terça-feira, 15 de junho de 2021

Santo António

 

Lenda de Santo António na rota do românico


Marmoiral de Sobrado


 



O Marmoiral de Sobrado, em Castelo de Paiva, liga-se a uma lenda de Santo António. "Reza a lenda que vivia ali perto Martim, um descendente dos Bulhões. Este, apaixonou-se por Maria Teresa Taveira, mas o pai exigiu que Martim fosse à guerra antes de casar com a filha. Na guerra foi capturado pelos Mouros. Entretanto, o pai de Maria faleceu e esta começou a pressionada para casar com o muito rico D. Fafes.

 “Entretanto, o capelão daquela zona sabendo o que tinha acontecido negociou com os Mouros a libertação de D. Martim. Este, na esperança de recuperar a amada, travou um duelo com D. Fafes, do qual saiu vencedor, acabando por casar com Maria Taveira. Diz a lenda que D. Martim mandou construir um Marmoiral, onde estão gravadas as espadas em memória deste momento. Trata-se do Marmoiral de Sobrado. Aqui surge a grande curiosidade: Martim de Bulhões casou com D. Maria e tiveram um filho: Fernando de Bulhões, conhecido como Santo António de Lisboa", explica Joaquim Costa.” Rota do românico.

 Memoriais e Marmoiral que podem ser visitados a qualquer momento. Fica uma sugestão: a Rota do Românico organiza programas turísticos que podem ser de um, dois ou três dias. Também é possível criar um programa personalizado. Encontra todas as informações na página da internet da Rota do Românico.

 Santo António ou Fernando António de Bulhões, nasceu em Lisboa, a 15 de agosto de 1195. Era filho do  nobre e rico de Martinho de Bulhões, oficial do exercito de Dom Afonso e de Tereza Taveira. Fez a sua formação inicial com  os cónegos da Catedral de Lisboa.

 Aos 19 anos entrou para o Mosteiro de São Vicente dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho, contra a vontade de seu pai, onde permaneceu dois anos, dedicando-se ao estudo e oração. Depois foi transferido para Coimbra, onde ficou 10 anos e lá foi ordenado sacerdote, distinguindo-se pelo dom da palavra, na pregação.  

 Em Coimbra o Padre António conhece os freis franciscanos, e entusiasmando-se pelo fervor e pureza com que estes viviam o Evangelho, torna-se Frei António, mudando-se para o mosteiro de São Francisco de Assis.

 Entretanto, Santo António faz o pedido de ir para o Marrocos pregar o evangelho. Na viagem, a meio do caminho, porém, Frei António fica muito doente e é forçado a voltar para Portugal. No entanto, na viagem de regresso, o barco é desviado para Itália, terminando por parar na Sicília, em um grande encontro de mais de 5 mil frades franciscanos chamado Capítulo das Esteiras. Lá, António conhece pessoalmente São Francisco de Assis.

 A luz deve brilhar para todos

Após conhecer São Francisco, Frei António passa 15 meses como um eremita no monte Paolo. São Francisco nota os dons de que era possuído e dirige-se-lhe como  “Frei António, meu Bispo” e encarrega-o da formação teológica dos irmãos do Mosteiro.

No capítulo geral da ordem dos franciscanos, é decido que Francisco vá a  Roma para tratar de assuntos da ordem com o Papa Gregório IX, que impressionado com sua inteligência e eloquência, nomeia-o de Arca do Testamento.

Mais tarde, São Francisco nomeia-o  primeiro leitor de Teologia da Ordem. Em seguida, mandou-o estudar teologia para ensinar os alunos e pregar ainda melhor. Chegavam a juntar-se  mais de 30 mil pessoas para o ouvir  pregar, e muitos milagres aconteciam. Após a morte de São Francisco, foi enviado a Roma para apresentar ao Papa a Regra da Ordem de São Francisco.

 Santo António e o povo

 É considerado o protetor das coisas perdidas, dos casamentos e dos pobres, daí o costume de no seu dia, em algumas igrejas que lhe são dedicadas, ser distribuído um pão aos pobres, “o pão de santo António” ou “pão dos pobres”

 Como santo milagreiro, fez muitos ainda em vida. Durante as suas pregações nas praças e igrejas, muitos cegos, surdos, coxos e muitos doentes ficavam curados. Redigiu, ainda,  os Sermões, tratados sobre a quaresma e os evangelhos, que estão impressos em dois grandes volumes de sua obra.

 Santo António morreu em Pádua, na Itália, em 13 de junho de 1231, com 36 anos. Por isso mesmo, é conhecido também como Santo Antônio de Pádua. 

 Os meninos da cidade logo saíram a dar a notícia: o Santo morreu.

Em Lisboa, diz-se que  os sinos das igrejas começaram a repicar sozinhos e só depois o povo soube da morte do Santo. É, também, chamado de Santo Antônio de Lisboa, por ser sua cidade de origem.

 Devoção a Santo António

Devido aos milagres acontecidos após a sua morte, onze meses depois, foi beatificado e canonizado pelo Papa Gregório IX, na catedral de Espoleto, em 30 de maio de 1232, sendo o processo mais rápido da história da Igreja. Quando seu corpo foi exumado, a sua língua estava intacta. São Boaventura estava presente e disse que esse milagre era a prova de que sua pregação era inspirada por Deus. Está exposta na Basílica de Santo António na cidade de Pádua. 

Em 1934 foi declarado Padroeiro de Portugal.

Em 1946 foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XII.

