sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Anja








A minha Anja sentou-se na cadeira
perto da minha cama.
Como a sua mão de luz
tocou-me os olhos e despertou-me.

A minha Anja veio visitar-me no sono
e mostrou-me por dentro os meus sonhos.
Veio com o seu véu de medusa
a esvoaçar perto do meu rosto.
A minha Anja moveu-me os seus lábios de ros
e revelou-me um segredo
que como uma brisa
refrescou a minha alegria.

A minha Anja está perto de mim
Como eu perto do mar
e as suas pequenas vagas
fazem mover o meu coração.
A minha Anja
a de hálito azul
trouxe-me o sorriso fresco das manhãs
e ensinou-me a cor confiante da espera.

A minha Anja deixou-me uma pena
da sua asa. Nela voarei
para colher o canto azul dos pássaros.


Nuno Higino, “A Anja de hálito azul”







sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Louva a Deus







MONGE VERDE

Atormentado estava em labirinto,
sentei-me a meditar em meu jardim,
e os sonhos se fizeram de cetim
de um perfumado em rosa, qu’inda eu sinto.

E o monge se sentou perto de mim,
mãos postas, patas verdes, ser distinto,
falou-me o louva-a-deus, juro, não minto,
mimetizado à relva do capim:

“Por que tanta inquietude, amigo moço?
Soubésseis que esta vida é breve história,
jamais vós sofreríeis em sine die…

Que a morte em seu Mistério engole o poço,
e tudo o que levardes n’alma em glória
será o que viveis em carpe diem!”

Paulo Urban
http://www.amigodaalma.com.br/2011/04/22/eu-e-o-louva-a-deus/


domingo, 30 de abril de 2017

Maias

De um modo geral, o cenário das várias celebrações cíclicas compreende cerimónias de véspera. A colocação de giestas faz-se no dia 30 de abril para que as casas estejam floridas no momento em que começa o dia, para o «Maio», o «Carrapato» ou o «Burro» não entrar. O «Maio» ou o «Burro» são entidades nocivas, cujo malefício se pretende conjurar com uma barreira de flores.
A tradição de colocar Maias, nas entradas das casas, no dia 30 de abril para 1 de maio  perde-se no tempo.  Segundo alguns, originariamente, a Maia era uma boneca de palha de centeio, em torno da qual se faziam danças toda a noite do primeiro dia de Maio.
Também podia ser uma menina vestida de branco coroada com flores, sentada num trono florido e venerada, todo o dia, com danças e cantares.
Esta festa foi proibida várias vezes, como aconteceu em Lisboa no ano de 1402, por Carta Régia de 14 de Agosto, onde se determinava aos Juízes e à Câmara "que impusessem as maiores penalidades a quem cantasse Maias ou Janeiras e outras coisas contra a lei de Deus...".
Outra teoria liga o nome do mês de Maio a Maia, mãe de Mercúrio, e a ele está ligado o costume de enfeitar as janelas com flores amarelas.
Todos estes rituais estão ligados a antigos ritos de fertilidade do novo ciclo da natureza, à celebração da Primavera ou ao início de um novo ano agrícola.
A Igreja sacralizou esta tradição, ligando-a  à  Festa da Santa Cruz ou ao Corpo de Deus. Esse facto pode basear-se na lenda segundo a qual Herodes, sabendo que a Sagrada Família, em fuga para o Egito, pernoitaria em determinada aldeia, teria mandado matar todas as crianças. No entanto, alguém sugere que se assinale a casa do Menino Jesus para evitar tal mortandade. Todavia, quando os soldados se dirigem para a habitação assinalada, encontram todas as casas decoradas com giesta.

Enfim, todas estas práticas lembram, de forma obscura, a necessidade humana de esconjurar o mal, face à insegurança da vida e à omnipresente ameaça do que nos faz mal.


segunda-feira, 20 de março de 2017

PRIMAVERA



Na altura em que havia roupa de domingo e roupa de semana, a minha Professora Primária costumava anunciar que em determinado dia aprazado, ia visitar-nos à escola uma Senhora, e por isso, devíamos ir com a roupa domingueira e alegre. A minha mãe, no tempo em que o podia fazer, em conivência com a professora, moldava flores de papel tão belas que pareciam reais para serem espetadas nos tinteiros. A sala transformava-se num campo de hidranjas, cravos, rosas artificiais mas artísticas e nós que tínhamos uma escola severa, aproveitávamos aquela aberta para receber a Senhora Prima Vera!




















terça-feira, 14 de março de 2017

Porto - alargamento do aglomerado urbano

 

ALARGAMENTO DO AGLOMERADO URBANO

 

 Taxa sobre entrada dos produtos

Locais de pagamento

 


DATA

LOCAL

Até 1517

Cerca Velha

1517

Portas do novo recinto muralhado: Ribeira; Sol; Cimo de Vila; Carros; Olival; Virtudes e Miragaia.

1820

Alto da Calçada de Vila Nova de Gaia; Senhor do Bonfim; Aguardente (Marquês) e Prelada

1836

Massarelos; Pena; Vilar; Bom Sucesso; Valas (Nossa Senhora de Fátima), Estrada Nova; Carvalhido; Ramada Alta; Águas Férreas, Salgueiros, Sério (Antero de Quental), Campos do Gancho, Aguardente, Doze Casas, Congregados (na Rua da Alegria); S. Jerónimo, Campo Grande (Vinte e Quatro de Agosto); Bonfim; Campanha; Seminário; Corticeira; Ribeira; China; Guindais e Ponte.

