda.
...
Havia seis meses que a casa
se entenegrecera de nojo pela morte do sogro, um nojo pesado que durante um ano
embiocaria as mulheres, encarvoaria os homens, não permitiria rir, cantar,
tocar, ter expansões, abrir as janelas....
(...)
Arrancaram as mulheres as
arrecadas, os fios, as medalhas de ouro, cobriram de pano preto os brincos das orelhas, ataram
o lenço negro pelos queixos e lançaram por cima das cabeças, escondendo-se no
bioco como animais acossados numa lura o pesado xaile de trevas. Também de
preto se vestiram os homens de alto a baixo e tiraram das gavetas das cômodas
as gravatas que cheiravam a naftalina, só usadas em tais horas de negrume. Tudo
o que lampejasse brilho era ofuscado, emudecido pelo feltro, pela estamenha baça
... fecharam-se em casa. Não saíram senão para a missa do sétimo dia na
madrugada gelada e silenciosa ...Lembrava-me do velório, daquelas horas
infinitas de suspiros e lábios a moverem-se no calado desfiar das contas do
rosário. De cada casa enviavam uma candeia de folha ou latão cheia de azeite e
com pavio novo, para agüentarem toda a noite. Era a única luz que velava o
morto. Não permitiam os costumes a estearina, o carbureto, o petróleo. Ainda
tinha no nariz esse cheiro a azeite queimado... Aos pés do caixão, um banquinho
com cobertura preta. Sobre ele, um copo grande de água-benta com um raminho de
oliveira mergulhado. Quem chegava aspergia o defunto, antes de se ajoelhar e
benzer ... Recordava-se do enterro, a longa fila de pessoas, a aldeia* em peso
que viera despedir-se do homem honrado ... Ela seguia atrás do caixão ao lado
do marido, vestida de luto, a mantilha preta de ir à missa pela cabeça ... Com
a morte do sogro perdia um amigo ...
Fernando Campos,
Psiché,Difel, Lisboa, 1987
* Santa Cristina de Malta ,
perto de Vila do Conde
.... ficava horas
esquecidas, mudas e tristes, sentada em sua cadeira, com um manto de lã sobre
os joelhos, diante daquela janela aberta, lá na sua casa do Porto, na Rua de
Anselmo Braamcamp, a olhar o sol derramando-se sobre os telhados da cidade, o
céu em que voavam pombas, as torres da igreja do Bonfim, as camionetas de carga
ao longe uma estrada plana... Dormiam sobre o piano emudecidas as suas músicas
preferidas ....
Fernando Campos,
Psiché,Difel, Lisboa, 1987