Oração  a Santo António

“Meu querido Santo António dos mais carinhosos, o vosso ardente amor a Deus, as vossas sublimes virtudes e grande caridade para o próximo, vos mereceram durante a vida o poder de fazer milagres espantosos. Nada vos era impossível senão deixar de sentir compaixão pelos que necessitavam da vossa eficaz intercessão. A vós recorremos e vos imploramos que nos obtenhais a  graça especial que nesse momento pedimos. Ó bondoso e santo taumaturgo, cujo coração estava sempre cheio de simpatia pelos homens, segredai as nossas preces ao Menino Jesus, que tanto gostava de repousar nos vossos braços. Uma palavra vossa nos obterá  as mercês que pedimos.

 Entre o povo é costume recorrer ao Santo, quando se perde alguma coisa. É preciso ler o responso sem nenhum engano. Diz a crença que se não houver engano, o objeto perdido, será recuperado.

 Responsório de Santo Antônio.

Se milagres desejais

Recorrei a Santo Antônio

Vereis fugir o demônio

E as tentações infernais.

Recupera-se o perdido

Rompe-se a dura prisão

E no auge do furacão

Cede o mar embravecido.

Pela sua intercessão

Foge a peste, o erro a morte

O fraco torna-se forte

E torna-se o enfermo são.

Todos os males humanos

Se moderam e retiram

Digam-no aqueles que o viram

E digam-nos os paduanos.

Rogai por nós Santo António, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

domingo, 23 de maio de 2021

Clássicos em Rede

  Clássicos em Rede - endereços


Trabalho sobre os mitos de “Deméter e Perséfone” e “Orfeu e Eurídice”. Filmagem e montagem.

 

Elaboração do blogue submetido ao Concurso “Clássicos em Rede:  https://labirintusjd.blogspot.com/

 

Mito de Orfeu e Eurídice – processo

https://labirintusjd.blogspot.com/2020/05/mito-de-orfeu-e-euridice.html

 

Orfeu e Eurídice - produto final

 

https://labirintusjd.blogspot.com/2020/05/orfeu-e-euridice-produto-final.html


Deméter e Perséfone - processo

https://labirintusjd.blogspot.com/2020/05/demeter-e-persefone-processo.html

 

Deméter e Perséfone – produto final

https://labirintusjd.blogspot.com/2020/05/demeter-e-persefone-produto-final.html

 


  Trabalhos do Clube:

https://labirintusjd.blogspot.com/2020/05/trabalhos-do-clube.html

 

 

Blogue: https://labirintus2021.blogspot.com/

 

 

Nota de abertura - https://labirintus2021.blogspot.com/2020/12/nota-de-abertura.html

 

Introdução - https://labirintus2021.blogspot.com/search/label/Introdu%C3%A7%C3%A3o

Mito de Deucalião e Pirra – Processo - https://labirintus2021.blogspot.com/search/label/Mito%20de%20Deucali%C3%A3o%20e%20Pirra

Mito de Deucalião e Pirra – Produto final

https://labirintus2021.blogspot.com/search/label/Deucali%C3%A3o%20e%20Pirra-%20Produto%20final

 

Mito de Prometeu e Epimeteu – Processo https://labirintus2021.blogspot.com/search/label/Prometeu%20e%20Epimeteu

 

Mito de Prometeu e Epimeteu – Produto final

https://labirintus2021.blogspot.com/search/label/Prometeu%20e%20Epimeteu%20-%20produto%20final

 

 

Mito de Píramo e Tisbe – Processo

https://labirintus2021.blogspot.com/search/label/P%C3%ADramo%20e%20Tisbe

 

Mito de Píramo e Tisbe – Produto final

https://labirintus2021.blogspot.com/search/label/Piramo%20e%20Tisbes-%20produto%20final.

Trabalho conjunto

https://labirintus2021.blogspot.com/search/label/Trabalho%20conjunto

sábado, 13 de março de 2021

Educação Inclusiva

 

Reflexão sobre a Educação Inclusiva


 Guerreiro medieval feito por um aluno com TEA, durante a aula de História 7º ano,  para explicar o feudalismo, 2020

 

 

Maria sonhara ser professora  de História. Dadas as suas notas queriam-na noutas áreas, mas era como professora de História que se via útil à sociedade.  Era rapariguinha franzina, cheia de sonhos, com um bom auto-conceito de si. Sabia que não era bonita nem nenhum modelo de beleza, mas achava-se simpática, com alguma inteligência, resiliência e muita curiosidade sobre o mundo. Gostava de História, sobretudo da História da Cultura e de entender os comportamentos das pessoas ao longo da história, por isso é que os seus trabalhos incidiam sobre essas temáticas, o porquê dos comportamentos e acabou por fazer a sua tese de Mestrado subordinada ao tema: “Pensar a morte em Gondomar  1834-1893 - alguns aspetos da vida.”

No entanto, além desta “coscuvilhice” sobre o comportamento das pessoas, sobretudo no passado, também gostava de intervir na sociedade e achava que a melhor  forma de o fazer era sendo professora,  embora isso desse muito trabalho, para se fazer chegar a todos,  a comportamnetos  e pensamentos  diferentes. Por isso mesmo, sempre que a matéria se prestava, gostava de dinamizar debates, para treinar a comunicação, o raciocínio e a maneira particular de cada um se afirmar.

A entrada  de Maria na primeira escola foi muito interessante! A delegada comunicou-lhe que não tinha físico para professora, os pulsos eram muito finos. “É que é preciso ter pulso para a profissão”, argumentara. “A turma de Mecânica tem uma série de alunos com problemas comportamentais e faltas disciplinares, não  pode abrir os dentes”, sublinhara!

Desta forma aconselhada, Maria foi receosa  para a sua primeira aula com os rapazes de Mecânica! Tentou fazer exercícios  de boca para virar o seu natural sorriso às avessas, mas não conseguiu. Entrou sorridente, apresentou-se,  os rapazes, apresentaram-se e perguntaram-lhe:

- Ó Stora, não nos quer acompanhar num passeio que queremos organizar? Precisamos de um professor!