1887

Esteiro; Freixo; Campanha; S. Roque; Rebordãos; Areosa; Azenha; Amial; Monte dos Burgos; Senhora da Hora; Pereiró; Vilarinha e Castelo do Queijo.*

A sul – na margem direita do rio Douro: Cantareira; Ouro; Massarelos; Banhos; Ribeira; Ponte D. Luís ( tabuleiro superior e inferior); Guindais e Pinheiro.

Fonte:José Alberto V. Rio Fernandes, Porto Cidade e Comércio,e A.H.C.M.P., Porto 1997,  várias páginas.

 

 

* propicia a construção da estrada da circunvalação construída em 1889

segunda-feira, 13 de março de 2017

Porto - morte (tradições)

 

MORTE

 

Alberto, vestido de luto rigoroso, interrogava a esposa com o olhar, segurando nas mãos o chapéu preto a que uma cinta de feltro baço, em jeito de fumo, tapava o brilho do gorgorão de seda.

...

Havia seis meses que a casa se entenegrecera de nojo pela morte do sogro, um nojo pesado que durante um ano embiocaria as mulheres, encarvoaria os homens, não permitiria rir, cantar, tocar, ter expansões, abrir as janelas....

(...)

Arrancaram as mulheres as arrecadas, os fios, as medalhas de ouro, cobriram  de pano preto os brincos das orelhas, ataram o lenço negro pelos queixos e lançaram por cima das cabeças, escondendo-se no bioco como animais acossados numa lura o pesado xaile de trevas. Também de preto se vestiram os homens de alto a baixo e tiraram das gavetas das cômodas as gravatas que cheiravam a naftalina, só usadas em tais horas de negrume. Tudo o que lampejasse brilho era ofuscado, emudecido pelo feltro, pela estamenha baça ... fecharam-se em casa. Não saíram senão para a missa do sétimo dia na madrugada gelada e silenciosa ...Lembrava-me do velório, daquelas horas infinitas de suspiros e lábios a moverem-se no calado desfiar das contas do rosário. De cada casa enviavam uma candeia de folha ou latão cheia de azeite e com pavio novo, para agüentarem toda a noite. Era a única luz que velava o morto. Não permitiam os costumes a estearina, o carbureto, o petróleo. Ainda tinha no nariz esse cheiro a azeite queimado... Aos pés do caixão, um banquinho com cobertura preta. Sobre ele, um copo grande de água-benta com um raminho de oliveira mergulhado. Quem chegava aspergia o defunto, antes de se ajoelhar e benzer ... Recordava-se do enterro, a longa fila de pessoas, a aldeia* em peso que viera despedir-se do homem honrado ... Ela seguia atrás do caixão ao lado do marido, vestida de luto, a mantilha preta de ir à missa pela cabeça ... Com a morte do sogro perdia um amigo ...

 

Fernando Campos, Psiché,Difel, Lisboa, 1987

 

* Santa Cristina de Malta , perto de Vila do Conde

 

 

.... ficava horas esquecidas, mudas e tristes, sentada em sua cadeira, com um manto de lã sobre os joelhos, diante daquela janela aberta, lá na sua casa do Porto, na Rua de Anselmo Braamcamp, a olhar o sol derramando-se sobre os telhados da cidade, o céu em que voavam pombas, as torres da igreja do Bonfim, as camionetas de carga ao longe uma estrada plana... Dormiam sobre o piano emudecidas as suas músicas preferidas ....

 

Fernando Campos, Psiché,Difel, Lisboa, 1987

 

 

Porto - emigração

 

EMIGRAÇÃO

 

 

Partida do Porto para o Brasil em 1916

 

 

Ao princípio ela e as filhas estranharam o ambiente. Aquela confusão, no cais, de pessoas de todas as qualidades, misturadas, em busca da entrada própria, do lugar competente. Malas, embrulhos. Os guindastes guinchando, voando, carregando. Iam uns de passeio ou de negócio, na viagem da prosperidade. Para outros, aquele era o cais da esperança incerta. Gente simples, do campo, a quem incomodava a roupa domingueira e facilmente, logo que era possível, o sapato ou a chinela davam lugar ao pé descalço. Carpinteiros, pedreiros boçais, a cheirar a suor, unhas de luto... Mas depois a bordo tudo era ordem, organização, hierarquia. Cada um em sua prateleira! As correntes de ouro a balouçarem nos coletes de veludo, de camurça, passeavam-se lá em cima na outra classe. Os enjeitados, enfeixavam-nos no buraco escuro e irrespirável do porão ... A maior parte ia para o Brasil, via Madeira, Canárias, Dacar ...

 

(... ) o vapor era como o mundo em miniatura (...)

 

 

Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987

 

 

 

 

 

 

 

“O galego da Galiza

 quando vai à procissão

leva as botas engraixadas

com a graxa do patrão.”

 

 

 

No comboio, a caminho do Porto, ainda nos ouvidos lhe soavam ecos de conversas recentes com amigos, à mesa do café, nos dias de chegada a Portugal...

“ Como uma estátua que de súbito se pusesse a caminhar! Acredite, Silva Lisboa!” dizia um.

“Como uma rocha que se transformasse em gaivota e se erguesse a voar!” explicava outro.

Mas ambos pretendiam exprimir a mesma odeia. Com ocinema, a fotografia libertara-se, no empolado dizer deles, da petrificação, da morte, da eternidade, e nascera uma nova arte.

 

Fernando Campos, Psiché,Difel, Lisboa, 1987