Ó caramba, pensou, Maria, só me faltava esta, mas se pensou, emotivamente de uma maneira, mais depressa falou de outra, talvez mais de acorddo com o  seu sentimento e as suas crenças:

-Ok. Eu vou com vocês se prometerem que se vão comportar bem e trabalhar o ano todo, quem é capaz de organizar um passeio sozinho, também é capaz de se empenhar na escola!

- Pelo nosso lado tudo bem!

Foram. Nas Caldas compraram um boneco e ofereceram-no divertidos. Aceitou com o seu sorriso habitual.

- Muito obrigada. Olha, mais um para a minha coleção!

Entreolharam-se e daí  para a frente cumpriram o seu contrato. 

Mero golpe de sorte, porque teoria consciente, não havia nenhuma, não  tinha estágio integrado, gostava de ler livros de psicologia, estivera, a um nada de trocar a História por Psicologia, mas acabou por não trair o seu sonho inicial. Como foi notório, não havia um  espírito de equipa docente capaz de ajudar a Maria a fazer a gestão das suas aulas com aqueles rapazes que, não sabia se tinham algum transtorno, ou se só eram desmotivados pelas disciplinas e pela escola. E porquê? Era preciso elevar o seu auto-conceito e trabalhar a sua auto estima e a capacidade de se empenharem e concentrarem? Não é que o ano tivesse sido fácil, mas sempre que tentavam asneirar, algum dizia: “com esta professora , não!”

Ao longo do tempo, em tantas turmas que lecionava surgiam sempre alunos com imensas dificuldades, que, naquela altura, não tinham nomes explicítos, só eram classificados com o toque dos dedos juntos na mesa. Arranjava-se estratégias diferentes e eles lá iam, embora com muitas negativas. Uns, na Trofa, gostavam de fazer maquetas e Maria entusiasmava-os com isso, classifcava bem esses trabalhos; a maioria, em S. Pedro da Cova, gostava de fazer trabahos sobre a terra e sobre as minas, Maria aprendeu a partir desse meio para os motivar. Em certa aula sobre a industrialização, lembrou-se  que muito melhor do que ela falar do trabalho das minas, era a D. Albertina, funcionária do setor, que fora britadeira, fazê-lo. Veio à  porta, chamou-a,  comunicou-lhe o que queria. Ficou confusa, mas daí a pouco, todos participavam na aula com grande entusiasmo e depois, bom aproveitamento.

Nessa escola,  propuseram-lhe integrar com outro colega, o projeto Minerva, mas Maria não percebia nada de computadores. “Não precisas”, responderam-lhe. “Tens formção durante um ano, depois tens que dar formação a professores e alunos”. “Ok”. Que privilegiada foi! Aprendeu, deu formação a 75% dos professores da escola e também a uma elevada percentagem de alunos. Preferia estes, pela destreza, claro, mas foi interessante ver os colegas, ela incluída a demorar um dia inteiro a enfiar a bola num cesto de baskete,  com o rato, enquanto os alunos o faziam num segundo. Gerações diferentes, ao fim e ao cabo!

Este projeto foi um factor integrador de excelência. Havia uma turma com alunos com muitas dificuldades. Necessitariam de maior concentração no estudo, mais permissividade no seu movimento dentro da sala? Maria não sabia. Só constatava que no Conselho de Turma, se sentia alienígena.  “Os alunos não são bem comportados e não têm boas notas”.” Porquê? Comigo têm. O que se estará a passar”? – interrogava-se silenciosamente. Ora, no início do ano, Maria tinha prometido  que quem se portasse bem e se empenhasse, podia ir para o Clube dos Computadores que se denominava ”Invesigar S. Pedro da Cova”. Muitos empenharam-se, obtinham resultados encorajadores, a sua auto-estima ia-se tornando positiva, aumentava o auto conceito  e lá iam trabalhar com os  computadores,  com um movimento mais livre que era prolongado nos passeios pela freguesia, o que tornou a aula de História muito mais interessante de seguir.

Maria esteve muitos anos a lecionar em S. Pedro da Cova e foi aí que ouviu  pela  primeira vez, falar em dislexia. Não afetava grandemante as aprendizagens mas a redação frásica era um ai meu Deus! Não sabia como lidar com tal, mas a mãe do aluno, uma colega da escola ajudava o filho  a treinar a ortografia,  a redigir, e a descodificar o que ele escrevia. Os professores liam os textos devagar. Talvez o menino fosse acompanhado por mais alguém, mas tornou-se num aluno confiante e com evolução no seu desempenho. Nunca teve testes diferentes, com resposta curta ou de espaços, mas como gostava de desenhar, muitas das aprendizagens eram suportadas pelo desenho. Talvez tivesse ajudado. 

Na mesma escola havia um aluno, com óculos de garrafa, estilo “cientista” que não se dava com ninguém, a não ser com um vizinho bem parecido que tinha um pai colecionador (hoje, catagá-lo-íamos de autista, vulgo “Asperger”) . Quando  Maria lecionou a 2ª guerra Mundial, ficou a saber que  ele era expert em kits de barcos e aviões da 2ª Guerra e o colega possuía, em casa,  uniformes, revistas, um pedaço do muro de Berlim, um mundo de vestígios do conflito. Propôs-lhes fazerem uma exposição. O cientista sempre mais calado, ia fazendo os kits, o outro, com ajuda da professora, pesquisando o significado dos objetos. Todos juntos fizeram legendas e a exposição foi aberta sem um certo  acinte por parte de alguns colegas que se queixavam que os alunos só se centravam naquele projeto. “É temporário”, respondia Maria!  “Vão ver como vão ser os melhores alunos do 9º ano”!  No entanto, o que Maria achou fundamental,  foi  o acréscimo de consideração dos dois, certamente mais benéfica  para o cientista que exultava de orgulho contido, o que contribuiu, certamente para o seu bem estar, o seu sentimento de pertença a um grupo que o admirava e para a sua  consciência de poder ir longe, porque conseguira montar quase sozinho uma exposição digna de algum museu.

Com o passar dos anos, Maria, muitas vezes, chega ao final do ano insatisfeita: a imagem que vê refletida no espelho é a de uma formiga, os outros dizem que é leão, mas ela gostaria, apenas, de ser uma professora que tivesse ajudado os alunos a crescer realmente de forma autónoma e satisfeitos consigo próprios.

A certa altura, Maria resolveu concorrer para mais perto de casa e foi parar à Júlio Dinis. Mal entra no polivalente, vê um rapaz agarrado aos cortinados pesados, o que a fez dirigir-se logo para lá a correr, para evitar algum acidente. Atrás de si, o Agente da Escola Segura, agarra-a, afasta-a , e segura o rapaz. Tinha conhecido o herói do momento, um rapaz com perturbação do comportamento, num dos seus acessos de destruição. Nunca foi seu aluno, mas que chegou a causar alguns problemas chegou. Num deles agrediu, à saída do ginásio, um aluno cuja mãe fez queixa e o assunto andou nos jornais. A escola conseguiu um funcionário extra, ex reformado da GNR, para vigiar os recreios, mas o rapaz agressor, embora controlado, na escola,  hoje,  é possível vê-lo nos piores sítios, infelizmente.

No entanto, nos anos a seguir foi professora de um aluno, agora já com registos com nome,  sinalizado com défice de atenção e concentração, num  PEI (projeto eductivo individual), o que quer dizer que tinha sido avaliado a nível psiquiátrico e psicológico, que tinha um plano  de execução para os professores seguirem e avaliarem a sua eficácia, redefenirem estratégias, se ncessario fosse, tendo em vista o progressso do menino. Foi bonito ver a interação entre pais e a escola, as permissões (por exemplo para ir à casa de banho) que eram explicadas aos colegas, as adaptações dos testes, embora, depois desta ação, Maria tivesse depreendido que não teriam sido as melhores, já que se insistia nas escolhas múltiplas e no aumento do tempo, embora, também, se defenissem  pausas que permitiriam uma certa acalmia. 

Nesta escola, houve outro caso que  Maria tentou resolver a todo o custo, o do menino, da sua direção de turma, um menino avaliado com TEA, agora não com PEI, mas com RTP (Relatório técnico pedadógico) com limitação da reciprocidade social e emocional; défice de atenção /concentração; deficiência na comunicação verbal; movimentos repetitivos e estereotipados; inflexíbilidade às rotinas;  hiperreativo ao barulho das conversas dos colegas que o faziam tapar os ouvidos e baixar a cabeça, quando algo não lhe agradava de todo.´Foi nececessário defenir  medidas universais e seletivas, nomes diferentes para coisas iguasis. Relativamente a este caso, tomou a iniciativa de reunir com a direçao e professores do ATL que o aluno frequentava , com a psicóloga e terapeutas, com os colegas da turma, em particular, para que houvesse uma atuação comum e uma troca constante de informações para que pudesse tornar-se mais autónomo e feliz. Está hoje, depois de algumas dificuldades, no últmo ano, do curso profissional de eletricidade.

Mas o caso que mais tocou Maria, foi o da sua última direção de turma, a turma D  cheia de diamantes que precisavam de ser  lapidados, sem que se lhes retirassem as suas propriedades únicas,  era uma menina  com transtorno de ansiedade generalizada, uma outra disléxica e com défice cognitivo, um menino com PHDA, uma menina com TOC;  um outro, com algum défice cognitivo, menino simpático e risonho que só acompanhava com meninas e que com toda a coragem e apoio de toda a turma, diretora de turma e professores, assumiu a sua relação de homosexualidade com um namorado,  o que foi bem aceite pela mãe mas custou um pouco ao pai. Era um corre corre de relatórios para diversos técnicos, entrevistas, pedidos de coadjuvância e interações com os pais, breves exercícos de relaxamento antes das avaliações.

Por vezes, os brilhantes desalinhavam, levando Maria quase ao desespero, contendo-se, apenas, porque sabia que atrás daquela atitude estava a vida multifacetada, sempre a mudar de forma, a poluir diamantes brilhantes com impurezas que o tempo limpará ou pelo menos, Maria  assim o espera, com  o auxílio das estrelas, dos trevos e da vontade de cada um. No entanto, outras vezes, formavam um  colar  que Maria usava orgulhosamente  por ter tantos brilhantes, tão valiosos e tão diferentes. É essa recordação que guarda, na sua caixinha de música onde um gato toca piano e uma dançarina dança, compassadamente, dando ao mundo um significado de infinita paz, arrastando nuvens de esperança que se dirigem a um futuro onde os brilhantes continuando a ser colar no peito de Maria, brilharão autonomamente, de diferentes formas!

 Esses e outros esforços e os reforços dados a cada aluno, foram acrescentando, pela formadora, Drª Cláudia, nuns casos, satisafação de dever cumprido, noutros, novas visões para tratar os assuntos de outra forma, da próxima vez que apareçam. No entanto, fica sempre a questão final, é muito difícil a um professor sem apoios e sem instrumentos, fazer com que todos os seus alunos se sintam incluídos e capazes de desenvolver ao máximo o seu potencial, nas melhores condições. Quando dizem à Maria, eu ali naquele lugar, estaria com muito mais atenção, ela responde: “vamose pedir à Câmara para construir um segundo anel em cada sala”! E os outros, a quem ela gosta de exigir mais, porque são capazes de ir mais? E aqueles alunos médios dos quais, quase Maria se esquece, porque nada exigem, mas que também têm direito a um desenvolvimnto das suas capacidades?

É que, apesar de tudo há a necessidade de  Maria se auto cuidar e não exigir tudo de si, de saber apelar aos outros e trabalhar em equipa com as estuturas da escola e, quando não for possível, resolver os casos, saber dizer não, uma palavra que a Maria tem dificuldade em pronunciar. Com efeito, a necessídade do trabalho conjunto é fundamental.. A interação entre colegas é sempre uma mais valia, para que nunca haja “pulsos finos” lançados sozinhos a lecionar  à “turma de Mecânica”!

Na verdade, Maria,  neste curso, sentiu-se mais segura, não pelo dever cumprido, porque verificou que cometeu algumas falhas, mas porque adquiriu instrumentos para melhorar e ser capaz de ajudar os seus alunos  com pontos de vista mais científicos. Na verdade, foram muitas as aprendizagens interiorizadas, acrescidos dos materiais que foram disponibilizados que poderão servir, para uma melhoria significativa, na  definição de estratégias mais flexíveis e adaptadas a cada um, que aliadas a uma coadjuvação, nem sempre fácil, embora, contribuirá, certamente,  para a formação de seres mais felizes.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Reflexão sobre o presente próximo

 






As polémicas ultimamente sentidas na sociedade portuguesa sobre colonialismo e  patriotismo, levaram-me a uma ponderada reflexão, no que se prende à definição de história como “forma de bem pôr os problemas do presente, pela reflexão do passado, tendo em vista a construção do futuro” que, se a memória não me engana, foi pronunciada por José Mattoso.


Também Rioux argumenta que refletir historicamente sobre o presente é fundamental no sentido de ajudar as gerações que crescem a “combater a atemporalidade contemporânea”, avaliar as informações (originais, sonoras e imagens) produzidas pela mídia, aprender a relativizar o “hino à novidade e se desfazer do imediatismo vivido que aprisiona a consciência histórica”:

Neste sentido, recuando no tempo, lembro Pierre Chaunu e o grande salto que foi para o mundo a passagem de um mundo que era considerado em “migalhas” a um mundo “globalizado”, afinal que se deu a conhecer, naturalmente, para a altura, de um ponto de vista europocêntrico.

Não sou especialista no assunto,  no entanto, é evidente a transformação trazida ao mundo pela aventura da expansão marítima, obra de grandes homens, dignos de louvor pela sua coragem de ousar ir além do horizonte. Essa coragem está justamente homenageada em múltiplos monumentos que são marcos da nossa história e assim devem continuar.

Descobrimos mundos, exploramos mundos, que no sentir do tempo se chamava civilizar, a quem deixava, porque no Japão apanhamos fama de “bárbaros” e apenas quiseram os nossos conhecimentos astronómicos e as espingardas.

O tempo flui em mudança!

Hoje encher-nos-ia de horror ver o grande Infante D. Henrique a dividir homens e mulheres, entre os primeiros escravos que lhe foram trazidos do outro lado do mar..

O processo de partilha dos escravos foi relatado por Gomes Eanes de Zurara na sua Crónica da Guiné: «Mas qual seria o coração, mais duro que ser pudesse, que não fosse pungido de piedoso sentimento, vendo assim aquela companha? Que uns tinham as caras baixas e os rostos lavados em lágrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dorosamente, esguardando a altura dos céus, firmando os olhos em eles, bradando altamente, como se pedissem socorro ao Padre da Natureza; outros feriam o rosto com suas palmas, lançando-se estendidos no meio do chão; outros faziam lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra [...]. Mas para ser dó mais acrescentado, sobrevieram aqueles que tinham carregado da partilha e começaram de os apartar uns dos outros, a fim de porem os seus quinhões em igualeza; onde convinha de necessidade apartavam os filhos dos padres e as mulheres dos maridos e os irmãos uns dos outros. A amigos nem a parentes se guardava nenhuma lei, somente cada um caía onde a sorte o levava!». O Infante D. Henrique estava «em cima dum poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes», e levou o quinto que lhe tinha sido destacado, correspondente a «46 almas».

Mas como diz a canção, atrás de tempos, tempos vêm.

Praticamos a escravatura, que fez crescer o comércios, uma economia, que no dizer de Vitorino Magalhães Godinho foi de transporte, não nos enriqueceu, porque não desenvolvemos a política de fixação à terra pela agricultura e artesanato. Mais tarde, os Ingleses, Franceses e Holandeses haveriam de aproveitar a brecha do Império mal gerido por portugueses e espanhóis e tomarem eles a rédea do negócio. Todavia, depois de terem dado cartas na conferência de Berlim, em 1885, e terem ficado cada um com o seu quinhão de África, a primeira guerra mundial sangrou de forma significativa estes povos colonizadores de forma a comprometer o seu domínio efetivo, nas regiões colonizadas.

O tempo passa, até que depois da 2ª guerra mundial, a ONU, chama a atenção para os princípios humanitários da descolonização,  da necessidade de dar o seu a seu dono, é evidente, depois dos dominadores terem sido pressionados por múltiplos movimentos independentistas. Portugal foi dos últimos países a conceder a sua independência às colónias E em época de fascismo e nazismo, Portugal tivera o ”seu império”, não precisara de conquistar nada. “Portugal não é um país pequeno”, era assim que as crianças eram educadas na escola e aprendiam até, os rios, as serras as linhas de caminhos de ferro de Portugal continental e das colónias.



De qualquer forma, há sempre a História contada aos olhos de hoje e a história contada aos olhos da época em que aconteceu, para não falarmos da história que instrumentaliza, analisada por Marc Ferro em “Comment on raconte l’histoire aux enfants à travers le monde entier”, título que prefiro ao da tradução portuguesa “Falsificações da História”.

A maior parte dos portugueses venera o fundador de Portugal, D. Afonso Henriques, mas ele lutou contra a mãe que defendia interesses diferentes . Foi por uma boa razão, pensamos nós e não vamos pôr isso em causa. Sem aprofundar, creio que teríamos que questionar toda a História de Portugal e a História do mundo.

Costumo dizer aos meus alunos que a guerra começou quando houve um homem que teve mais alguma coisa do que o outro, o fogo, a agricultura e por aí fora.

É  a natureza humana!

Por este andar, é evidente que não faz sentido destruir estátuas, obras de arte, documentos de um dado período, ou melhor, antes pelo contrário, são marcos dos seres humanos que somos.

Estudemos os mitos gregos e vejamos  como as histórias mitológicas são fantásticas, amalgamando, no mesmo ser, o bem e o mal, imagem e semelhança do deus Zeus.

A Guerra colonial?

Os portugueses à semelhança, de outros povos queriam ter um império ser tão grandes quanto os inglese e franceses, por que não? Os outros arranjaram forma de colonizar de forma mais camuflada, os Portugueses não o fizeram. Todos. obrigaram à mudança de costumes, dominaram, é verdade.

Estourou a guerra nas colónias e Portugal não estava preparado. Em plena guerra fria, lá havia o confronto entre soviéticos, maoístas, cubanos, escandinavos e americanos.

Cá o povo português não sabia nada disso, mas se pudesse ter um padrinho que o livrasse da guerra, por ter um pé chato, ou por ser o único sustento da família sempre era melhor!

Os demais mancebos tinham que ir. Havia quem dissesse que era para ser homens e eles lá iam, as senhoras gentis do Movimento Nacional Feminino arranjavam-lhes cigarros e uma madrinha de guerra, para dar ânimo , com a qual, às vezes, até namoravam e casavam, e a malta lá ia, coração apertado, alguns convictos de que iam defendem a grandeza de Portugal, outros porque assim tinha que ser –“ lutar ou morrer, naquele inferno”, como diz a canção dos Delfins.

Houve quem fugisse a salto, com algum dinheiro ou sem ele, fosse tentar a sorte noutro local, como a França.

Outros  lá iam e destilavam a sua revolta em  canções como as que estão compilados no álbum “Cancões do Niassa”, canções que falam da vida dos soldados, da saudade da terra, ou criticam de forma dissimulada ou direta, a própria guerra. Outros ainda desertavam.

No entanto, havia quem lutasse  e cantasse convictamente: “Angola é nossa!”

A verdade é que, naquela altura, ceder ou seja negociar, estava fora de causa.

Centrando-nos um pouco na  Guiné, quando lá se inicia a guerra, Portugal tem apenas a supremacia dos aviões que eram fornecidos pelos Estados Unidos.  A preparação dos militares era deficiente, não adaptada ao terreno e os independentistas conheciam bem a região.




Guerrilha feia, morte de civis, velhos e crianças existiram dos dois lados e em toda a parte. Ações de comandos (com preparação especial), tipo Rambo, como as que integrava  Marcelino da Mata, a quem prefiro chamar campeão  de ações bélicas a herói, existiam em ambos os lados. Ações ilegais, condenadas pela ONU, como a operação “Mar Verde”, também.

O PAICG, com o apoio do Senegal, ainda tentou negociar, quando, Salazar dá lugar a Marcelo Caetano e existe uma operação de charme à qual se chamou Primavera Marcelista. Talvez, Américo Tomás, os ministros de Salazar tivessem mais força do que o verdadeiro sentir do novo presidente do Conselho designado. A verdade, é que as colónias passam a províncias, é designado, para Governador da Guiné, o General Spínola que insiste na política de cativação da população, através de cuidados de educação e saúde, e tenta mesmo o plano negocial, chegando a escrever “Portugal e o Futuro”, obra na qual defende uma solução diplomática para a Guiné (cuja guerra estava perdida). O pior é que existiam outras colónias e dessas, o governo português não queria, mesmo, abrir mão de todo.

Com a perceção de perda  e de crescente oposição ao regime, Spínola dirige-se a 6 de Agosto a Marcelo Caetano: a anunciar que não regressará à Guiné.  Caetano que perde um dos seus melhores cabos-de-guerra, nomeia para  novo comandante da Guiné o general Bettencourt Rodrigues, com a missão: “Resistir até à exaustão de meios”.

Pouco depois, a 24 de Setembro, o  PAIGC proclama unilateralmente a independência, que é  a 2 de Novembro reconhecida pela  Assembleia Geral da ONU.

Dando-se conta do descontentamento reinante  entre os capitães,  o marcelismo ainda opera uma subida considerável do seu vencimento, reúne a 22 de fevereiro, com Spínola e Costa Gomes, convidando-os a tomar o poder, o que é rejeitado.  O próprio Marcelo Caetano pedirá a demissão a Américo Tomás,  algum tempo depois, que não a aceita.

O Movimento dos  Capitães descontentes com as condições em que combatiam e/ou imbuídos do sentimento de uma guerra injustiça, tentaram dois golpes militares, tendo sido o segundo vitorioso.

Na verdade, Spínola e Costa Gomes tomarão, meses depois, o poder, mas ao lado deste movimento.

Este descontentamento com a guerra colonial tornou urgente a necessidade da Revolução do 25 de abril.

Todavia, à semelhança do que acontecerá, noutras províncias, após o 25 de abril, o PAIGC provoca grande instabilidade em Bissau, criando um clima de insegurança  entre os portugueses militares e civis lá residentes.

Entretanto, Marcelino da Mata que foi convencido a vir  para Portugal,  acabou na época mais aguerrida da revolução,  preso e torturado, no Ralis, numa época de excessos revolucionários, considerava, tal como Spínola: “devia ter havido um período de autodeterminação de 15 anos, durante o qual se formariam quadros civis e militares em Portugal, dentro de uma federação de países. Depois poder-se-ia caminhar para a independência, mas no quadro de uma comunidade semelhante à que o Reino Unido mantém com as suas ex-colónias”. ( Jorge Alves: 2019)

No entanto, a sua natureza era de guerrilheiro, por sido fará, ainda um serviço de formação de tropas, veja-se lá as voltas que a vida dá, ao serviço do MPLA, em Angola, mas posto em causa pelos soviéticos, acaba por regressar a Portugal.

Muito complicada a história em geral e então a História recente?

 

 

 

Saldo do guerra:

 





10 mil mortos, 35 mil feridos, 25 mil deficientes, e 200 mil vítimas de stress de guerra.

Tinham chegado, portanto, tinham tido muito mais sorte do que quem tinha ficado amalgamado a uma árvore por força do Napalm,  virado tripas por força das minas, ou morrido, depois de um longo sofrimento, no hospital.

Um monumento a estes homens que não recusaram ir à guerra? A natureza humana é muito variada. Ir, “lutar ou morrer”, como repete a canção dos Delfins, voltar, quando havia sempre a possibilidade, “ o soldadinho não volta do outro lado do mar! Para mim é justo, um monumento de dor, de agradecimento a quem sacrificou a sua juventude numa luta que muitos não compreendiam a razão, mas,  mais do que isso, tratar as suas dores, com compreensão e tolerância e seguir em frente num movimento de fraterna solidariedade entre todos os povos, com destaque para os PALOP.

 

Fontes:

Afonso Aniceto, Gomes, Matos, Carlos ( 2001) Guerra Colonial, Editorial Notícias, Lisboa

Antunes, José Freire, A guerra de África, 1961-1974, 2vols ( 1995), Círculo de Leitores

Cardina, Miguel, (24de fevereiro de 2001) Guerra colonial: um passado que não passa?, Publico.

Jorge, Alves, (2019) Marcelino da Mata, inédito

Marc Ferro em Comment on raconte l’histoire aux enfants à travers le monde entier, ( 1981), Paris, Payot

Melo, João, Os anos da Guerra- 1961-1975. 2 vols. (1988) D. Quichote

Rioux, J.P. (1999). Pode-se fazer uma história do presente? Em A. Chauveau, A. & P. Tétart (Orgs.). Questões para a história do presente. (I.S. Cohen, Trad.). Bauru, SP: EDUSC.


Vieira, Joaquim, Portugal no século XX – Crónica em imagens (1960-1970), Círculo de Leiitores, 2000

Vieira, Joaquim, Portugal no século XX – Crónica em imagens (1970-1980), Círculo de Leiitores, 2000

Debates televisivos entre Fernando Rosas, Pacheco Pereira e outros. (2021)


 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Guerra colonial: um passado que não passa?

 

OPINIÃO

Guerra colonial: um passado que não passa?

O que é que Portugal pretende fazer para enfrentar, de forma cabal, os persistentes silêncios sobre este passado?


Miguel Cardina

24 de Fevereiro de 2021, 6:20

A morte de Marcelino da Mata veio relançar o debate sobre a guerra colonial. Na verdade, ele nunca deixou de aqui estar. O facto de se manter uma amnésia induzida sobre este acontecimento histórico faz com que ele regresse sucessivamente, e de formas nem sempre expectáveis.

A guerra é uma recordação difícil. Decorreu no quadro de uma ditadura que fez um forte investimento na legitimação ideológica da sua presença colonial, ao mesmo tempo que censurava a opinião e prendia opositores. Não se consegue entender a longevidade da guerra sem se ter isso em mente. Como não se pode perceber a mudança introduzida na sequência do 25 de abril, marca fundacional do regime democrático, sem se remeter para a guerra e, mais concretamente, para o papel que tiveram os militares do MFA – e os movimentos de libertação – na queda do Estado Novo e no fim do colonialismo.

Só isto bastaria para tornar problemáticas as palavras do PR e do ministro da Defesa na sequência da morte de Marcelino da Mata, bem como o teor do voto de pesar no Parlamento. A natureza burocrática do texto é um sintoma das suas omissões: ao remeter no abstrato para a “coragem e bravura individual” do comando, esquece a tradução concreta de certos atos macabros, que o próprio fez em várias entrevistas, e que configurarão crimes de guerra. O argumento formalista, que consiste no elenco das condecorações, omite que foram dadas por um regime cujo derrube, justamente no quadro de uma derrota política na guerra, é a razão da democracia que temos. Inadvertidamente ou não, tratou-se de uma reencenação da heroicidade colonialista do Estado Novo, tingida de silêncios sobre atos que em alguns casos (a Operação Mar Verde é um exemplo) mereceram explícita condenação das Nações Unidas.

Não é correto dizer, como se ouviu por estes dias, que na Guiné se cometeram atrocidades “dos dois lados”. Essa equivalência não só ilide o contexto colonial em que a guerra se processa, como não resiste à prova histórica. Não quero transformar este texto num cortejo de horrores, mas já existe muita informação – inclusive testemunhos de ex-combatentes – que comprova isso mesmo. Basta querer conhecer. Por outro lado, e se é verdade que a guerra é a guerra, também não é certo considerar que todos aqueles que nela participaram se regiam pela mesma bitola ou tiveram os mesmos comportamentos. Boa parte dos ex-combatentes foram levados para África para combater numa guerra da qual tentaram sair ilesos. Por causa dela, vários deles sofrem, ainda hoje, sequelas físicas e psicológicas, por vezes estendidas às suas famílias, e vão morrendo sem grande atenção pública. Também por isso, a guerra é uma recordação difícil.

Há dois outros elementos a sublinhar. Em primeiro lugar, o corte com a ditadura fez-se instaurando um peculiar pacto de silêncio sobre a guerra, optando-se por não enfrentar um passado, então recentíssimo, no qual se haviam cometido as atrocidades típicas de uma guerra em solo colonial, com massacres de populações, tratamento brutal a prisioneiros e uma efetiva ligação entre o Exército, as tropas especiais e a PIDE/DGS. Em segundo lugar, esta violência incomoda porque entra em contradição com a narrativa lusotropicalista que o Estado Novo promoveu e que permanece fortemente enraizada na memória pública. Se Portugal não tinha colónias, se a presença em África foi ampla e amigavelmente acolhida pelas populações locais, como enquadrar a guerra neste discurso?

Com efeito, a guerra colonial foi o desfecho tardio de um império já anacrónico. É um dos capítulos desta vasta história europeia que, encerrada em termos políticos, vai teimando em manter-se viva como imaginário nacional e nas suas distintas reverberações sociais, de que o racismo é uma das suas faces mais visíveis. Foi com a consciência de que seria necessário enfrentar essa página da história que Macron encomendou um relatório para se fazer um inventário sobre a colonização e a guerra na Argélia. Na sua sequência, o conceituado historiador Benjamin Stora entregou, no mês passado, um conjunto de 22 recomendações ao Presidente francês, entre as quais se contam várias iniciativas memoriais conjuntas entre os dois países: de entre elas, o esclarecimento de alguns massacres e crimes cometidos; a abertura de arquivos e o impulso a investigação comum sobre este passado; a renovação dos programas escolares; a promoção de exposição e colóquios sobre a guerra nas suas múltiplas faces, incluindo a recusa da guerra, e sobre as independências africanas.

Como é óbvio, não advogo nenhuma cópia a papel químico do conjunto destas recomendações. A questão é outra: o que é que Portugal pretende fazer para enfrentar, de forma cabal, os persistentes silêncios sobre este passado?

Historiador, investigador do CES/UC, coordenador do projecto CROME – Memórias Cruzadas, Políticas do Silêncio. As guerras coloniais e de libertação em tempos pós-coloniais, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico​

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https://www.publico.pt/2021/02/24/opiniao/opiniao/guerra-colonial-passado-nao-passa-1951756?fbclid=IwAR0aXCasn24JRZGAlYQkBczpxYGy87B6glK78vJQitnf12-eyHWzxKaQzr0

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Ensino à distância

 


Cá estamos nós no ensino à @distância

É um imperativo protegermo-nos todos.

Esperemos que  a maioria dos alunos tenham condições suficientes para continuar a aprender, a desnvolver-se e a refletir sobre as aprendizagens.

Sabemos que muitos dos alunos não têm as melhores condições, mas os professores, estão a tentar minorar (não conseguem resolver de todo) o mal.

  Os professores, também, não têm as melhores condições de trabalho em casa, aliás como não tinham na escola. Em alturas de “guerra não se limpam armas”!

Era possível ser melhor e temos que exigir melhores condições para todos, mas agora, mãos à obra! Reivindiquemos  que as condições tecnológicas e de acesso ao ensino melhorem, rapidamente, e que sejam tomadas as medidas acertadas para controlo  do vírus e para suster a crise económica.

Não vai ficar tudo bem, mas esperemos pelo melhor possível!

 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

O ensino à distância em 1937

 


Ensino transmitido pela rádio em Chicago, em 1937



 

As aulas à distância não são de hoje, embora muitos problemas se repitam

A influenza de 1918-19 e epidemias como escarlatina, sarampo, difteria, gripe e outras contam-se entre doenças que fecharam escolas em alguns países ou estados dos E.U.A.

O tempo era compensado com a mudança do calendário escolar e a abertura de aulas ao sábado.

Em 1937, durante o surto de poliomielite, as aulas foram adiadas, pensando-se, então, em fazer uma experiência, como se vivia a euforia dos “ dias da rádio”, pensou-se transmitir programas de rádio ao qual tiveram acesso cerca de 315.000 crianças, já que, em média, cerca de 80% das casas dos E.U. possuía um rádio, exceto  no sul dos EUA, em áreas rurais e entre pessoas mais carenciadas.

As aulas foram supervisionadas por especialistas  que recolhiam as opiniões e as transmitiam aos professores.  Iniciavam-se com  ginástica  e prosseguiam com outras disciplinas, nunca ultrapassando o limite de quinze minutos que deveriam ser  intercalados por assuntos divertidos. De seguida, eram deixadas questões para os alunos responderem autonomamente. O cunho da experiência tinha como lema “divertido mas informativo”, ou seja um estilo envolvente e significativo para as crianças.

No primeiro dia, a equipa que monitorizava a experiência recebeu mais de 1000 chamadas que deram um feedback positivo, no entanto, havia quem referisse a distração das crianças  e a sua dificuldade em acompanhar as aulas, bem como a impossibilidade de colmatar dúvidas no momento.

Os estudos da altura não incidiram na questão do acesso, que, certamente incidia nos mais carenciados e nos estados do sul sem acesso ao aparelho de rádio.

Aliás, hoje, o mesmo problema se coloca. Só a título de exemplo, uma franja de população da Califórnia necessitaria de 1 milhão de computadores e muitos mais pontos de acesso.

Por cá, e se olharmos para as nossas escolas, as dificuldades são imensas e as assimetrias sociais cavam alto os seus fossos.

No que respeita às transmissões é também interessante fazer alguma reflexão!

 

Fontes:

https://www.facebook.com/jornaldahistoria

https://ecommons.luc.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=3272&context=luc_diss

https://www.newspapers.com/clip/59888554/children-to-be-taught-by-radio-dixon/

https://theconversation.com/remote-learning-isnt-new-radio-instruction-in-the-1937-polio-epidemic-143797

https://theconversation.com/how-much-of-a-difference-does-the-number-of-kids-in-a-classroom-make-125703